25/01/14

Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco

 Camilo Castelo Branco - Amor de Perdicao - Iba Mendes
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O Narrador e o Leitor: Protagonistas de Amor de Perdição

Primordialmente, em Amor de Perdição,o leitor é convocado para exercer a função de mediador entre o texto e o público. Graças a ele o narrador expande muito de suas opiniões, define conceitos e canaliza a sua influência, pretendida implícita ou explicitamente, sobre a recepção (cf. CASTRO, 1967, p. 199). Ao interpelar esse leitor, o narrador/autor reúne em torno de si condições de se antecipar às observações, comentários e críticas que a obra, uma vez publicada, estaria sujeita. Assim, por uma manobra de antecipação, os efeitos dessas críticas tornam-se passíveis de serem suplantados e/ou atenuados, legitimando perante a audiência o processo de escrita, bem como o texto dele decorrente. Além disso, as expectativas de leitura do público são colocadas em questão, como também os códigos literários que as orientam.

Um breve exame da obra supracitada é suficiente para atestar a constante interação dialógica entre narrador e leitor. Já na introdução, este é convidado a tomar partido na história que será narrada, como se pode perceber no trecho que segue:

Folheando os livros [...] das cadeias da Relação do Porto, li [...] o seguinte: / “Simão Antônio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa, e assistente na ocasião da sua prisão na cidade de Viseu, idade de dezoito anos [...]. / Foi para a Índia em 17 de Março de 1807”. / Não seria fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor, se cuido que o degredo de um moço de dezoito anos lhe há de fazer dó. Dezoito anos! [...] As louçarias do coração que ainda não sonha em frutos, e de todo se embalsama no perfume das flores! [...] O amor daquela idade! A passagem do seio da família [...] para as carícias mais doces da virgem, que se lhe abre ao lado como flor da mesma sazão e dos mesmos aromas, e à mesma hora da vida! [...] E degradado da pátria, do amor e da família! Nunca mais o céu de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem reabilitação, nem dignidade, nem amigo!... É triste! / O leitor decerto se compungia; e leitora, se lhe dissessem em menos de uma  linha a história daqueles dezoito anos, choraria! / Amou, perdeu-se, e morreu amando. / [...] E a história assim poderá ouvi-la a olhos enxutos a mulher, a criatura bem formada das branduras da piedade, a que por vezes traz do céu um reflexo da divina misericórdia?! Essa, a minha querida leitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes, não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdera [...] tudo, por amor da primeira mulher que o despertou do seu dormir de inocentes desejos?! / Chorava, Chorava! (AP, p. 18).

A análise do excerto, bastante elucidativa, permite divisar o modo como o narrador estabelece a relação com o leitor, regulando de modo tático as informações preliminares e deixando vislumbrar o plano de escrita que pretende desenrolar, bem como o  seu processo de elaboração. A princípio, essa atitude pode ser entendida como um movimento que visa a facilitar o acesso ao texto, tornar a leitura uma tarefa fácil, confortável e harmoniosa. O fragmento, nesse sentido, revela um texto estrategicamente planejado a partir de um conhecimento prévio das preferências e gostos do público para o qual se encaminha.

Munido de um discurso lírico-passional, o narrador busca atingir a sensibilidade do leitor, a fim de suscitar, num primeiro momento, compaixão em relação à trajetória do herói e, num segundo momento, o interesse pela leitura, assegurando a recepção aos fatos que vai narrar. Consoante Annabela Rita (2003, p. 38):

Através desse comentário, o narrador tenta fazer-nos empatizar com Simão Antônio Botelho. Para nos comover usa dois argumentos bastante eficazes: a juventude e o amor de Simão. Eficácia aumentada pelo excesso persuasivo que resulta da combinatória da pontuação emocional com a repetição desses mesmos argumentos e com registros da emoção do próprio narrador. Tudo isso condiciona fortemente o leitor. Mas, como se isso não bastasse, o narrador ainda lhe prescreve um modo de leitura: a comoção. E fá-lo apresentando-a como conseqüência natural da sensibilidade, da boa formação e da humanidade [...].E, assim, no limiar de  Amor de Perdição, o sujeito da escrita não apenas prescreve uma atitude de leitura como comove [...] o leitor através da afetividade.”

A história de Simão Botelho, resumida na emblemática frase “amou, perdeu-se e morreu amando”, não foi escolhida aleatoriamente, antes parece ser resultado de um pacto de escrita e leitura selado entre narrador e leitor. Pacto esse, que se pautou pelo atendimento a determinadas demandas estéticas, particularmente àquelas difundidas no seio da audiência burguês-romântica do século XIX (tenha-se em mente, por exemplo, o sentimentalismo).

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Fonte:
Moizeis Sobreira de Sousa: “A ficção camiliana: a escrita em cena”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa do Departamento  de   Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernando da Motta de Oliveira). São Paulo, 2009.

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