12/10/13

A Alma do Lázaro (Alfarrábios), de José de Alencar

 Jose de Alencar - A Alma do Lazaro (Alfarrabios)
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A crônica romanceada A Alma do Lázaro 

 A Alma do Lázaro  é um texto que os especialistas classificam como novela ou  crônica romanceada. Com uma trama simples, quase pueril, é portadora, porém, da  faculdade de manter o leitor preso à singularidade da sua construção literária.  Ambientada em Olinda, na segunda metade do século XVIII, é dividida em duas partes.  Na primeira, o autor (e também narrador) explica ao leitor a sua busca pela inspiração  para os escritos em questão, encontrando-a num diário abandonado nas ruínas de uma  edificação da citada localidade. Na segunda parte da obra, Alencar dá voz, literalmente,  ao autor do diário encontrado, reproduzindo através dos próprios escritos deste, a sua  saga de dor, desprezo e humilhações por ter contraído o “hediondo mal de Lázaro”.  Nesse sentido, é o próprio Alencar quem adverte:

São de outro tom os singelos contos que formam estes Alfarrábios... não convidam ao  riso, que tão excelente especiaria é para um livro de entreter. Bem longe disso, talvez  que espremam dos corações mais ternos e sentimentais uns fios de lagrimas. Caso  assim aconteça, será com bem pesar meu, pois sinceramente acho de mau-gosto  lembrar-se alguém de produzir choros d'artifício a guisa de jogos de vista, quando não  faltam motivos reais de tristeza e aflição...(ALENCAR, 2011:19-20).
Com essa “introdução”, Alencar intenciona alertar ao leitor que vai tratar de um  tema árido. Esclarece que seu objetivo não é provocar “choros d‟artifício” sugerindo  que o tema em questão é motivador de tristezas e aflições “reais”. A narrativa é feita na  primeira pessoa, por um estudante da Academia de Olinda, Pernambuco, fascinado por  Olinda e pelas batalhas e glórias dos antepassados daquela gente. Por sofrer de insônia  e por acalentar um desejo secreto de ser escritor, vagueia pelas cercanias da Vila, numa  muda contemplação dos velhos casarões à procura de inspiração para um conto, uma  novela que fosse em “prosa estirada”.

A partir deste momento da narrativa, é impossível para o leitor desvincular o autor, o personagem narrador das desventuras do lázaro e o próprio lázaro, estratégia  que Alencar utiliza em toda a crônica. O autor, ao trilhar tal caminho, cria para um leitor  um sentimento de recepção em que os principais personagens e ele próprio (o autor) não  se dicotomizam e não parece haver limites entre o que seria ficcional e o que seria  supostamente real (fora da crônica, dito na introdução da obra).
Voltando à trama, nas suas andanças, encontra o narrador, as ruínas de antigo  convento, nomeado por ele de Convento do Carmo. A solidão noturna levava-o a sondar  os destroços de alvenaria da velha edificação e suas paredes fluas, procurando “uma  memória, um nome, uma inscrição, uma frase” que lhe revelasse algum mistério, que  lhe sugerisse “o epílogo de alguma lenda que a imaginação completaria”. Numa noite de  tempestade, é forçado a abrigar-se no antigo convento e lá encontra um velho pescador.  Este segundo personagem, Antônio (Tonico) vai possibilitar ao narrador, engendrar a  sua trama.

 Antônio ou Tonico vai contar ao estudante a história de um  leproso que vivia numa casa abandonada, um pouco afastada das casas  os pescadores e habitantes em geral, porém, relativamente próxima ao convento e que, naturalmente,  sobrevivia da caridade e auxilio das religiosas que ali residiam. O fragmento abaixo  retrata o inicio da conversa entre o estudante e o velho pescador. Ancorada na memória  do segundo, é bastante emblemática da situação de um enfermo de lepra em meados do  século XVIII:

- Um pobre moço doente... veio morar naquela casa porque todos fugiam  dele...
- Que doença?
 - O moço era como o que foi ressuscitado pelo Cristo!
- Lázaro?
- Senhor, sim. Agora, quantos andam por aí como ele? Mas, naquele tempo  não era assim. A gente pensava que aquilo era uma praga mandada por  Deus pelos pecados dos homens...(ALENCAR, 2011: 25-26).
A noção da “doença de Lázaro” como a expressão de pecado mortal ou faltas  graves é observada desde a Antiguidade. No Ocidente ou Oriente antigos, o diagnóstico da doença era realizado por um sacerdote ou autoridade religiosa similar. Se fosse  confirmada a doença, o enfermo estava “morto” para o mundo e como conseqüência  deveria isolar-se de todos. Assim, uma série de interdições e prescrições impostas aos  leprosos foi constante, nas mais variadas culturas e épocas.

