16/08/15

Padre Cícero: A Sabedoria do Conselheiro do Sertão, de Daniel Walker

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O Juazeiro do Padre Cícero

O Sertão do Cariri, no começo do séc. XIX, era habitado pelos primeiros colonizadores, que foram em busca de minérios. Houve conflitos e mortes, enchendo as caatingas de cruzes. E no final de tudo as minas não existiam.

Cícero Romão Batista nasceu no Crato, sul do Ceará, aos pés da verdejante Chapada do Araripe. O vale do Cariri cearense contém fontes, cujas águas descem em cascatas, cantarolando entre seixos, até ao pé da Serra. Nos engenhos de açúcar, a rapadura aparece nas gamelas. As feiras revelam o crescimento comercial da região de forma muito rápida. (BARRETO, 2002, p. 12).

Começava sua vida no contexto familiar, gente humilde, talentosa, destemida e corajosa. Seu nascimento se deu aos 24 de março de 1844, conforme consta em sua declaração testamentária. Seus pais se chamavam Joaquim Romão Batista e Joaquina Vicência Romana.

O povo era religioso, segundo o modelo de ordem devocional importado da Europa. As missões e seus pregadores se circunscreviam neste quadro de ensinamentos morais, apontados para o exemplo dos santos, das aparições e visões destes homens e mulheres de Deus. Os oratórios ocupavam o espaço sagrado onde as famílias realizavam suas celebrações com preces de louvor e agradecimento. Seria preciso encontrar o ambiente das Santas Missões, de todo o seu conteúdo e, sobretudo visualizar novamente a figura hierática do missionário. Vale lembrar a imagem encurvada do santo missionário Frei Damião de Bozzano. Sobre este missionário capuchinho italiano, é oportuno relatar o depoimento de um teólogo belga, José Comblin:

Até os dias de hoje, Frei Damião é o maior pregador de missões há 60 anos. Aos olhos do povo ele recolheu a herança do Padre Cícero Romão Batista. Frei Damião fala da morte e do Juízo, dos pecados, sobretudo dos amancebados, anuncia castigos de Deus. O povo lhe atribui milagres numerosos. A pregação de Frei Damião é somente espiritual. Ele não constrói nem promove obras de caridade ou obras comunitárias. Somente fala dos pecados pessoais. (1993, p. 35-36).3

Padre Cícero escrevera um dia que ele devia a sua vocação de sacerdote a uma leitura da biografia de São Francisco de Sales. São suas as palavras:

Devo ainda declarar, ser para mim uma grande honra, que em vista de um voto feito aos doze anos de idade, pela leitura que fiz nesse tempo, da vida imaculada de S. Francisco de Sales, conservei a minha virgindade e a minha castidade até hoje. (BARRETO, 2002, p. 14).

Deve ser lembrada a idéia tão querida entre as famílias de então, de terem um filho padre. A figura do padre ainda hoje reserva muito respeito da gente nordestina. Padre Ibiapina havia deixado uma herança muito forte, impregnando a imagem do padre de uma nova presença junto à Igreja e no mundo. (BARRETO, 2002, p. 15).

Os padres lazaristas haviam desembarcado da França para formarem os novos padres para a Igreja no Brasil.

A reforma do clero era prerrogativa da romanização. A reforma dos seminários prepararia os novos ministros da Igreja. Merece relevo em primeiro lugar, a congregação da Missão. Sem dúvida, foram os padres da Missão ou lazaristas, os mais representativos colaboradores do episcopado, por terem assumido a direção da maioria dos seminários. (AZZI, 1992, p. 32).

A Igreja no Brasil estava vivendo então a romanização. Os cuidados com a fé cristã no Brasil fizeram a Santa Sé voltar-se decididamente para a Igreja em nossa Pátria. Preocupada com a ignorância religiosa e com uma prática muito popularizada, a Igreja procurou melhorar seus quadros humanos trazendo da Europa, após algum tempo, Congregações Religiosas e enviando alguns de seus futuros padres e bispos para estudarem em Roma.

