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27/04/2014

Noturnas, de Fagundes Varela

Noturnas, de Fagundes Varela
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Varela e o fantástico

Originalmente publicadas em folhetim, As Ruínas da Glória, A Guarida de Pedra e As Bruxas, assim como os contos de horror que em certo momento povoaram a literatura do outro lado do Atlântico, trazem consigo toda a atmosfera sombria e, em boa medida, enigmática que é própria do espírito romântico da chamada segunda fase.

Dessas três obras, pouquíssimo conhecidas hoje em dia, a que, a nosso ver, possui melhor realização no que diz respeito aos mecanismos de manutenção da narrativa fantástica é a primeira.

Nesse conto, podemos perceber alguns elementos que o ligam à tradição das narrativas fantásticas, além de ser também possível encontrar ali outros elementos que permitem reconhecê-lo como uma obra romântica. Afora o estilo próprio dos românticos, com longos períodos, sonoros adjetivos que pululam a todo o momento e com uma linguagem carregada de sentimentalismo característico da escola, esse conto de Fagundes Varela representa, ao lado de outras obras também pouco conhecidas, os primeiros passos, ainda vacilantes, da narrativa fantástica em solo brasileiro. É claro que o próprio fantástico sofreu alterações ao longo do tempo, resultando, no final do século XIX e início do XX, em obras distintas daquelas realizadas nos primórdios do Romantismo europeu, pois, da mesma forma, as expectativas do público leitor sofrem alterações ao longo dos anos, o que se dá, é certo, também por conta das obras que renovam o paradigma, ao mesmo tempo em que seguem uma tradição:

[...] não convém separar a repercussão da obra da sua feitura, pois, sociologicamente ao menos, ela só está acabada no momento em que repercute e atua, porque, sociologicamente, a arte é um sistema simbólico de comunicação inter-humana [...].

Ora, todo processo de comunicação pressupõe um comunicante, no caso o artista; um comunicado, ou seja, a obra; um comunicando, que é o público a que se dirige: graças a isso define-se o quarto elemento, isto é, o seu efeito. (CANDIDO, 2000, p. 21)

Assim, seria necessário refletir a respeito das condições em meio às quais se via
Fagundes Varela para podermos chegar não a um juízo definitivo – noção utópica, senão nociva – de qualquer uma de suas obras, mas nos aproximarmos de uma leitura válida, na medida em que se legitime mediante critérios que levem em consideração os elementos que, em conjunto, elucidam alguns de seus aspectos intrínsecos, da mesma forma que influem em outras obras do gênero ou em outras do mesmo autor.

Caracterizando-se pela divergência, o fantástico porventura teria uma recepção diferente, se comparado aos outros gêneros.

Uma constatação pertinente a ser feita nesse sentido é que, apesar de serem o conto ou a novela formas narrativas nas quais o teor fantástico encontraria terreno mais propício à sua construção – tanto pela questão da manutenção da atmosfera quanto pela intensidade do efeito pretendido –, o elemento fantástico não aparece com tanta frequência nas formas breves como vemos acontecer com outros temas, como o amor ou o heroísmo, os quais também encontramos tanto nos romances como nos poemas do período. Assim, ao contrário do que se poderia imaginar a princípio, o fato de ser a narrativa curta de mais fácil apreensão por parte dos leitores/ouvintes – por não possuir muitos personagens e se concentrar, via de regra, em uma única trama narrativa – não propiciou ao fantástico maior público do que os contos de outra natureza.

Está claro que, por nos concentrarmos no conto, não nos ocuparemos de narrativas de horror que integrem formas maiores, constituindo, pois, episódios que pertenceriam a uma trama complexa à qual estariam subordinadas. Por isso, quando tratarmos dos contos que aqui nos interessam, procuraremos não remeter a obras que se enquadrem numa perspectiva mais abrangente.