Porém, de toda a narrativa que faz o velho pescador acerca da vida miserável e  isolada que levava o pobre lázaro de Olinda, um detalhe chama a atenção do nosso  narrador: a existência de um diário escrito pelo enfermo nas suas imensas horas vazias.  A existência desse diário leva o estudante a encontrar outras vezes o pescador para  supostamente ouvir suas histórias, mas guardando o secreto desejo de descobrir onde  estariam guardados os escritos do leproso. Finalmente, consegue que Tonico o leve até  o local onde estava guardado o diário:
... cavamos três palmos; creio que se abrisse o túmulo de um ente que me fosse caro, não sentiria as emoções porque passei naquele momento. A chuva  que caíra a cântaros amolecera o terreno e facilitara o trabalho. Depois de  um quarto de hora de escavação, o pescador tirou do chão uma caixa de  folha, que teria dois palmos de comprimento, sobre um e meio de largo, já  inteiramente oxidada. E carregado com meu tesouro, recolhi-me.  (ALENCAR, 2011:30-32)

 O narrador teria mantido “o tesouro” consigo durante vinte anos, até que  decidiu publicá-lo. Assim, a narrativa do estudante em busca de uma inspiração para sua  novela ocupa a primeira parte da obra e a segunda, resume-se a suposta narrativa do  lázaro, na forma como o próprio a teria organizado. Assim, a segunda parte da novela  “A Alma do Lázaro” é totalmente dedicada à narrativa do leproso segundo as suas  próprias palavras.
Tal narrativa e dividida em dias (mais ou menos equivalentes há três meses haja  vista que começa em 07 de março de 1752 e termina em nove de maio do mesmo ano).  O primeiro texto assim inicia:

“... estou só no mundo. A quem direi a minha dor? Ao vento para levá-la à  gente que me escarnece? Que profunda é a solidão desta casa... parece-me  um túmulo! A noite desce como lousa fria e negra. Ah! Se com ele me  trouxesse o repouso. Mas é só morte ao coração, a fé, a crença. A dor vive  em meu cadáver. Depois que morri não me conhece... Sim! conhecem-me  quando me fogem (ALENCAR, 2011: 35-36) .

O fragmento de texto acima, atribuído ao leproso, sugere os sentimentos de  solidão, dor e abandono a que todos os leprosos eram acometidos quando a doença se  tornava visível. Porém, o modo como eram tratados os leprosos no século XVIII (ou  XIX e até primeiras décadas do século XX) não devem ser dissociado do pavor que a  doença disseminava por suas várias características: por ser uma enfermidade  deformante, paralisante, cujos agentes etiológicos eram completamente desconhecidos,  por acreditar-se que era contagiosa, incurável, e, portanto, letal. Assim, na ausência de tratamento, medicação e cura, a sociedade se apavorava diante da possibilidade de  contrair tal enfermidade:

A notícia da minha enfermidade divulgou-se de modo espantoso. Quando  passava, apontavam-me de longe. Murmuravam meu nome. Realmente, o  Lázaro não é mais um homem. Foi concebido pela mulher, mas foi a praga  que o abortou. No terror que infunde é fera, no asco que excita, é verme!  (ALENCAR,2011: 42-43).

Para além da fuga de qualquer contato ou proximidade física com um lázaro,  qualquer objeto que pudesse ser tocado por ele era recusado pela população. Diante  deste fato, podemos afirmar que a moeda que passasse pelas mãos de um enfermo de  lepra era recusada no comércio. Segundo a trama em questão, o lázaro do qual se fala,  possuía uma escrava que realizava para ele as tarefas que, necessariamente, eram feitas  fora de casa. Um dia, esta foi às compras e os comerciantes recusaram o dinheiro que  sabiam ser proveniente do lázaro como ilustra o fragmento da página dezenove,  transcrito abaixo:
Maria voltou da feira sem as compras. Do seu jeito chucro achou as  palavras para me dizer: os regatões recusam receber o dinheiro que passou  por minhas mãos... têm nojo do meu dinheiro! Do seu dinheiro... se o tivesse  roubado, o aceitariam, mas, tocaste no dinheiro e eu também ...(ALENCAR,  2011:45-46).

