19/10/13

O Tronco do Ipê, de José de Alencar

 Jose de Alencar - O Tronco do Ipe - Iba Mendes
Para baixar este livro gratuitamente em formato PDF, acessar o site  do “Projeto Livro Livre”: http://www.projetolivrolivre.com/
(Download)


Os livros estão em ordem alfabética: autor/título (coluna à esquerda) e título/autor (coluna à direita).

---

Impasse e conciliação:  a posição do homem livre pobre em O tronco do ipê

É  provável  que  nunca  estivesse  tão  presente,  no romance rural do XIX, de modo explícito, sistemático e recorrente, o mal-estar que a condição de dependente  representa para este tipo de personagem, como se percebe  n’O tronco do ipê. Com modulações variadas de sentimentos e expressão em face do problema, que passa pelo sarcasmo, toca a autocomiseração e o constrangimento, chegando muitas vezes ao ressentimento, certos aspectos que cercam a posição de Mário como dependente são a linha de força que movimenta significativamente a primeira parte do romance de Alencar. Como n’O sertanejo e em Til, romances do mesmo autor, temos como protagonista um dependente de um grande proprietário. Entretanto, do ponto de vista da narrativa, enquanto Arnaldo Louredo (O sertanejo) e Berta/Jão  Fera (Til),  sobretudo estes  últimos,  transitam  de modo inconsciente na relação de dependência, Mário, ao contrário, enuncia não somente o lugar que ocupa na fazenda Nossa Senhora do Boqueirão, como protegido do barão da Espera, como também o mal-estar que tal situação representa para ele. Observe-se que, das sete passagens destacadas, seis são intervenções feitas diretamente pelo protagonista, e apenas numa, a sexta, é o narrador que se põe na perspectiva do personagem inserido em tal condição. Esta maneira de o romance formular um dos nós centrais terá consequências expressivas no plano narrativo,  como se tentará mostrar mais adiante.

A primeira parte do romance, que a bem dizer preenche quase que simetricamente a sua metade, é tomada de tom nervoso, crispado. Uma estridência tensa que tende a ser amainada, ou mesmo parece querer se confundir ou se misturar à própria natureza juvenil das situações apre- sentadas, já que as idades dos personagens centrais, Mário, Alice e Adélia, giram, nesse momento, em torno de 12 a 15 anos. Num certo sentido, é como se estivéssemos apreciando a estrepitosidade juvenil dos personagens em geral, mesclada e interposta à estridência desgostosa, insatisfeita e irritadiça de Mário diante da condição de dependente que ocupa. Em O tronco do ipê, os acontecimentos do passado familiar de Mário vão determinar o todo da narrativa, ou seja, a caracterização do protagonista, a sua posição social e o andamento da intriga.

Mário Figueira, desde menino (período este da vida do protagonista que corresponde à primeira parte do romance), carrega a suspeita de que Joaquim Freitas, o barão da Espera, esteja ligado ao destino fatal de seu pai, José Figueira, morto nas águas do boqueirão, bem como à posse inesperada da fazenda. Em flashback, nos capítulos X e XI, intitulados “Dois amigos” e “Desastre”, o leitor toma conhecimento de que José Figueira e Joaquim de Freitas foram amigos de infância. Pobre e órfão de um administrador de fazenda, este se torna protegido do comendador Figueira, pai de José, o qual o ajuda a montar “uma pequena casa de negócio”. Vendo no casamento “toda a esperança, todo o futuro; era a riqueza tão ardentemente ambicionada” (ALENCAR, 1980, p. 39), é, todavia, com a posse da propriedade que Joaquim de Freitas enriquece. Com a morte do comendador e a enigmática morte de José Figueira  no  boqueirão,  sabe-se,  de  modo  surpreendente  para  os envolvidos, que ele se tornara um dos principais credores do comendador, “a quem estava hipotecada a fazenda de Nossa Senhora do Boqueirão no valor de cem contos de reis” (ALENCAR, 1980, p. 42). A partir desta situação, torna-se dono da propriedade; em seguida, pleiteia e obtém, em troca da soma de doze contos de réis “doados” ao hospício de Pedro II, o título de barão; e também por gratidão e generosidade ampara agora em suas terras a viúva e o filho de José Figueira, D. Francisca e Mário. A passagem de Joaquim de Freitas de homem livre pobre a grande proprietário reconfigura a posição social de Mário no presente da intriga, que de potencial proprietário passa a protegido e dependente. Parodiando a famosa expressão de  Sérgio  Buarque  de  Holanda,  Mário  é  um  expropriado em suas próprias terras. Deriva desta situação, mais sentida do que refletida por parte do protagonista, o sentimento de que “todas as pessoas da amizade do rico fazendeiro incorriam na antipatia do menino” (ALENCAR, 1980, p. 67). Dentre elas, Alice, a filha do barão da Espera, será, a princípio, alvo central do ressentimento de Mário, destilado por um sarcasmo e por um pretenso desprezo dos privilégios que cercam a menina por ser filha de proprietário “nobre” e rico. A afronta contínua e sistemática à posição da garota não vai sem uma dose ambígua de desejo oculto de admiração, não só pela condição social que, ao que tudo indica, gostaria de ver como sua, mas também  pela própria figura feminina de Alice. Esta, por sua vez, sempre tolerante com o rapaz, atribui o caráter irritadiço de Mário a seu “temperamento forte”.