Para melhor formar o clero, fundam-se em Roma, dois Colégios, junto à Universidade Gregoriana, aonde seminaristas de escol são enviados para aperfeiçoar seus estudos e prepararem-se para tarefas mais importantes. O Colégio Pio Latino (1858) aceitava alunos de todo o continente, inclusive do Brasil. Mas para que houvesse mais vagas para nossos seminaristas, em 1934, funda-se o Colégio Pio Brasileiro, exclusivamente para brasileiros. (LIBÂNIO, 1982, p. 49).

A nova formação qualificava seus padres com compromissos apologéticos, diante dos inimigos da fé que então ameaçavam a Igreja. Estes inimigos eram o protestantismo e o positivismo. O jovem seminarista era moldado internamente para responder ao modelo da Igreja a que se desejava chegar. Muitos alardeavam as dificuldades intelectuais do seminarista Cícero. Por estudar “ciências ocultas”, isso quase lhe valeu o impedimento de sua ordenação. (WALKER, 1995, p. 7). Aliás, Raquel de Queiroz sobre isso escreveu:

Custou- lhe muito ser padre: quase o não ordenam. Os mestres alegavam que o rapaz era esquisito e mentia, mas quem sabe se mentia realmente? As histórias do céu parecem mentiras a quem só pensa na terra. E depois, dentro da alma de um homem, quem tem poder para traçar o limite entre a verdade e a mentira? De qualquer modo ele foi para o Juazeiro, assim mesmo, mentiroso e angélico. Tão precário era o seu rebanho que aos domingos cabia todo na capelinha da fazenda e vivia inteiro em seis casas de taipa e alguns casebres. (1944, p. 31).

Em sua biografia, aparece o fato de ter desejado ser professor no Seminário da Prainha em Fortaleza. (WALKER, 1955, p. 9). Lecionou também no Colégio Padre Ibiapina no Crato, fundado e dirigido pelo Prof. José Joaquim Teles Marrocos, seu primo e grande amigo. (BARRETO, 2002, 19). Cuidou da educação de jovens e órfãos. Criou escolas profissionalizantes e a que seria a primeira futura Escola Normal Rural do Brasil. Trouxe, em seguida, os salesianos com a missão de educar a juventude. (BARRETO, 2002, p. 39). Era filiado a uma Instituição chamada Sociedade de Agricultura. Recebeu o título de Doutor, conferido pela Escola Livre de Engenharia do Rio de Janeiro conforme lemos em Walker. (1995, p. 10).

Quem estudou num Seminário sabe que, sem sacrifício, não se passa tanto tempo nessa casa. Sem espírito de oração e de comunidade, o seminarista é aconselhado a sair do Seminário. O controle era severo. Até nas férias, o seminarista levava do Reitor um questionário que deveria ser minuciosamente respondido pelo pároco. Sem exagero, pode-se concluir que Cícero não era um ignorante, nem visionário, nem ingênuo, nem alheio. Seus boletins apontavam notas boas, melhores do que as de um aluno medíocre. A ausência de pendores oratórios não pode ser motivo para negar-lhe outras virtudes. Ganhou, a Igreja e o Povo, um conselheiro, um fiel e paciente confessor, um homem de relações humanas. Em seu testamento dedica ao seu bispo diocesano, Dom Luis Antônio dos Santos, a graça de ser padre católico. Padre Murilo completa essa curta biografia, quando afirma: “Quem na realidade irá dar a nota de comportamento e aplicação do recém-ordenado Cícero será o seu modo de trabalhar, de operar de pastor, enfim”. (BARRETO, 2002, p.18).

