03/10/15

Stefan Zweig: Pensamentos & Perfis, de Salomão Rovedo

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Stefan Zweig, Brasil e o Holocausto

Izabela Maria Furtado Kestler
izabela@alternex.com.br

"No mar, tanta tormenta e tanto dano,
tantas vezes a morte apercibida;
Na terra tanta guerra, tanto engano,
tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano?
Onde terá segura a curta vida,
que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da-terra tão pequeno?"
Luís de Camões, Os Lusiadas, Canto Primeiro, Estrofe 116

Stefan Zweig, com certeza não ficou sabendo antes de sua morte por suicídio a 22 de fevereiro de 1942 em Petrópolis, da dimensão do holocausto na Europa. Há registros, no entanto, de que ele estava informado sobre a perseguição sofrida pelos judeus e, sobretudo, sobre os pogroms ocorridos na Alemanha e na Áustria. Stefan Zweig, todavia, não se manifestou publicamente sobre o assunto. Tal silêncio se explica por duas razões principais.

A primeira delas está ligada á sua biografia. Zweig sempre foi um escritor cosmopolita, pacifista, um típico representante de uma mentalidade intelectual, cujas raízes estavam solidamente fincadas no idealismo alemão de um Goethe e de um Schiller. Mentalidade esta que, se por um lado era avessa ao debate político e á luta partidária, se caracterizava por outro lado pela defesa dos valores espirituais, não num sentido religioso, e sim num sentido humanístico de defesa dos valores da pessoa humana, de sua liberdade, independentemente de "raça" ou nação. Pode-se assim definir o idealismo alemão como o pendant literário-filosófico da Revolução Francesa.

E não é á toa que as aspirações humanistas do idealismo alemão tenham atraído tanto os escritores e intelectuais de língua alemã de origem judia, tornando-se uma espécie de Ersatz para a crença religiosa propriamente dita, ou seja, uma espécie de religião dos judeus alemães assimilados. É importante assinalar aqui que os ideais do idealismo alemão correspondiam ás aspirações de emancipação e, sobretudo de assimilação á Alemanha por parte dos judeus. Um deles, por exemplo, o banqueiro e mecenas Hugo Simon, conhecido de Stefan Zweig da Alemanha, que também esteve exilado no Brasil, descreve em seu romance autobiográfico seu entusiasmo pelo idealismo alemão já a partir da adolescência:

"O conceito de internacionalismo nos fascinava. Não estar mais limitado a um só país, mesmo que este seja grande, mas sim ser cidadãos do mundo, assim como havíamos lido em Goethe, em Schiller e nos outros clássicos da literatura, e assim como procurávamos viver agora com o maior empenho, isto, sim é o que nos parecia ser o maior ideal da humanidade".

O próprio Stefan Zweig descreve de forma elegíaca e melancólica o mundo intelectual e espiritual em que vivia na Europa e também a perda irreparável deste mundo em sua obra autobiográfica O Mundo que eu vi. Este mundo intelectual de valorização humanística, de pregação dos ideais de fraternidade e de paz, que afinal de contas era tão ilusório quanto o paraíso vislumbrado por Zweig no Brasil, morreu definitivamente em 1933.

A segunda razão para o silêncio de Stefan Zweig está ligada ás condições políticas e sociais do Brasil da época. A ditadura Vargas, que de um lado flertava com o nazismo assim como com o fascismo italiano e de outro cedia ás pressões norte- americanas no sentido de cortar relações com a Alemanha, com a Itália e com o Japão, tinha uma política imigratória pautada pelo anti-semitismo, a qual permitia exceções de um modo geral apenas para "imigrantes" judeus "capitalistas" (ou seja, para aqueles que transferissem uma certa quantia de dinheiro para o Brasil) ou para artistas e intelectuais de conceito internacional. Enfim, tratava-se de uma política imigratória que ignorava a tragédia dos judeus na Europa ocupada pelos nazistas, os quais na maior parte dos casos não pretendiam imigrar para o Brasil no sentido corrente do verbo imigrar e sim buscar refúgio seja lá onde fosse. Stefan Zweig só pôde se radicar no Brasil, porque seu caso preenchia a cláusula de escritor de renome internacional. Acostumado como era a viajar pelo mundo sem passaporte, sem ter que preencher declarações nem requerer vistos de entrada e saída, a condição de refugiado atormentava muito Stefan Zweig. Após a anexação da Áustria em 1938 ele se tomara um refugiado como outro qualquer.

Ainda ontem eu era um hóspede estrangeiro, um gentleman, que despende aqui suas rendas auferidas no exterior e paga seus impostos. Agora me tornei um emigrante, um 'refugee'!

Aliada a esta situação humilhante, do ponto de vista de Zweig, reinava no Brasil uma forte censura sobre todos os meios de comunicação e também uma grande apatia política. Nos meios intelectuais de esquerda no Rio de Janeiro, cujos membros em sua maioria ou simpatizavam com o comunismo ou pertenciam ao partido comunista, então na clandestinidade, havia grande desconfiança em relação à Stefan Zweig. A grande maioria destes intelectuais acreditava que seu livro Brasil, o país do futuro fora escrito por encomenda do Departamento de Imprensa e Propaganda da ditadura Vargas. Outros condenavam o livro por este não assinalar o progresso e o desenvolvimento ocorridos no país.

Durante toda a sua última estada no Rio de Janeiro, Zweig se viu cercado apenas por outros refugiados como ele, como por exemplo, Emst Feder, Fortunat Strowski, Victor Wittkowski, ou por pseudo-intelectuais brasileiros, como Cláudio de Souza, presidente do PEN-Clube do Brasil na época. Uma das raras exceções, no caso dos brasileiros, é o editor de Zweig no Brasil Abrahão Koogan. Os grandes intelectuais brasileiros, como por exemplo, Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freyre e Jorge Amado, não mantiveram contato com Zweig nem procuraram conhecê-lo. Seu livro generoso e bem- intencionado para com o Brasil contribuiu assim para isolá-lo ainda mais em seus últimos meses de vida.

O isolamento, o ensimesmamento e o sentimento de perda irreparável de seu mundo acabaram por levá-lo ao suicídio. Em sua tragédia pessoal ele acabou por seguir o exemplo do protagonista de sua novela, escrita em 1922, Episode am Genfer See. Nesta novela, o protagonista, um prisioneiro de guerra russo, não suporta o isolamento e a saudade de sua pátria e termina por se suicidar afogando-se no lago de Genebra.


Stefan Zweig teve, no entanto, oportunidade de se manifestar publicamente contra o extermínio e a perseguição sofrida pelos judeus alguns dias antes de seu suicídio. Provavelmente por iniciativa de Hugo Simon, que na ocasião vivia em Barbacena, Stefan Zweig esteve lá visitando o escritor francês católico, também exilado, Georges Bernanos. Este lhe propôs que redigissem um manifesto para a imprensa denunciando os crimes perpetrados pelos nazistas contra os judeus. Bernanos, que tinha uma coluna semanal em O Jornal no Rio de Janeiro, era um monarquista católico, cujas ideias políticas beiravam o anti-semitismo, mas ele, no entanto, não queria se calar diante da tragédia que estava ocorrendo na Europa. A proposta de Bernanos, todavia parece não ter sido aceita por Zweig. Ele, um náufrago como todos os outros refugiados, preferiu afundar com seu mundo de ideais humanísticos.

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