15/11/13

Memórias da Rua do Ouvidor, de Joaquim Manuel de Macedo

 Joaquim Manuel de Macedo - Memorias da Rua do Ouvidor - Iba Mendes
Para baixar este livro gratuitamente em formato PDF, acessar o site  do “Projeto Livro Livre”: http://www.projetolivrolivre.com/
(Download)

Os livros estão em ordem alfabética: autor/título (coluna à esquerda) e título/autor (coluna à direita).

---

Joaquim  Manoel  de Macedo  e  as  Memórias  da  Rua  do  Ouvidor 


O  escritor  Joaquim  Manoel  de  Macedo  iniciou-se  na  literatura  com  grande  notoriedade,  em  1844,  com  a  publicação  de  A Moreninha,  obra  com  a  qual  inaugura  o  romance  nacional, embora a crítica  literária divida o  mérito e apresente, como Candido, por  exemplo, que o romance “toma corpo em 1843 com a obra O filho do pescador de Teixeira e  Sousa e a Moreninha de Joaquim Manoel de Macedo, no ano seguinte” (2000, p. 100).

Macedo, cujo nome se  inscreve entre as  maiores  figuras da  literatura contemporânea  brasileira,  participou,  ainda,  da  vida  política.  Porém,  a  obra  Memórias da Rua  do  Ouvidor,  publicada em 1878, é central, para os objetivos desta pesquisa, pois, nela, o escritor, além do  aspecto literário, registra suas impressões e seus conhecimentos histórico-geográficos sobre a  cidade do Rio de Janeiro, onde viveu a maior parte de sua vida.

Memórias  da  Rua  do  Ouvidor  é  uma  narrativa  histórico-folhetinesca  da  qual  o  narrador se serve para nos remeter ao passado e retratar usos e costumes de uma classe social  urbana e afrancesada, sob o regime imperial, em meados do século XIX. A obra foi publicada,  inicialmente, como folhetim, no Jornal do Comércio, em 1877, e, depois, em 1878, os textos  foram reunidos na forma de romance. O folhetim se publica com uma certa periodicidade e há  uma autonomia visível entre partes ou capítulos da obra. 

Não  se  trata  de  uma  autonomia  apenas  no  nível  formal  dos  episódios  da  série,  que corresponde,  também,  a  uma  autonomia  em  termos  de  conjunto  de  ações  e  personagens, descritas  de  forma  independente.  Nesse  sentido,  Memórias  da  Rua  do  Ouvidor  é  uma composição aberta porque não se verifica uma intriga ou uma situação que se problematiza e se intensifique (clímax) e, finalmente, se resolva.

O narrador descreve a rua e apresenta fatos a ela relacionados em pequenas narrativas, constituindo  aspectos  cotidianos,  geralmente,  situações  bizarras,  da  formação  da  cultura brasileira em geral e da Rua do Ouvidor, em particular, ficcionalizados ou não. No conjunto da narrativa, o espaço da Rua do Ouvidor é o único elemento que permanece explicitamente em todos os capítulos. Na linguagem genettiana, trata-se de uma  isotopia unificadora (1971, p.33).

O  narrador identifica  o  seu  texto como  folhetim:  “[...] pois  que a  minha tradição  da Rua  de  Aleixo  Manuel  não  pode  caber  tôda  neste  folhetim,  eu  seria  o  mais  inexperiente  e insensato dos folhetinistas, se não interrompesse a narração, [...]” (Sic) (p. 8-9). Então, nós o trataremos como narrativa literária. 

A  obra  apresenta  uma  série  de  narrativas  que  se  configuram  em  uma  montagem romanceada  ou  em  um  romance  caracterizado  como  uma  sobreposição  de  textos  Para Candido,  o  romance  é  um  “gênero  sem  normas”,  e  acrescenta:  no  Brasil,  o  romance romântico,  para  além  do  valor  estético  e  da  dinamização  do  projeto  nacionalista,  tornou-se uma “forma de pesquisa e descoberta do país” (2000, p. 99). Macedo produz uma  narrativa ficcional,  operando  transgressões  e  apresentando  aspectos  de  verdades  atribuídos  a  pessoas pouco  representativas  historicamente,  como  vice-reis  e  nobres,  desconhecidos  da  História oficial  do  país  e  outras  personagens  secundárias  como  funcionários  liberais,  subalternos  e escravos entre outros. 

