18/02/14

A Afilhada, de Manuel de Oliveira Paiva

 A Afilhada, de Manuel de Oliveira Paiva
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A Afilhada : um romance e uma cidade nas páginas de um jornal

O romance A Afilhada está inserido nesse cenário. O enredo consiste na trajetória paralela de duas personagens femininas: Maria das Dores e Antônia. A primeira é uma moça bem-nascida. Sua mãe, dona Fabiana, tenta, a todo custo, casá-la com o visconde Afrodísio. Este, mulherengo, tem graças por Antônia, afilhada de Fabiana, criada na mesma casa que Das Dores. Sem conseguir sucesso, com o visconde, Das Dores casa-se com o primo Vicente, sobrinho de seu pai, desembargador Osório, participante do partido liberal. Depois de casados, Vicente e Das Dores vão morar na capital brasileira, o Rio de Janeiro. A opção da viagem se dá principalmente por Vicente não conseguir conviver com uma cidade tão provinciana e incivilizada, como Fortaleza.

Antônia, menina sem condição de ser criada pelo pai biológico, morou a vida toda na casa dos padrinhos. O título do romance faz referência óbvia à personagem. O livro possui quatro longos capítulos e, mesmo sendo Antônia a protagonista da trama, sua história só é desenvolvida e revelada principalmente nos dois últimos, quando esta, grávida, decide fugir de casa, sem saber ao certo de quem é seu filho, pois se envolvera com o visconde e o seu empregado, João Batista. Fora de casa, ela se perde, passa por aflições e tem o fim trágico de uma morte abandonada. Antônia e Das Dores são habitantes de uma mesma cidade: a Fortaleza de Oliveira Paiva.

O romance possui uma carga dramática forte. Suas personagens, repletas de moral burguesa, expressam sentimentos existentes pela sociedade fortalezense no final do século XIX. Essa relação dos personagens dá o suporte narrativo para Oliveira Paiva poder construir literariamente Fortaleza. Para Rolando Morel Pinto, a cidade é amoravelmente reconstituída, esmerando-se o autor na pintura da natureza e na projeção da cidade, com uma seleção de ângulos variados e pitorescos. Todas as vezes que o narrador tem oportunidade, cede foco de visão às personagens, e então se descortinam panoramas coloridos do Outeiro, as brancas praias do Meireles, tudo em estilo de cartão postal (Pinto In: Paiva, 1993: XXII).

Ao entender o romance como um documento de investigação, busquei perceber a forma como Oliveira Paiva, no romance-folhetim, descrevia e apresentava o cenário urbano de Fortaleza. A Afilhada traz a projeção das ações intelectuais e políticas que compuseram as agremiações e academias intelectuais presentes nas esquinas da cidade, compostas por grupos da classe média, funcionários públicos e burocráticos que tentavam dar uma guinada na terra do Siará. O romance demonstra um presságio dos elementos da modernidade na capital alencarina9. O escritor referenda na trama personagens com aspectos racionais e científicos, além de demonstrar a convivência com negros, ex-escravos libertos, e as discussões existentes acerca da implementação da República. Ao construir a cidade por meio da literatura, Oliveira Paiva, em suas descrições de ambiente e composição de diversas personagens, realiza a costura de vários elementos políticos e culturais para reescrever, criar, refletir e apresentar a cidade com a qual convivia e desejava.

Logo no segundo parágrafo do romance, Oliveira Paiva revela as suas intenções de tentar descortinar o espaço onde se passa a trama, por meio de uma leitura social e uma tentativa científica de entender a cidade de Fortaleza: “A Fortaleza não tinha aristocracia, nem classes e não sei se hoje tem; por modo que a florescente cidade poderia comparar-se a um organismo em formação, a uma semente fermentando, onde só o olho do sábio divisa o que há de ser o caule, folha raiz” (Paiva, 1993:164)

A idéia de organismo remete principalmente à perspectiva estética naturalista da qual Oliveira Paiva esteve à frente, enquanto integrante do Clube Literário e redator da revista A Quinzena. Mas o termo organismo e a metáfora da árvore, além de propor a naturalização das classes sociais, possibilitam o entendimento de que Fortaleza tenha vida, que seja um corpo em constante processo de transformação e suas células, seus moradores.

De fato, Fortaleza passava, no período retratado pelo romance, por um processo de transformação e começou a receber os primeiros elementos de urbanização. Mozart Aderaldo, em sua História Abreviada de Fortaleza (1998), diz que a década de 1880 traz para Fortaleza, o bonde, a inauguração da primeira parte do Passeio Público. A capital ainda contava com quatro livrarias, nove farmácias, nove professores de pianos e oito cafés. Em paralelo, a arquitetura da cidade passou a ser pensada com a pretensão de racionalizar o crescimento espacial e demográfico de Fortaleza.



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Fonte:
Tiago Coutinho Parente (Universidade Federal do Ceará): “A Afilhada : um romance e uma cidade nas páginas de um jornal”, disponível em: www.ufrgs.br

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