Restringindo dessa forma nosso paradigma, é evidente que, principalmente no caso do Brasil, poucas obras poderiam ser compreendidas como representantes do fantástico puro ou em suas variações. Do Romantismo brasileiro, interessam-nos de perto as obras de Álvares de Azevedo e as de Fagundes Varela. As deste, obviamente, por constituírem o objeto de nosso trabalho, e as daquele por terem exercido influência sobre a obra do escritor fluminense. Frisemos, no entanto, que, no tratamento dado à temática, Álvares de Azevedo estava mais ligado a motivos góticos do que Fagundes Varela. Este, certamente, procura situar sua obra ao lado de outras de mesmo teor, isso é o que se pode depreender da leitura de um de seus contos em especial, o já referido As Ruínas da Glória, pois são frequentes as referências ao universo gótico característico de algumas obras do Romantismo alemão.

Um fator que se deve sublinhar nesse contexto é que a narrativa fantástica não gozava do mesmo prestígio entre o público leitor do Brasil do século XIX que lá fora tinham os contos de E. T. A. Hoffmann ou E. A. Poe. Aqui, preferia-se algo mais suave; o aspecto muitas vezes grotesco das narrativas de algumas histórias ia de encontro àquilo que se acostumou a ler durante o período romântico. Outra pequena observação a ser feita é que tais aspectos levariam o leitor a um estranhamento, colocando-o em face de um “mundo alheado”, transformado em algo que escapa à compreensão (KAYSER, 2003, p. 159). A pertinência dessa observação se dá pela íntima relação entre o fantástico e o grotesco, apesar de este não se configurar como elemento essencial. O grotesco, tal qual a essência do fantástico na definição todoroviana, depende de certa atitude por parte do leitor; é preciso que se assine uma espécie de contrato, em que o leitor assume uma postura específica: o grotesco reside na periferia dos dois mundos, no “contraste indissolúvel, sinistro, o que-não-devia-existir” (KAYSER, 2003, p. 61).


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Fonte:
Frederico Santiago da Silva: “A narrativa fantástica de Fagundes Varela”. (Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista, para a obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Dr. Luiz Roberto Velloso Cairo). Assis, 2013.

16/03/2014

Obras poéticas de Inácio Jose de Alvarenga Peixoto

 Inácio Jose de Alvarenga Peixoto
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Alvarenga Peixoto: leal vassalo, desleal vizinho, desleal vassalo

Inácio José de Alvarenga Peixoto nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1º de fevereiro de 1742, filho do comerciante de grosso trato, o português Simão de Alvarenga Braga, e da fluminense Ângela Micaela da Cunha Nogueira. Passou a usar o sobrenome Peixoto em homenagem a um antepassado ilustre, o padre doutor Antônio de Alvarenga Peixoto, desembargador eclesiástico em Coimbra e Braga. Teria feito seus estudos preparatórios no colégio dos jesuítas do Rio de Janeiro ou em Braga. Graças à folgada situação financeira do pai, pôde ingressar na Faculdade de Leis da Universidade de Coimbra em 1760, doutorando-se em 1767, tendo sido um aluno distinto. Fez leitura no Paço em 1768 e foi juiz de fora em Sintra no período de 1769 a 1772.

No ano de 1775, Alvarenga consegue, por interferência do marquês de Pombal, a nomeação para o cargo de ouvidor da Comarca do Rio das Mortes. Tomou posse no cargo em 19 de agosto 1776 nele permanecendo até a data de dois de abril de 1780. Rodrigues Lapa afirma que Alvarenga escolheu a Comarca do Rio das Mortes, “pois tinha interesses no sul de Minas”. No nosso entendimento, Lapa enganou-se, pois, o interesse pelas terras de agricultura e lavras de ouro na Campanha foi posterior à chegada do ouvidor à comarca. Diz o biógrafo, cujos escritos nos servem como fontes, que “quer-nos parecer que em 1762 ou 1763 Alvarenga estaria em Minas, talvez por motivo da compra e doação da lavra da Boa Vista, por seu tio Sebastião, e travaria nessa altura o primeiro contato com o doutor Cláudio Manoel da Costa”. Equivocou-se novamente Lapa, possivelmente por desconhecer os autos de sesmaria da fazenda da Boa Vista. Como vimos, as articulações para a compra da sesmaria só aconteceram a partir de 1778, sendo João Crisóstomo e o tio Sebastião Braga usados somente como instrumento da negociata.