 Em virtude de não poder circular pela localidade durante o dia, apesar de não  apresentar ainda as escrófulas nas mãos e na face - o lázaro passeava à noite protegido  pelas sombras. Assim, vagava pelas praias e pelas ruas e distraía-se olhando as pessoas  de longe, sem ser visto por elas. Num desses passeios chamou-lhe a atenção uma bela  voz feminina que interpretava cantos de “louvor ao menino Jesus”. Aproximou-se da  habitação de onde vinha a voz e como a casa possuía uma varanda, observou uma jovem  que cantava recostada numa rede.

A partir daquele dia, passou a observar diariamente o sítio e sempre no mesmo  horário: no momento em que a moça cantava suas orações. A moça (Úrsula) também  passou a observá-lo e à medida que os dias passavam, a moça procurava aproximar-se  cada vez mais do local onde o lázaro permanecia um pouco oculto pelas sombras da  noite. Numa dessas ocasiões sorriu-lhe e após dias e dias nessa mútua troca de olhares e  sorrisos entende-se que surge um imenso amor (embora totalmente platônico). Entre os  dois.

 O infeliz lázaro achava-se hediondo por “ousar erguer os olhos para a mais bela  criatura de Deus” E rogava a este Deus que o “fulminasse” antes que pudesse infligir  qualquer mal à sua bem-amada. Porém, negando a racionalidade que o acometia durante  dia, a cada noite, aproximava-se mais de Úrsula, a ponto dela lhe ofertar uma rosa e  exigir que lhe revelasse o seu nome.   Nessa noite, de tão doce enlevo no seu cotidiano de solidão, deixou-se ficar  alheio na contemplação da figura da amada. Neste transe, não viu surgir o corpo  alquebrado de um velho amigo da família de Úrsula. Este momento é assim narrado  pelo personagem:

 Eis que se rasgou a escuridão e vomita sobre mim as chamas do inferno e  cinge-me uma labareda sinistra. Corro. Mas, além está o luar alvacento.  Alaga o rúbido clarão todo o arvoredo. Volvo esvairado sobre os passos e de  novo na flama vermelha que me persegue como a língua do Satanás: - É o  Lazaro! É o Lázaro! Brada o velho com voragem de desespero. Ainda ouvi o  grito de angústia que despedaçou a alma de Úrsula... (ALENCAR, 2011:55-57).
Este se constitui no momento de clímax da novela. O instante em que Úrsula  entende as razões do seu amado esconder-se e não dirigir-lhe a palavra. Seguindo o fio  da narrativa o leitor imagina, inicialmente, que Úrsula assume o mesmo comportamento  de todos os demais e rejeita o lázaro, haja vista que não mais aparece na varanda ou é  vista. Porém, o epílogo da novela é surpreendente romântico e o fechamento da obra  revela uma carga de dramaticidade que supera as expectativas do mais criativo leitor.

Nas páginas finais, ao leitor é dado a saber que, Úrsula adoecera de amor e  tristeza. Fica implícito que a moça, por ser sabedora da impossibilidade de realização da  sua história de amor, definha até a morte. O lázaro, retornando ao sítio onde residia sua  amada percebe uma grande movimentação e intui que algo acontecera a Úrsula.  Desesperado, invade a residência e percebe que o que ali ocorria era o velório da jovem.  Num ato extremo, o lázaro rouba o corpo da bem-amada e o leva consigo para a cabana  em que morava.

 A família de Úrsula e a cidade em fúria, perseguem o lázaro pelas ruas da cidade  até a sua morada. Lá chegando, decidem atear na cabana. Ainda assim, o lázaro  sobrevive para escrever o diário encontrado pelo narrador e que deu origem à trama,  supostamente.

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Fonte:
Zilda Maria Menezes Lima: “A Alma do Lázaro” de José de Alencar:  uma possibilidade de diálogo entre História das Doenças e Literatura. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011

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