O  narrador  não  registra  a  História,  nem  a  ficção,  mas  nos  adverte  que,  “salvo  o respeito devido à sua condição de rica, bela e ufanosa dama, tomo com a minha autoridade de memorialista-historiador26,  e  exponho  ao  público  a  Rua  do  Ouvidor  em  seus  cueirinhos  de menina  recém-nascida  e  pobre”  (p.  2).  E,  mais  adiante,  complementa,  permitindo  total liberdade a seus leitores para aceitar ou não os seus critérios e verdades: 

Para  casos  de  aperto,  como  este,  o  memorista  que  se  reserva  direitos confessos  de  imaginação,  deve  ter  sempre  velhos  manuscritos  ricos  de tradições que expliquem o que se ignora. (p. 4)

Referi  o  caso  de  Williams  e  de  Mlle.  Luci;  quem  quiser  que  o  tome  por verdadeiro  ou  imaginação,  e  agora  deixem-me  prosseguir seriamente  na exposição das Memórias que escrevo. (Sic., p. 95)

Apesar de, nas primeiras páginas, o narrador autodenominar-se memorista-historiador  (p. 2), em vários momentos, como nas citações anteriores, deixa entrever que utiliza também a  imaginação para escrever sobre a Rua e explicar o que não conhece. Assim sendo, quando o  narrador  não  sabe  o  que  realmente  aconteceu,  recorre  à  imaginação,  enfeita  um  detalhe  ou  outro, acrescenta um comentário e assim vai construindo a narrativa, sempre, na tentativa de  manter a característica da verossimilhança.  Ao utilizar os termos memorialista, memorista e  historiador  para  se  autodenominar,  ou  histórico, para  narrar  fatos  da  diegese,  o  narrador  dá  ênfase  a  aspectos,  acontecimentos  e  personagens  que  ele  quer  afirmar  terem  existido.  O  próprio  termo,  História,  apresenta  um  duplo  sentido:  como  “narração  metódica  dos  fatos  notáveis ocorridos na vida dos povos, em particular, e na vida da humanidade, em geral”; ou  como “conto, narração, narrativa, enredo, trama, fábula”, portanto, ficção, sem conotação de  verdade que se relacione com a história real (HOLANDA FERREIRA, 1983, p. 644).  

É possível perceber, também, certa ironia do narrador ao afirmar que vai “prosseguir  seriamente” na apresentação da rua. Isto é, as Memórias da rua estão baseadas na tradição, em  manuscritos, mas também na imaginação. O leitor decide se acredita ou não nas informações  elencadas pelo narrador. 

A certa altura, o narrador declara: “meu trabalho  era e é romance, embora histórico”  (p.70).  Candido,  ao  analisar  os  recursos  narrativos  da  ficção  de  Teixeira  e  Sousa,  fiel  aos  modelos  folhetinescos,  considera  que  os  romances  do  autor  se  aproximam  do  gênero  romance-histórico “tanto pela  localização  temporal  e a tentativa  de reconstruir os  costumes,  quanto  pelo  recurso  a  fatos  ou  personagens  históricos”  (2000,  p.118,  v.2).  Ainda  sobre  o  conjunto  em  análise  de  Teixeira  e  Souza,  Candido  faz  referência  à  denominação  romance  “quase-histórico”  ou  ainda  “romance-minhoca”,  pois  que  feito  “por  partes  justapostas,  alternando-se  ou  tripartindo-se  as  várias  meadas,  dando  as  mais  das  vezes  a  impressão  de  pedaços, cozidos numa duvidosa unidade” (idem, ibidem).

A obra  Memórias da Rua do Ouvidor poderia ser classificada da mesma forma, visto  apresentar  uma  intenção  confessa  de  retomar  a  História  da  rua:  “porque  tomei  a  peito  escrever-lhe  a  história”  (p.  1),  fatos  e  personagens  históricas  a  ela  relacionadas.  Se  observarmos a composição dos capítulos, é possível perceber que, em alguns, ocorre apenas a  descrição da rua e  de  fatos e  personagens que  por ali passaram  sem  nenhuma  ligação entre  eles,  além  de  sua  relação  com  a  Rua,  pode  ser  constatado.  Entre  uma  e  outra  descrição,  o  narrador introduz algumas narrativas, histórias de amores condenáveis, de espertos rapagões,  de  desencontros,  muitas,  de  caráter  cômico,  sem  a  preocupação  explícita  com  a  coesão  narrativa, embora ela exista. 

Entre o real  e o  ficcional,  o  narrador  apresenta as  memórias  da  rua,  como  forma  de  resistência ao esquecimento, como estratégia para apresentar o passado interagindo com a arte  ficcional. Trata-se de uma verdadeira viagem toponímica, na qual se concentram Histórias e  estórias da “monumental” Rua do Ouvidor, que procura resgatar a origem de outras ruas, dos  nomes  das  ruas  e  das  pessoas,  dos  espaços,  pelo  recurso  da  memória  e  do  que  o  narrador  designa  “tradição”.  Isso,  de  certa  forma,  colabora  para  atribuir  um  caráter  de  verdade  e  verossimilhança à narrativa. Essa parece ter sido a forma como o público leitor a considerou,  na  época  da  publicação  em  folhetim,  tanto  que  o  autor  precisou  acrescentar  capítulos  para  satisfazer o público. Assim, a narrativa responde às expectativas dos leitores.