O ouvidor Alvarenga teve conturbadas relações na comarca. Chegando a São João del-Rei, imediatamente envolveu-se com D. Bárbara Eliodora Guilhermina da Silveira, uma das belas filhas do doutor José da Silveira e Sousa, advogado português residente naquela vila.

Desse relacionamento nasceram-lhes os filhos Maria Efigênia, José Eleutério, João Damasceno e Tristão. Como Alvarenga Peixoto e Bárbara Eliodora não se casaram logo, vivendo “de portas adentro” na casa do pai de Bárbara, com o consentimento deste, tiveram que enfrentar a maledicência daquela sociedade que, mesmo não vivendo dentro das rígidas normas morais preconizadas pela Igreja, não aceitou o comportamento inconveniente do ouvidor, talvez julgando dever ser o mesmo um modelo de boa conduta.

Alvarenga não tinha, porém, alternativa. Pela legislação portuguesa, os ouvidores estavam impedidos de se casarem “nas terras de conquista sem autorização, sob pena de suspensão e de serem riscados do serviço sem poderem usar da insígnia da toga”. Passado algum tempo do seu concubinato – e terminado o seu triênio na ouvidoria –, Alvarenga casou-se com Bárbara Eliodora em 1781.

Essa situação, certamente aliada a insatisfações de diversa natureza que outras pessoas da vila alimentavam contra Alvarenga Peixoto, o seu sogro doutor José da Silveira e Sousa e o próprio ouvidor, Luís Ferreira de Araújo Azevedo, sucessor de Alvarenga na ouvidoria, suscitou uma acérrima disputa com o alferes Caetano José de Almeida e com os seus primos (os irmãos capitão Manoel da Costa Vilas Boas e Gama, doutor Antônio Caetano de Almeida Vilas Boas – vigário colado da freguesia de Nossa Senhora do Pilar da mesma vila – e doutor José Basílio da Gama). Os dois últimos eram contemporâneos e amigos de Alvarenga em Coimbra, mas devido a esses fatos a amizade descambou para uma contenda de baixo nível que se iniciou em 1777 e só terminou em 1783. Depois de um processo conturbado o ouvidor Araújo Azevedo baniu o padre Vilas Boas da comarca, obrigando o clérigo a recorrer à Relação do Rio Janeiro. A atitude do ouvidor e dos demais envolvidos – Alvarenga e o seu sogro – foi considerada tão arbitrária que os juízes da Relação reabilitaram o padre Vilas Boas e passaram nos autores da contenda uma forte repreensão:

[O ouvidor Azevedo] continuando com outras semelhantes nulidades às do seu antecessor [Alvarenga], que sendo ambos obrigados a concorrerem e trabalharem para o sossego dos povos, os perturbam e inquietam com estes irregulares e desordenados procedimentos, que só servem para desagravar paixões particulares e fomentar discórdias que sempre foram fatais e contrárias à utilidade pública que eles deviam sustentar, procedendo com ordem e regularidade e distinguindo os procedimentos que a Lei manda observar nas injúrias feitas, por razão de seus ofícios, das que procedem de alguma inimizade antiga ou de outra causa particular.

