11/10/13

O Sertanejo, de José de Alencar

 Jose de Alencar - o Sertanejo - Iba Mendes
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O Romance O Sertanejo e a Brasilidade (resumo - análise)

O autor inicia essa obra demonstrando um pouco de nostalgia em relação ao seu  mundo interiorano, onde passara a infância, conforme se pode observar pela frase inicial do romance:

“Quando te tornarei a ver, sertão da minha terra, que atravessei há muitos anos, na aurora serena e feliz da minha infância? Quando tornarei a respirar tuas auras impregnadas de perfumes agrestes, nas quais o homem comunga a seiva dessa natureza possante?.”

Essas indagações do autor nos levam a perceber que, da perspectiva de Alencar, o sertanejo era quem ainda vivia em contato direto com a natureza, e que dela poderia absorver sua força física e sua energia. Quanto mais proximamente o homem vivesse da natureza, maior seria a intensidade com que ele se beneficiaria da força da natureza, pois a vida no sertão lhe permite o conhecimento da mata e estreita a sua relação com a natureza, o que nos revela uma grande marca de brasilidade na obra.

É o podemos comprovar pelo seguinte trecho da obra: “Para o sertanejo a floresta é um mundo, e cada árvore um amigo ou um conhecido a quem saúda, passando. A seu olhar perspicaz as clareiras, as brenhas, as coroas de mato, distinguem-se melhor do que as praças e ruas com seus letreiros e números.” (O sertanejo, p. 46)

Num primeiro momento, parece-nos que os romances chamados regionalistas ou sertanistas nascem dessa nostalgia do autor em relação às suas lembranças da infância vivida no interior do Ceará. Porém, no prefácio a Sonhos d`Ouro (1872), quando Alencar explica o que pretendia ao revelar o interior do País, vamos encontrar razões mais fortes para a sua real intenção ao retratar o interior do país:

Onde não se propaga com rapidez a luz da civilização que de repente cambia a cor local, encontra-se ainda em sua pureza original, sem mescla, esse viver singelo de nosso país, tradições, costumes e linguagem, com um sainete todo brasileiro. Há, não somente no país, como nas grandes cidades, até mesmo na corte, desses recantos, que guardam intacto, ou quase, o passado.

Desta passagem, podemos depreender a idéia de que, para Alencar, a verdadeira essência brasileira, na sua condição mais original e simples, está no mundo rural, no interior do país, o que mais uma vez revela o projeto do romancista em mapear o país, revelando-o em toda a sua extensão geográfica, mostrando a unidade da nação, os modos de vida do homem do interior, enfim, os aspectos mais originais da vida rural. É justamente o que encontramos em O sertanejo: o campo resguardado das influências dos centros urbanos, o campo que ainda conserva em sua forma original de viver, as tradições e costumes do país, “com um sainete todo brasileiro”

Assim, nos romances regionalistas, vamos perceber o interesse de Alencar em focalizar, da perspectiva romântica e, ainda que, de maneira imaginária, o aspecto interior de cada região, o modo de vida de seus habitantes, seus costumes, hábitos, tradições e as relações sociais ou os aspectos da vida coletiva, deixando de lado os traços urbanos das capitais para revelar a capacidade do homem do campo em aliar seus hábitos sociais à beleza natural das terras brasileiras.

Para Coutinho (1986, p. 262), o romance regionalista no romantismo de Alencar significa o deslocamento do interesse do autor, do geral nacional para o geral regional, já que depois de ter iniciado o registro da vida brasileira como um todo, Alencar, como que limitando seu ponto de observação, propõe um romance representativo de determinadas regiões, seja porque elas lhe pareçam mais diferenciadas e de traços mais fortes, ou porque elas seriam regiões que naturalmente dividiam o país: o norte, o centro e o sul. E dentro de cada uma delas focalizaria o aspecto interior, a vida agrícola com suas peculiaridades, seus hábitos, seus costumes, suas tradições, as relações sociais aí verificadas, os pormenores da vida coletiva, abandonando o aspecto urbano das capitais e ressaltando a figura do sertanejo, do homem do interior, valorizando o seu modo de vida e o meio rural.

Importa ressaltar que, embora o autor direcione sua atenção para o interior, ele não perde de vista seu propósito maior: o de revelar pela descrição da paisagem física e social do Brasil todas as belezas e singularidades da nação recém-independente.

Assim, O sertanejo, uma das obras regionalistas de Alencar, pode, ser tomado como um de seus romances mais brasileiros, pois nele percebemos o quanto Alencar dá expansão ao seu estilo e gênero descritivos. É como afirma M. Cavalcanti Proença “O sertanejo é um fragmento do grande mural da nacionalidade que J. de Alencar realizou na sua obra de romancista”.

Nele, assim como na maioria de seus romances, a natureza simples e bela ocupam  lugar de destaque na obra.