No Natal de 1871, uma equipe, representada pelo Professor Simeão Correia de Macedo, não querendo que a capelinha de Nossa Senhora das Dores ficasse sem a Missa do Galo, foi procurar Padre Cícero, no Crato, para celebrar em Juazeiro. O Padre tinha 28 anos e mais que isso, simpatia, olhos brilhantes e azuis, penetrantes e rápidos e voz modulada. Tudo estava começando, sem que seu personagem se desse conta. (BARRETO, 2002, p. 20). Pouco tempo depois, aos 11 de abril de 1872, chegou definitivamente Padre Cícero ao Juazeiro, com sua família e pouca bagagem, apesar de relutar nessa decisão.

Um grande sonho marcou o início de sua vida sacerdotal e foi apontado como a causa que determinou a sua ida para Juazeiro. Este relato foi feito pelos próprios amigos íntimos. Cansado, após um dia exaustivo, de horas a fio no confessionário, foi descansar no quarto vizinho a uma sala de aula da escolinha, onde improvisavam seu alojamento. Caiu no sono e em visão ouviu a voz de Jesus que lhe dizia: “toma conta deles”. Ele viu Jesus Cristo e os doze apóstolos, sentados à mesa, numa cena como a “Última Ceia” de Leonardo da Vinci. De repente, o local foi invadido por uma multidão de sertanejos famintos, conduzindo seus míseros pertences em pequenas trouxas. Então Cristo, virando-se para os famintos, falou de sua decepção com a humanidade, dizendo, porém, que ainda estava disposto a fazer um último sacrifício para salvar o mundo. Entretanto, se os homens não se arrependessem depressa, ele acabaria com tudo de uma vez. Naquele momento, Cristo, apontando para os famintos, falou: E você, Padre Cícero, tome conta deles. (COMBLIN, 1991, p. 9).

O sonho de Padre Cícero, que o fez decidir-se ficar em Juazeiro, faz parte do quadro místico -religioso desta época. As devoções ao Coração de Jesus datam dos séculos XI e XII. No século XVII, Margarida (freira francesa da Ordem da Visitação) teve uma aparição de Cristo em 1673, na qual Jesus lhe ordenava uma devoção pública “de amor expiatório” a Ele, “sob a forma de seu coração de carne.” “Veja o Coração que tanto amou os homens... em vez de gratidão, recebo da maior parte só ingratidão...”4 (DELLA CAVA, 1985, p.47).

O sonho de 1872, o Milagre de 1889 e a Guerra de 1914 entraram na hagiografia canônica do Padre Cícero e na história política do Juazeiro. (BARBOSA, 2004, p.62). Barreto afirmava que a decisão de transferir-se para Juazeiro foi decorrência de um sonho “O que é certo é que de então para o resto de sua vida este sonho marcou a vida do padre Cícero que assumiu sempre a função de um condutor das massas nordestinas." (2002, p. 21).

Padre Cícero havia dedicado parte de sua vida à leitura da vida dos santos, como João Maria Batista Vianney, o Cura d’Ars, São João Bosco e São Francisco Xavier. Quando Padre Cícero começou seu pastoreio, Padre Ibiapina já gozava de prestígio e respeito como missionário, pois era sua intenção “recuperar o povo para a Igreja”. (BARRETO, 2002, p. 22).

Faleceu a 20 de julho de 1934. Foi o fim do mundo em Juazeiro. No dia 21, cerca de 60 mil pessoas acompanharam seu sepultamento. Mas a cidade não morreu. As romarias continuariam. O povo nunca lhe faltou, apesar dos muitos inimigos e detratores. O desaparecimento de Padre Cícero não diminuiu a fé de seus adeptos, os quais não acreditavam em sua morte, pois o mesmo estava “em viagem” e devia um dia voltar à Cidade Santa a fim de anunciar a chegada do Juízo Final. Seu retrato está entronizado em todos os oratórios domésticos, sua lenda messiânica é constantemente enriquecida com um rol de novos milagres. (QUEIROZ, 1983, p. 87).

