22/02/14

O Retrato de Ricardina, de Camilo Castelo Branco

 O Retrato de Ricardina, Camilo Castelo Branco
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Retrato de Ricardina, de Camilo Castelo Branco

Outra manifestação desse lugar comum surge no prólogo (“A QUEM LER”) de O Retrato de Ricardina. Entre o verdadeiro inverosímil e o verosímil inventado, o autor decidiu-se, como sempre, pelo primeiro caminho, a despeito de poder cair em descrédito perante o leitor:

Esta novela parece querer demonstrar que sucedem casos incríveis. O autor conheceu alguns personagens e soube como passaram as cousas aqui referidas.
Pois, assim mesmo, tão incongruentes lhe pareceram que ficou longo tempo indeciso se lhe seria melhor inventá-las para saírem mais verosímeis do que as verdadeiras.
A consciência gritou-lhe quando o romance estava já urdido e enredado com outro feitio.
Venceu a verdade, onde, já agora, e tão-somente, lhe é permitido vencer: — nas novelas. (OC VII, p. 701).

[...]
O capítulo XXVIII de O Retrato de Ricardina, o último, sintomaticamente intitulado “Enfim…”, representa o reencontro entre Ricardina, Bernardo Moniz e Norberto Calvo, constituindo o culminar de um processo de reaproximação dos protagonistas, depois da separação que parecia irremediável. É um capítulo dominado pela cena dialogal, entrecortada com segmentos descritivos como este, depois de Norberto Calvo se dar a
reconhecer: «Ricardina levantou-se, caminhando vacilante para ele, com os braços abertos em cruz, pedindo com este gesto que lhe dessem amparo.» (OC VI, p. 864). A partir daí, o diálogo vai progredindo num crescendo até ao clímax do reconhecimento de Bernardo:

— É melhor que o senhor Bernardo venha cá — disse o sargento. — Olhe… — e apontou para a porta. — Olhe, fidalga, ele aí está!
Ricardina olhou.
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Não me afoito a descrever o lance.
O espectáculo era dois seios que se apertavam com um transporte, só comparável ao trance da agonia com que vinte e quatro anos antes se tinham apartado. (OC VI, p. 868).

[...]

N’ O Retrato de Ricardina, o desenvolvimento da intriga passional é determinado pelo ataque dos estudantes de Coimbra aos lentes que integravam a deputação destinada a felicitar D. Miguel, de tal maneira que este episódio histórico constitui uma função cardinal, provocando a disjunção entre os protagonistas, Bernardo Moniz e Ricardina. Ao estabelecer essa articulação, fazendo de Bernardo Moniz um dos acadêmicos alistados no grupo dos conjurados, o narrador procura conciliar o interesse romanesco com a necessidade de informação histórica contextualizante fornecida numa digressão que qualifica metadiscursivamente como “intermitência enfadosa”:

Delongue-se o menos que ser possa uma intermitência enfadosa nesta narrativa. Duas linhas sobre política.
Em 1827 referviam as paixões de escravos voluntários contra a ansiedade irreprimível dos devotos da liberdade. (OC VI, p. 723).


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Fonte:
João Paulo Braga Correia da Silva: “Retórica da ficção: a construção da narrativa camiliana”. (Tese apresentada à Universidade Católica Portuguesa para a obtenção do grau de Doutor em Literatura Portuguesa,sob a orientação de Prof. Doutor Aníbal Pinto de Castro). Universidade Católica Portuguesa, 2011.

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