Conforme afirma Coutinho (1986) Alencar, embora não tenha sido o primeiro a publicar um romance regionalista no Brasil – Bernardo de Guimarães e Franklin Távora já haviam iniciado a publicação de suas obras - sobressaiu em relação aos demais pelo cuidado em apreender e revelar o processo de desenvolvimento entre a vida das capitais e a vida rural, demonstrando uma tendência realista já verificada nos romances histórico e urbano. É importante ressaltar, ainda segundo Coutinho (1986), que “o romance regionalista, na literatura universal, nasceu da atividade e da estética românticas, como possível fruto da reação contra o subjetivismo exagerado, cujo epifenômeno era a hipertrofia do eu”. (COUTINHO, 1986, p. 263)

O mesmo autor explica que, no caso do Brasil, esse tipo de romance também nasceu da estética romântica, mas não de uma reação ao subjetivismo exagerado, mas de uma tendência realista que deu suporte e inspiração ao romance histórico.

O Sertanejo de Alencar torna-se, assim, um desdobramento do romance histórico, elaborado a partir dessa tendência realista, o que lhe configura o aspecto regionalista, embora haja por parte de vários historiadores e críticos a tendência em não incluir o romance regionalista em nosso Romantismo. No entanto, Coutinho (1986) entende essa parte da obra de Alencar como regionalista, pois nela uma unidade regional está, tanto quanto o possível representada e tem lugar de importância dentro da obra.

Por exemplo, a região em que se passa O sertanejo, não é a mesma em que se passa O gaúcho, nem no aspecto físico nem tampouco nos seus aspectos geográficos e culturais. Podemos até dizer que Arnaldo guarda algumas características de Peri, mas o mesmo não podemos afirmar em relação à figura do sertanejo com a de Manoel Canho, pois tanto um quanto outro são produtos de meios diferentes, mas sob uma perspectiva, que é a do autor. E essa perspectiva era romântica, e nem se poderia exigir que não fosse, como aqueles que reprovam e criticam Alencar por não ter aprofundado o seu regionalismo. O romance regionalista de Alencar talvez represente, dentro de sua obra e mesmo no conjunto do romance romântico, segundo Coutinho (1986),

aquele aspecto em que mais e melhor se desenvolveu e fixou a tendência realista do nosso Romantismo. Foi preocupação sua, aqui ou nos temas indígenas, registrar o que havia de típico em nossa sociedade rural, desde o comportamento individual e as relações domésticas, até o registro do folclore. (COUTINHO, 1856, p. 264)
 
Acrescenta-se a isso, os dizeres do crítico Agripino Grieco (apud COUTINHO, 1986) sobre a importância de Alencar para o estudo de nossas tradições, quando afirma que Alencar “foi o autor que pretendeu ver um país em conjunto, de extremo a extremo, e se tornou o grande poeta, o grande historiador, o grande pintor desse país.” Grieco (apud COUTINHO, 1986, p. 264)

É o que pode ser confirmado, também, nas palavras de Machado de Assis (1962), quando assim se refere a Alencar:

O espírito de Alencar percorreu as diversas partes de nossa terra, o norte e o sul, a cidade e o sertão, a mata e o pampa, fixando-as em suas páginas, compondo assim com as diferenças da vida, das zonas e dos tempos, a unidade nacional de sua obra. (ASSIS, 1962, p. 625)

Seus romances regionalistas demonstram o interesse pelas regiões mais distantes do Brasil, aliando os hábitos sociais da vida do homem do campo à beleza natural das terras brasileiras. Ao contrário das obras urbanas em que as mulheres eram figuras centrais, nos romances regionalistas os homens são figuras centrais, com toda a sua ignorância e rudeza, enfrentando os desafios da vida. As mulheres assumem papéis submissos e frágeis.  Finalmente, é preciso admitir que Alencar, se não realizou todo o seu projeto de construção de uma literatura genuinamente brasileira, pelo menos, abriu, através dos romances regionalistas, o caminho para o surgimento de um grupo de escritores denominados regionalistas, isto é, escritores que, preocupados em revelar o Brasil na sua variedade geográfica, com seus hábitos específicos, passaram a produzir uma literatura de afirmação da nacionalidade através da valorização e expressão da vida do homem do interior. Para tanto, focalizavam as regiões revelando seus hábitos, crenças e sua a linguagem.

 Vemos, pois, que Alencar, ao focalizar em seus romances uma determinada região, como é o caso do Ceará em O sertanejo, não estava preocupado, especificamente com o regional, mas com o nacional. Assim sendo, é possível admitirmos que o elemento regional foi focalizado para revelar a diversidade, a grandiosidade do país em todos os seus aspectos sociais, culturais, geográficos e lingüísticos.

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Fonte:
Silvana Rodrigues de Souza Queiroz: “O VOCABULÁRIO ALENCARIANO DE  O SERTANEJO: UMA ANÁLISE  LÉXICO-SEMÂNTICA” (Dissertação apresentada ao Programa de  Pós-graduação em Lingüística – Curso  de Mestrado em Lingüística do Instituto  de Letras e Lingüística da Universidade  Federal de Uberlândia, como requisito  parcial para obtenção do título de Mestre  em Lingüística.  Orientador: Prof. Dr. Evandro Silva Martins).  Universidade Federal de Uberlândia, 2006

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