O  contrato  da  ficcionalidade,  ou  seja,  o  critério  de  fingimento,  ou  o  faz-de-conta  (estabelecimento de um  mundo possível), aceito em relação à construção da obra, não exige  uma ruptura com a realidade extratextual e, na perspectiva da sociocrítica, remete ao mundo  real. O leitor e o autor estabelecem um pacto, denominado por Reis e Lopes como “suspensão  voluntária  da descrença”  (1988, p. 44) que é  fundamental  para  a aceitação  das  verdades  na  narrativa. Na aceitação do mundo possível, a  lógica pode  não ser  homóloga ao mundo real.  Trata-se, na  verdade, de uma “pseudo-referencialidade”, em que a “referência metafórica” é  decorrente,  segundo  Ricoeur,  “a  leitura  coloca  de  novo  o  problema  da  fusão  de  dois  horizontes, o do texto e o do leitor [...]” (1994, p.121), portanto ocorre uma interação entre o  mundo da  ficção  com  o mundo  real  do  leitor. Ocorre o que Jauss  (1994)  denomina  como a  fusão entre o horizonte de expectativas dos elementos representados na obra e o do público  leitor. 

Para  acirrar  a  indefinição,  o  narrador  das  Memórias  declara  consultar  seus  “velhos  manuscritos” e, mais ainda, adverte o leitor: 

[...]  como  estes  [manuscritos],  porém,  não  trazem  nome  de  autor,  nem  baseiam  em  documentos suas informações, é claro que  só me aproveitam  para enfeitar estas Memórias; porque fora abuso  condenável  expor-me a  falsificar a  história,  dando  por  fatos  averiguados  alguns  devaneios  da  imaginação. (p.69, grifos nossos)

Justifica o seu procedimento em função do objeto: 

[...] hei  de teimar  nele:  escrevo  as  Memórias  da Rua  do Ouvidor,  que  em  seu  caráter  de  rua  das  modas,  da  elegância  e  do  luxo  merece  e  deve  ser  adornada e adereçada condignamente. Não vendo gato por lebre, desde que  previamente declaro a origem e a matéria das tradições, que vou contando a  salvar sempre a verdade histórica. (p. 69)

Essa verdade histórica encontra-se no intervalo e não dispensa o conhecimento de seu  leitor  (narratário).  Nas  memórias,  a  combinação  entre  ficção  e  História  é  sempre  confessa.  Aqui,  o  narrador  se  propõe  a  apresentar  as  pseudomemórias  da  Rua  do  Ouvidor.  Sua  preocupação  não  reside  na  exemplaridade  ou  no  rigor  dos  fatos,  tampouco  ele  pretende  apresentar  fatos  elogiosos  ou  de  caráter  pedagógico;  ele  se  compromete  apenas  com  o  ambiente social em que a produção folhetinesca tem um espaço privilegiado, pois  se trata de  um modismo importado da França. Esse tipo de escrita em folhetim, cuja essência consiste em  aprisionar o leitor e, no limite, leva à dissipação do senso crítico, “provoca o desaparecimento  da fronteira entre a literatura e a vida” (TADIÉ, 1992, p. 186).

O narrador parece ter um interesse maior em prender o leitor, registrando suspenses e  construindo  pequenas  fábulas  com  enredos  simples,  como  a  vida  dos  prováveis  leitores  da  época, muitas vezes, com finais cômicos. Para um leitor menos atento, talvez, para o leitor da  época,  a  narrativa  parece  não  provocar  grandes  ou  complexas  reflexões,  porque  ele  não  consegue captar a  narrativa como  um  todo, devido à  fragmentação  em capítulos publicados  semanalmente,  e  porque  precisaria  se  distanciar  da  sua  própria  história  para  ver  com  olhar  crítico o que Macedo apresenta em sua produção. Assim, a obra, por sua estrutura narrativa,  poderia  ser  classificada  como  gênero  de  fronteira,  por  não  seguir  um  modelo  ou  padrão  e,  assim,  não  se  poder  classificá-la  rigidamente  em  romance  ou  História.  Entretanto,  como  já  anunciamos, consideramos, para a análise que engendramos, o texto como narrativa,   O  livro  é  composto  por  dezenove  capítulos  iniciados  por  um  breve  resumo  que   antecipa  os  fatos  mais  importantes,  para  o  narrador,  que  procura  manter  a  atenção  de  um   possível leitor (narratário)...


---
Fonte:
Fátima de Lourdes Ferreira Liuti: “Representações Literárias da Rua do Ouvidor”. (Tese  apresentada  ao  Instituto  de  Biociências,  Letras  e  Ciências  Exatas  da  Universidade  Estadual  Paulista,  Programa  de  Pós-Graduação  em  Letras  -  Área  de  Concentração  em  Teoria  da  Literatura,  Campus  de  São  José do Rio Preto, como requisito para obtenção do Título  de Doutora em Teoria da Literatura.  Orientadora: Profa. Dra. Norma Wimmer). São José do Rio Preto, 2007.

Nenhum comentário:

Postar um comentário