Se pudéssemos dar crédito ao contido numa petição enviada à rainha – atribuída aos moradores da vila de São João del-Rei, mas possivelmente de autoria de Alvarenga Peixoto –, contra o vigário Vilas Boas, na opinião desses moradores o motivo principal das desavenças “foi a rematação que o dito vigário fez da fazenda da Fortaleza, pertencente aos órfãos de Antônio Leite Coimbra, fingindo carta e consentimento do tutor Inácio Xavier de Toledo, o qual vindo logo queixar-se ao doutor ouvidor [Alvarenga Peixoto], como provedor dos órfãos, este fez anular a dita rematação”. A fazenda da Fortaleza, em 1796-1798, seria palco das desavenças do alferes Manoel Freire (genro) e de D. Antônia Francisca de Paula (filha) – herdeiros do capitão Antônio Leite Coimbra –, com Manoel e José Gonçalves Lopes (pai e filho), das quais tratamos no terceiro capítulo.

No calor dessa refrega, o vigário Vilas Boas foi acusado de diversos delitos e relaxamentos de conduta, com um procedimento “tão escandaloso que até tem sido infamado com as suas próprias comadres”. Acusaram-no também do “trato ilícito que geralmente se diz ter com algumas primas suas em 2º grau de consanguinidade que padecem há muitos anos a infâmia de desonestas”. Chegaram a dizer que “o dito vigário tem sido visto dentro do banho com algumas das primeiras primas, esfregando-o e lavando-o”. Acusações verdadeiras ou não, elas faziam parte do cotidiano da capitania. Luciano Figueiredo afirma que “a extensão dessas práticas colheria membros da própria Igreja envolvidos na difícil tarefa de equilibrar os negócios da paixão e da religião”. O historiador acentua ainda que “na colônia, particularmente em Minas Gerais, parecia difícil falar de um triunfo do celibato eclesiástico. Desrespeito ao estado de clérigo, violências e escândalos seriam ingredientes comuns às relações que alguns padres estabeleceram”.

Boa parte dessa querela entre Alvarenga Peixoto e o padre Vilas Boas pode ser lida em diversos documentos reproduzidos por Rodrigues Lapa. Para nós o breve relato dessa contenda serve apenas para esclarecer a maneira como Alvarenga Peixoto costumava conduzir as suas questões na comarca, como ouvidor ou amigo do ouvidor Luís Azevedo que o sucedeu no cargo. Mostra-nos ainda o quanto o ouvidor Luís Azevedo estava ligado a ele. Ocorre que o enfrentamento se deu com uma família de grandes proprietários de terras na comarca, os Vilas Boas, com prestígio suficiente para medir forças com os agressores.


[...]


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Fonte:
Francisco Eduardo Pinto: Potentados e conflitos nas sesmarias da comarca do Rio das Mortes”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense como requisito parcial para a obtenção do Grau de Doutor em História. Área de concentração: História Moderna. Orientadora: Profa. Dra. Márcia Maria Menendes Motta). Niterói, 2010.

22/02/2014

Zabelinha ou Tacha Maldita, de Manuel de Oliveira Paiva

 Zabelinha ou Tacha Maldita, de  Manuel de Oliveira Paiva
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Poemas de Manuel de Oliveira Paiva

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Entre os escritos e as construções

Para este trabalho, interessa-me a narrativa expressa por meio do romance. Isso se deve, principalmente, por ser o romance a consolidação e uma maneira de expansão da modernidade. Celebra-se o início do romance moderno com a publicação de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. A partir desse marco, o gênero se consagra e ganha asas pelo mundo. A expansão, porém, se dá de forma mais efetiva durante e posteriormente à revolução industrial, com a expansão da escrita e da imprensa; com a formação de romances-folhetins e a publicação literária em jornais.

Ao prevalecer a cultura da escrita, as leituras tornam-se individuais, perdendo um pouco da tradição oral existente. Importante lembrar que esse fenômeno decorre em paralelo com a expansão do capitalismo e a formação de uma nova classe: a burguesia. O romance, portanto, é estreitamente ligado ao universo burguês e moderno, consolidados na cidade.