O relógio marcava cinco horas da manhã do dia 20 de julho do ano de 1934. Era o “Dia de Juízo” para os romeiros, exclamava o povo em Juazeiro. Choro e grito estremeceram a alma do povo e os alicerces da cidade. As romarias continuam até hoje. Semanas e mais semanas de romarias ao Juazeiro. Chegavam todos vestidos de preto. Já não desciam à Rua São José, mas rumavam todos à Capela do Socorro, construída em 1906, onde estava sepultado Padre Cícero.

Selecionamos propositalmente para este momento as palavras de uma ilustre escritora cearense, fiel às suas raízes:

Ele era baixinho, corcunda. Parecia um desses santos de pau que a gente venera nas igrejas antigas, feitos grosseiramente pelo artista rústico, a poder de fé e engenho. A cabeça enorme descaía no ombro sungado e magro, a batina surrada acompanhava em dobras amplas o corpo diminuto. Só a carne do rosto e os olhos azuis, límpidos e místicos, que se cravavam na gente, penetrantes como uma chama. Megalomaníaco, paranóico, gerador de fanatismo, protetor de cangaceiros, explorador da credulidade sertaneja de tudo isso foi ele acusado por teólogos, médicos e sociólogos que juntos lhe fizeram o diagnóstico. Senhores teólogos, senhores médicos, quão longe já andais dos belos tempos da fé antiga! Pois quem poderá ser um bom santo sem ser ao mesmo tempo um bom doido - e a melhor definição de um santo não será ‘um doido de Nosso Senhor’? Tanto o Santo como o doido despe a roupa na rua, abandona casa e família, vai comer raízes bravas e pregar à turba ignara qualquer ardente mensagem que lhe consome o coração. E só a essência dessa mensagem e a extensão do seu êxito é que estabelecem a diferença. (QUEIROZ, 1944, p. 31).

O Padre Cícero foi “canonizado” pelo povo e até hoje sua volta é aguardada pelos romeiros. (JORGE, 1998, p. 78). Naturalmente, vamos encontrar um processo do retorno ou da ressurreição do mito. Padre Murilo lembrava o grande cantor nordestino, Luiz Gonzaga, que cantava: “E olha lá no alto do Horto, o Padre está vivo, o Padre não está morto.” (BARRETO, 2002, p.63).

Novamente, encontramos, em Raquel de Queiroz, igual sentimento sobre o fenômeno Padre Cícero:

Alguns dizem que o padre está debaixo do chão: os incréus, os materialistas. Porque a gente que tem fé conta que Meu Padrinho, vendo a choradeira do povo, ressuscitou ali mesmo, sentou-se no caixão, sorriu, deu bênção, depois deitou-se outra vez e seguiu viagem dormindo, até a Igreja do Perpétuo Socorro. Ficou morando lá, naquela igreja que os padres nunca quiseram benzer. De noite, sai de casa em casa curando os doentes, consolando os aflitos. E se ninguém o vê, na rua ou na Igreja, é porque as asas dos anjos rodeando-o todo, o encobrem dos olhos dos viventes. (QUEIROZ, 1944, p. 35).

Os romeiros continuaram com suas peregrinações no anseio de visitar a Mãe das Dores e o Padrinho do Juazeiro. A literatura popular tem registrado frequentemente estes fatos inerentes à história religiosa do Nordeste, como a poesia de autoria de Dias Gomes:

Quem for para o Juazeiro Vá com dor no coração Visitar Nossa Senhora
E o Padre Cícero Romão.
Que meu Padrim é um Santo Isso tá mais que provado Basta atentar nos milagres Que ele tem realizado.

O primeiro foi ter feito Em certa manhã pacata Isso já faz tanto tempo
Nem me lembro bem a data A hóstia virar sangue
Na boca de uma beata.

(Texto extraído de obra não identificada).


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Fonte:
Manoel Henrique de Melo Santana: “Do anátema ao acolhimento pastoral”. (Da condenação e exclusão eclesial do Padre Cícero do Juazeiro à sua Reabilitação Histórica Trabalho apresentado como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco. Área de Conhecimento: Ciências Humanas. Orientador: Prof. Dr. Ferdinand Azevedo).
Recife, 2007

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