15/02/14

Contos Paraenses, de João Marques de Carvalho

 Contos Paraenses, de Marques de Carvalho
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Hortência, de João Marques de Carvalho

Em “Hortência”, Marques de Carvalho mostra os esforços da lavadeira Maria, mulher pobre que sobrevivia graças ao seu trabalho, em exortar o filho Lourenço para os chamados valores ideais:

“(...) Que ele havia de acabar mal, ponderava a velha com a voz molhada de lágrimas (...). Por que não se comportava para merecer a estima de toda a gente? Que tivesse juízo, que trabalhasse, para ajudar nas imprescindíveis despezas cotidianas. A irmã, (...) necessitava de um bom exemplo de comportamento para seguir pela boa trilha do trabalho e da honra. (...)”

Já o jovem Lourenço, um “rapagão de gênio essencialmente paraense” era um exemplo definitivamente negativo de masculinidade na visão do autor, pois desgostava do trabalho, fazia mau uso da palavra, posto que mentia, empregava termos considerados vulgares, altercava freqüentemente com quantos o desafiavam e seduzia não só mulheres casadas, como também a própria irmã. Nesse sentido, Lourenço é apresentado por Marques, como o masculino repleto de falhas, o mau exemplo por excelência, uma vez que se mostrava incapaz de prover o sustento da família e de proteger suas mulheres (mãe e irmã), as quais acabaram sendo alvo da exploração do dito rapaz, fosse porque sustentavam-no materialmente, como também porque foram vítimas de sua libido pervertida, posto que seduziu a própria irmã e espancou a mãe.

De modo semelhante, os perfis femininos idealizados, guardam certa semelhança. Como Elionora por exemplo, a jovem Hortência de Marques de Carvalho tinha também suas devoções. No quarto simples, conservava uma imagem de São José envolto em mantos de variadas cores e sempre recorria à Virgem Maria e o menino Jesus em suas orações. Sentia afeição pela mãe, a quem buscava obedecer e referir-se com palavras atenciosas.

“Ao sentir os passos da filha, ergueu o busto, voltou a cabeça.
- Então? – Perguntou.
- ‘Sta tudo arranjado, nhá mãe.
- Ora graças, exclamou a velha.
- Agora, ponderou Hortência, vou trabalhar muito, pra ajudar a
minha mãezinha do meu coração!...”

Nestes relatos e idealizações não havia espaço para a tolerância com o descontrole, altercações, irrogação de ofensas. Aliás, nas produções literárias em questão, tais atitudes são registradas como exceções, causadas por desequilíbrios geradores de tensões, dentro de um quadro de normalidade tranqüila, que deveria ser preservada ou então cultivada.

No caso da enfermeira Hortência, por exemplo, seu envolvimento com o irmão Lourenço e distanciamento de Maria, mãe de ambos, foi severamente punido, pois a jovem passou a levar uma vida de amarguras e dissabores com o companheiro.

Arrependeu-se dos confrontos verbais travados com a mãe, que não conseguiu reencontrar senão quando esta última já estava à morte e silenciada pelo desgosto.

“Ali estava ela assim ao deus dará, sem a sua bondosa companheira, com o remorso de a ter deixado partir sem arrancar-lhe a palavra de perdão que tanto bem lhe causaria na sua soledade! Já não tinha mãe, era bem certo!(...)”

E o autor foi mais além: ao reencontrarem-se diante do corpo inerte da mão, Hortência e Lourenço tiveram sua última altercação. Esta, regada pela embriaguez masculina, foi concluída com o assassinato de Hortência pelo companheiro. Ou seja, finalizando seu romance com o confronto fatal entre os dois irmãos, Marques de Carvalho endossou o discurso que associava a embriaguez a um rol de outros problemas sociais, dentre os quais as ofensas mortais.

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Fonte:
Conceição Maria Rocha de Almeida: “O Termo Insultuoso: ofensas verbais, história e sensibilidades na Belém do Grão Pará (1850-1900)”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre. Orientador: Professor Doutor Antonio Otaviano Vieira Júnior. Universidade Federal do Pará). Belém, 2006.

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