Não por acaso, Walter Benjamin, defensor da narratividade oral e tradicional, ancorado na perspectiva de Lukács, tornou-se um crítico ferrenho da (in)experiência da narração com a expansão e dominação do romance na vida burguesa. Em seu curto ensaio “A crise do romance”, de 1930, ele apresenta críticas principalmente aos plenos domínios do autor diante do texto. O escritor conduz as personagens e a técnica da narração, além de desconhecer a dimensão externa da narração e constitui, nesse sentido, a antítese mais completa da atitude épica pura, representada pela narrativa (Benjamin, 1994).

Benjamin critica o contexto em que a narração se torna externa ao autor sem que este tenha mínimo diálogo com a público que a consume. Sabe-se que a literatura só se completa quando há o contato externo com o leitor, no momento em que ele frui da leitura. Antes desse momento, seria como se não existisse literatura. Mesmo sabendo que esse momento continua a existir, Benjamin critica essa postura por ela se dar de forma individual.

O romance, segundo Benjamin, é responsável pela extinção de experiências narrativas coletivas, pois “a matriz do romance é o indivíduo em sua solidão, o homem que não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações, a quem ninguém pode dar conselhos, e que não sabe dar conselhos a ninguém” (ibid., 1994: 54). Desta forma, o romance se distingue de outras prosas ficcionais como contos de fadas, sagas, provérbios e farsas. O romance, ao contrário desses gêneros citados, não provém da tradição oral, nem a alimenta.

Benjamin ocupou boa parte de suas reflexões sobre a experiência narrativa, suas dimensões da oralidade e, ao mesmo tempo, sua extinção. Na década de 30, o filosofo alemão produziu textos, tentando entender a gênese da narrativa e suas problemáticas com avanço da modernidade. Dono de uma obra eminentemente composta por ensaios, o esforço de Benjamin está em “romper e fugir da prisão do conformismo cultural obedecida a constelações do histórico que não podem ser simples e fugidios exemplos de idéias, mesmo que na sua unicidade constituam as próprias idéias como históricas” (Adorno, 1992: 13).

O avanço das cidades modernas acontece em paralelo à expansão do romance, juntamente com o advento tecnológico e racional. É na primeira metade do século XIX, que na cidade de Paris, se consolida o projeto de urbanização proposto do Haussmann em que há uma racionalidade-vida dos espaços urbanos. Percebe-se a expansão das cidades que não parecem mais findar-se em suas fronteiras e viverem um constante desejo de crescimento e expansão. De acordo com Antoine Picon,

a cidade fechada, cercada de fortificações ou de bulevares difíceis de deslocar, era substituída por uma cidade com limites sempre provisórios, a serem tratados de forma dinâmica. Paralelamente, começava a nascer a idéia de uma solidariedade econômica entre as cidades dispersas no território. A noção de malha urbana iria emergir progressivamente de um conjunto de reflexões sobre essa solidariedade (Picon, 2001: 69).

Dessa forma, Benjamin percebe existir um desequilíbrio entre os impulsos de produtividade dos homens e sua força de constantes resistências de oposição à modernidade. Diante do advento do capitalismo e dessa desproporção, Benjamin compreende que o homem moderno “vá enfraquecendo e busque refúgio na morte. A modernidade deve manter-se sob o signo do suicídio, selo de uma vontade heróica, que nada concede a um modo de pensar hostil” (Benjamin, 1989: 74).

Ao mesmo tempo em que apresenta a crítica, o filósofo acredita que a modernidade é uma matéria-prima riquíssima para a experiência das representações. Ela está a espera de um mestre que perceba este material e contribua para a consolidação da fundação da arte moderna. Esse mestre, aparentemente, pelo menos nos escritos de Benjamin, não existe. Há, no entanto, a prosa de Baudelaire que mais se aproxima desses elementos. Benjamin saúda o poeta pela capacidade de descontruir a idéia de herói instalada pela modernidade. Ao invés de buscar figuras medalhões e oficiais para seu texto, ele vai buscar heroísmo na vida comum, nas ruas e nos ambientes privados.