Sob este aspecto, a perspectiva admirativa da menina não deixa de, em boa dose, coincidir com a do narrador. A posição precária de Mário e a expressão (ressentida) que isso toma não invalidam o caráter positivo que o narrador atribui ao protagonista. Ao contrário, este é assumido com todas as letras, como se pode notar:

Quando  se  observava  aquele  menino  e  via-se  o  meneio altivo  com  que  ele  atirava  a  cabeça  sobre  a  espádua,  o gesto frio e compassado, a ruga precoce que lhe sulcava o sobrolho e a expressão desdenhosa do lábio crespo, não se podia o observador eximir a um sentimento de repulsa. Parecia que essa criança de quinze anos já se julgava com o direito de desprezar o mundo, que nem conhecia, e os homens de que ele era apenas um projeto. Entretanto com a continuação do exame aquele sentimento de repulsa diminuía. Havia nessa fisionomia um quer que seja que atraía, malgrado; adivinhava-se na fronte larga uma inteligência vigorosa; e vinha como um vago pressentimento, de que a expressão estranha de seu rosto não era outra cousa senão o confrangimento dessa alma superior (ALENCAR, 1980, p. 14).

Alma superior e confrangimento, uma disjunção que constitui o personagem pela ótica do narrador. O gesto frio, a ruga precoce, a expressão desdenhosa – tudo isso com- pondo “a expressão estranha” do rosto de Mário – seriam fruto do confrangimento de sua alma superior, observa o narrador, a quem o leitor não pode deixar de ter vontade de perguntar: o que atormenta, oprime e constrange o  protagonista? e, por outro lado, o que o torna uma alma  superior? Mário é superior por quê? superior a quem? superior para quê?

Quanto à primeira questão, ela parece estar respondi- da nas seis passagens transcritas que abrem esta parte do trabalho e no comentário parcial que esbocei. No entanto, situar o personagem na órbita da dependência é de suma importância  para  o  nosso  raciocínio,  mas  não  é  tudo. Tínhamos observado rapidamente acima que as situações que expressam o “sentimento de confrangimento” do personagem formulam-se predominantemente por meio do discurso direto. Ou seja, é a própria consciência do personagem que enuncia o mal-estar sobre a sua posição social, em situações de interlocução. Estrategicamente, digamos, o narrador fica à sombra das observações do personagem, e os comentários daquele se tornam menos enigmáticos se atentarmos para a divisão de perspectiva que compõe a caracterização do personagem como um todo. Esta resulta numa multiplicidade de pontos de vista da qual o narrador, em relação ao protagonista, se resguarda de comentários e  juízos  diretos  sobre  a condição social  de  Mário e  seu  significado. Não se pretende, neste artigo, aprofundar o sentido estratégico da posição do narrador alencariano; deixaremos isso para outro momento. Interessa destacar, por ora, o fato de a narrativa se compor por uma espécie de divisão de pontos de vista envolvidos na tarefa de caracterização do protagonista. A este, como se mencionou, cabe enunciar o lugar social precário que ocupa e o sentimento disso derivado; ao narrador cumpre fazer comentários algo abstratos referentes a esta situação, apenas indiretamente vinculados a ela, e também, e sobretudo, tecer comentários e juízos positivos e elevados em face do caráter e da personalidade do protagonista.

Esta é uma divisão de perspectivas que, com outros objetivos ficcionais, já está presente em outros romances de Alencar, como O sertanejo. Aqui como lá, está na instância narrativa a resposta à segunda questão, como já se pode perceber. Mas se n’O sertanejo o narrador punha a sua voz a serviço da configuração de um herói de histórias romanescas, aquele que fica a meio passo do mito e do homem, em O tronco do ipê, o narrador trata mesmo de homens. Mário não pode ser visto como herói no sentido que se atribui a Arnaldo Louredo, encarnação da figura nacional,  ao menos  em  uma das  suas  facetas.  No caso  de Mário, o caráter elevado e positivo do personagem  é  chancelado  pela  autoridade  do  narrador.  (E  aqui  nos aproximamos da segunda parte do nosso questionamento.) Caso se possa falar no aspecto “heroico” do personagem, este deve se referir à identidade que a instância narrativa expressa e mantém em relação às suas virtudes e qualidades morais e sociais. São caracterizações abstratas e genéricas (“inteligência vigorosa”, “alma superior”, etc.), em face  de certas situações concretas vividas por ele, que alçam Mário à esfera elevada ao imputar uma espécie de aura de dignidade, de reputabilidade, de nobreza e de correção. Ao mesmo tempo em que definem a sua essência em relação a si mesmo, elas o fazem na diferenciação diante dos outros personagens. Estes, se podem ter alguma respeitabilidade  social e de caráter, não se inscrevem no mesmo nível do protagonista. Assim, pode-se dizer que Mário é um herói na medida em que é exemplar e ilustrativo do homem  elevado no que pode se considerar o contexto prosaico do mundo rural alencariano, enquanto Arnaldo, por sua vez, em seu viés positivo, sintetiza o aspecto heroico da particularidade nacional no contexto mítico-aventureiro do mundo rural alencariano.

[...]

---
Fonte:
Fernando C. Gil: “Impasse e conciliação:  a posição do homem livre pobre em O tronco do ipê. Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.18, 2011
 

2 comentários:

  1. MARAVILHOSA IDÉIA ! DE LIVROS GRÁTIS ! UM RESUMO DO GÊNERO LITERÁRIO DO AUTOR , MAIOR CONHECIMENTO E DÁ MAIS GOSTO DE LER ATENTAMENTE ! MUITO BOM MESMO .

    ResponderExcluir
  2. MARAVILHOSA IDÉIA ! DE LIVROS GRÁTIS ! UM RESUMO DO GÊNERO LITERÁRIO DO AUTOR , MAIOR CONHECIMENTO E DÁ MAIS GOSTO DE LER ATENTAMENTE ! MUITO BOM MESMO .

    ResponderExcluir