15/02/2015

A Revolução Portuguesa (O 31 de Janeiro de 1891), de Jorge de Abreu

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O governo progressista cede ante as exigências da Grã-Bretanha

Os primeiros dias de janeiro de 1890 ainda refletiram as benignas razões dadas pelo sr. Barros Gomes ao governo inglês. Não se podia exautorar Pereira Ferraz e Serpa Pinto— dizia o ministro e diziam alguns jornais de Lisboa — Prestando apenas crédito às informações dos funcionários britânicos. Era necessário ouvir os dois expedicionários e ouvir-lhes as alegações que, decerto, produziriam sobre a sua atitude em tão melindroso assunto. Uma parte da imprensa acreditava até ingenuamente que a Inglaterra não tardaria a modificar o tom agressivo das suas notas diplomáticas, substituindo-o por outro de feição conciliadora: “em primeiro lugar, porque assim o quer o respeito devido por cada nação a todas as outras; em segundo lugar, porque, se procurasse entregar à violência a decisão de um pleito em que devem ser ouvidos e escutados os argumentos de parte a parte e em que a justiça ou a equidade deve proferir sentença em única instância, não só concitaria a nossa resistência mas, porventura, também provocaria a indignação do mundo”. E essa parte da imprensa ia mesmo mais longe na sua ingenuidade: “A Grã-Bretanha sabe que, embora sejam enormes as suas forças comparadas com as nossas, poderia arriscar-se a revezes se desrasoadamente acendesse a guerra na África...”

Ao abrir-se o parlamento, o rei D. Carlos, que, pela primeira vez, se apresentava a desempenhar o seu papel constitucional de “chave de todos os poderes”, lendo o clássico discurso da coroa, sublinhou estas passagens, que a assembleia dos representantes da nação escutou com rara e justificada avidez:
 “Recentemente as patrióticas aspirações da nação inglesa e do governo de sua majestade britânica, a dilatarem as suas vastas possessões na África, encontraram-se em mais de um ponto desse continente, com o firme propósito de Portugal de conservar sob o seu domínio e de utilizar para a civilização os territórios africanos que primeiro foram descobertos e trilhados pelos portugueses, por eles foram revelados e abertos às missões do cristianismo e às operações do comércio e nos quais as autoridades portuguesas têm praticado os atos de jurisdição e influência consentâneos ao estado social dos seus habitantes, atos que sempre bastaram para significar domínio incontestável.

“Este encontro pôs em relevo desacordos de opinião entre o meu governo e o de sua majestade britânica acerca das condições a que devem satisfazer e dos títulos que têm de aduzir as soberanias europeias em África, para serem reconhecidas pelas potências, e desses desacordos resultou uma correspondência diplomática que ainda os não pôde sanar e que também houve de ocupar-se de outras divergências, posteriormente suscitadas, sobre o modo de apreciar um conflito, ocorrido nas margens do Chire, entre uma tribo indígena e uma expedição científica portuguesa. O meu governo, inspirando-se no sentimento nacional e conformando-se com o voto unânime das duas casas do parlamento, tem diligenciado convencer o de sua majestade britânica do direito que assiste a Portugal de reger os territórios ao sul e norte do Zambeze sobre que versa a mencionada correspondência, limitando-se, durante o incidente e em todos os seus termos, a manter domínios que sempre reivindicou, e reiterar declarações que sempre fez. E nesta atitude persistirá com o apoio, que decerto lhe não há de faltar, dos representantes da nação, esperando conseguir uma equitativa conciliação de todos os legítimos interesses, que prontamente restabeleça, como eu desejo, o perfeito acordo entre os governos de duas nações ligadas por vínculos de amizade e tradições seculares”.



Pura ilusão! No dia 5 de janeiro, o ministro inglês em Lisboa, rebatendo a asseveração do sr. Barros Gomes de que Serpa Pinto, travando combate com os macololos, se limitara a “repelir o ataque de uma tribo hostil” escrevia-lhe notando que “essa asseveração não parecia ao seu governo de muito peso, pois que a ação dos macololos, quer tivessem ou não tomado a ofensiva, fora unicamente determinada pelo desejo de proteger o seu território contra a invasão dos portugueses”. A questão atingia, evidentemente, a sua fase aguda. O Times, referindo-se-lhe, dizia que, se a Inglaterra não tomasse prontas providências “para apagar a impressão causada pelas incursões do major Serpa Pinto, toda a região dos Lagos Africanos se incendiaria; os macololos tinham visto a Inglaterra grosseiramente ultrajada; era necessário que a vissem reivindicar claramente a sua honra”. Por outro lado, o governo português, desejoso, sem dúvida, de atenuar um pouco a irritação que o da Grã-Bretanha denunciara na nota de 5 de janeiro, havia ordenado a Serpa Pinto que recolhesse à metrópole. Mas nem com isso o colosso amorteceu a pancada.

[Trecho do livro]

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