A vida comum e ordinária é, por excelência, a matéria prima para os romances, mas mesmo assim, muitos ainda tomam a questão do heroísmo e da dualidade como um elemento significativo para a condução do enredo. Seconsiderarmos a história de A Afilhada como exemplo, percebemos que se constitui de uma narração construída a partir de personagens secundárias dentro da lógica administrativa da cidade. São cidadãos comuns, negros, escravos, mendigo, mulheres, cientistas e comerciantes. As únicas personagens que revelam poderes econômicos e políticos, respectivamente, são o visconde Afrodísio e o desembargador Osório. Este chegou a administrar a província, mas, no momento em que a trama acontece, está em fase de decadência, ao ponto de desistir da vida política e não ter coragem de enfrentar uma candidatura ao Senado.

Já Afrodísio é português, um bon vivant, dado às mulheres, com muitos escravos e um empregado leal, João Batista. Bom partido, Fabiana, esposa do desembargador, tenta casar a filha com ele, mas não consegue. O visconde cai mesmo nas graças de Antônia, a afilhada de Fabiana, mas com ela, ele não tem a intenção de estabelecer nenhum relacionamento. Chega até a oferecer-lhe uma casa, para poderem ficar juntos, mas nunca casar-se. As intenções do visconde deixam Antônia confusa em aceitar ou não a sua proposta:

Era possível que um visconde a desposasse? Ele tinha dado a entender que não. E depois, contavam que ele e os outros, a gente endinheirada, costumava proceder assim. É verdade que lhe ofereceu uma boa casa no Beco do Rosário, alta e espaçosa, reformada pela marca da Câmara, com mobília, prontinha de tudo. Mas diz que é assim que eles fazem mesmo.

Aboletam uma rapariga inocente, freqüentam-na por uns tempos, e vão negaceando, com esse desamor, a gente, que não é de pedra vai gostando de outro, e de mais outro. Cai no vício. E vai se queixar ao sem jeito (Paiva, 1993: 253 – grifo meu).

Há, portanto, na Fortaleza de Oliveira Paiva, uma mistura constituída entre as classes de uma forma não romântica, mas perversa. Não é um mocinho que se apaixona por uma rapariga pobre, mas sim um homem rico e mulherengo que tem desejos por uma jovem mulher suburbana e pretende aproveitar-se de sua condição da melhor forma possível. Por outro lado, Oliveira Paiva é um misto de referências literárias, ora apresentando elementos do romantismo, embora sejam minoria, ora transitando pelo experimento do naturalismo. O núcleo narrativo constituído por Das Dores representa muito bem a mistura de gêneros.

Diante disso, ele ainda concebe, mesmo trabalhando com cidadãos ordinários, a lógica do heroísmo. Esse sentimento não aparece na narração do escritor, mas no pensamento de sua personagem Vicente, também denominado, de Centu – nome popular, como é chamado por amigos e parentes. No romance, logo no começo, quando Centu chega a Fortaleza doente, ele fica pensando sobre sua contribuição para aquela cidade e devaneia: “Deveria ser um herói para  a humanidade, ou uma vítima, assim  pensava ele na sua ingenuidade acadêmica”.

As personagens Vicente, Osório e Boticário Fernandes são as únicas preocupadas com o futuro da cidade. Havia um movimento comum entre os cidadãos modernos e, em especial, no romance, para a superestimação das reformas como sinônimo de progresso e avanço. Esse movimento, aqui no Brasil, aflorava em conjunto com o sentimento de nação. Pois embora a independência tenha sido estabelecida na primeira metade do século XIX, apenas no final, com a Abolição dos escravos e a Proclamação da República, as idéias de nação brasileira e caráter nacional puderam ser melhores visualizadas e expostas. Havia nos moradores, principalmente no Rio de Janeiro, a sensação de viver em uma metrópole, inspirada, principalmente no modelo arquitetônico parisiense, a partir da reforma de Barão de Haussmann. A reurbanização parisiense20 consistia, grosso modo, na abertura de grandes avenidas, acabando com o perfil medieval de ruas estreitas. Assim, permitia o controle e a repressão policiais para as inquietações e sublevações populares do período. Este processo de urbanização serviu de modelo de exportação, como símbolo do capitalismo, da modernidade e da ilustração.

A historiadora Sandra Pesavento (2003) argumenta que toda a elite brasileira almejava ser Paris. No Brasil, exemplos próximos desse modelo foram fortemente estabelecidos nas cidades do Rio de Janeiro, Belém e Fortaleza. O historiador argentino José Luís Romero adverte que esse fenômeno de importação de um modelo arquitetônico europeu não se deu apenas nas capitais brasileiras, mas em quase toda a América Latina.

O exemplo do barão de Haussmann e de seu impulso demolidor alimentou a decisão das novas burguesias que queriam apagar o passado, e algumas cidades começaram a transformar a sua fisionomia: uma suntuosa avenida, um parque, um passeio de coches, um luxuoso teatro, uma arquitetura moderna, revelaram essa resolução mesmo quando não conseguiram com freqüência extinguir o fantasma da velha cidade (Romero, 2004: 285).

Durante o período da segunda metade do século XIX, Romero afirma que quase todas as cidades latino-americanas com anseios de modernidade duplicaram ou triplicaram a população e multiplicaram suas atividades em uma determinada proporção. Fortaleza não será diferente nesse aspecto. Como vimos rapidamente no primeiro capítulo, a cidade se expande, principalmente com a influência de do mercado externo com a Inglaterra, com a venda de algodão. O crescimento se deu em proporções tão rápidas que, algumas vezes, dá a sensação de ela ter se tornado um ser autônomo, com vontade própria, capaz de caminhar individualmente e crescer sozinha, sem ações coletivas. Fortaleza cresceu muito com a experiência do algodão, mas logo decaiu também, deixando por aqui personagens gringos e ingleses, que durante muito tempo controlaram os comércios das grandes empresas e, ao mesmo tempo, deram um tom caricatural e cômico à cidade.

Sobre Fortaleza após a experiência da exportação de algodão, o romance Mississipi, de Gustavo Barroso, traça um belo retrato da cidade e do vazio deixado com o fim do prolífero comércio. Nesse romance, há um destaque especial para o Mister Heid que, segundo o narrador, “não parecia um simples gerente de companhia de iluminação, mas o símbolo humano da própria Grã-Bretanha que passava vitoriosa, evocando Nelson em Trafalgar, Wellington em Waterloo, Roberts em Candaar, Kitchner em Cartum” (Barroso, 1996: 32).

Fortaleza, mesmo com essa dominação estrangeira a exemplo da Companhia de Iluminação, citado por Gustavo Barroso, buscava o status de cidade grande, de metrópole. Essa condição não vinha apenas por meio de mudanças arquitetônicas. Sandra Pesavento apresenta o conceito de cidade grande como aquela “que irradia a cultura, a civilização, a novidade e a informação, onde se cruzam e entrecruzam toda sorte de gente e atividades e onde seu povo se caracteriza pelo que se chamaria a 'urbanidade' das atitudes” (Pesavento, 2002: 59). É o local onde o sentimento de anonimato vem, portanto, acompanhado da expansão urbana, com o aumento populacional e a formação de multidões amorfas nos grandes centros urbanos. “A experiência da multidão traz consigo o sentimento da solidão. Os opostos parecem confluir ou conviver numa só personagem: o ator urbano. É no meio da multidão, da massa de indivíduos, que o indivíduo se refugia, mas, por outro lado, não há lugar onde possa se sentir tão só” (Pesavento, 2002: 100).

Como contraponto ao sentimento de modernização e metrópole, havia o estigma de provincianismo, justamente para os locais que não conseguiram introduzir a modernização em seu cotidiano. José Luís Romero acredita que as cidades provincianas eram aquelas que não almejavam suas modificações imediatas.

Não mudaram enquanto outras se transformavam e essa circunstância emprestou-lhes um ar de cidades estagnadas. Várias delas conseguiram, no momento, manter o ritmo de sua atividade mercantil pelo menos dentro de sua área de influência, mas mantiveram também o seu estilo de vida tradicional sem que se acelerasse o seu ritmo. As ruas e as praças conservaram a sua paz, a arquitetura, a sua modalidade tradicional, a convivência, as suas normas e as suas regras de costume (Romero, 2002: 293).

Vale, no entanto, apresentar uma ressalva diante desse fenômeno de transformações urbanas. Da forma como venho apresentando até então, expondo mudanças que se estabeleceram e, por ora, generalizadas a todo o ocidente capitalista, pode haver uma interpretação errônea, de que entendo esses fenômenos e essas ações de expansão urbanas como naturais e não históricas. Uma questão relevante é tentar entender por que esse fenômeno se deu em todo ocidente. Minha hipótese é de que isso só foi possível por causa da expansão das relações mercantis européias. A exportação e a dominação tiveram a cultura como elemento chave nas suas efetivações. Havia uma necessidade de consumo cultural, para tornar-se ilustrado e moderno. Resumindo, importaram-se pensamento e bens simbólicos que contribuíram para a dominação econômica.

Mais uma vez lembro as idéias do argentino Luís Romero. As cidades latino-americanas, embora dêem a sensação de esplendor do progresso, na verdade, são provincianas e evocam o brilho, as luzes e o luxo ostensivo, todas cópias de Paris. E essa aproximação com a realidade francesa, deu-se muito pelas leituras dos romances desta nação difundidos em toda a América Latina. “Almejava-se também o gênero de vida mundano que os romances e os jornais difundiam, e um certo tipo de anonimato que caracterizava a existência da grande cidade, graças ao qual a vida parecia mais livre e a possibilidade da aventura mais fácil” (Romero, 2002: 294).

Com a diminuição da fronteira entre Europa e América Latina prevalece a dominação cultural e econômica do mundo velho sobre o novo. A Europa dita os costumes que deveriam ser estabelecidos pelo mundo. Nas províncias do lado de cá, vive-se um dilema extremo. Por um lado, tenta-se livrar da sensação de provincianismo, no entanto, o único mecanismo para tentar se livrar disso é por meio de cópia dos costumes europeus. Paradoxalmente, na busca pela libertação, ratifica-se o provincianismo. Havia o sentimento de renovação a partir da adoção de novos costumes estabelecidos pelo velho mundo, exigindo uma transformação de seu habitat. Inúmeras cidades latino-americanas tentaram renovar a sua aparência a partir das últimas décadas do século XIX. Essas reformas se davam a partir da destruição de qualquer elemento que lembrasse aspectos de colonização. Houve, portanto,

demolição do velho para dar lugar a um novo traçado urbano e a uma nova arquitetura foi um extremo ao qual não se recorreu naquela época a não ser em poucas cidades, porém transformou-se em uma aspiração que parecia resumir o supremo triunfo do progresso (Romero, 2004: 310).

Quando se pensa na cidade de Fortaleza, sob a ótica da modernidade e da expansão urbana, a questão aparece ainda de forma mais complexa, pois ela não havia ainda passado por nenhuma experiência arquitetônica significativa. Pouco havia de novo ou de velho na cidade. Ela foi se construindo a partir dessa nova óptica arquitetônica e abraça com todas as forças, com a pretensão de já nascer moderna e civilizada. Fortaleza também, no fim do século XIX, por se localizar fora do eixo comercial brasileiro, sofre ainda a represália de ser “menor” do que o símbolo-mor da civilização brasileira: o Rio de Janeiro, capital do Império, e posteriormente da República, onde se concentram os maiores intelectuais da nação, as maiores riquezas, o maior glamour. Boa parte de nossa prosa romântica e naturalista tem como cenário, principalmente, a Corte, basta folhear os romances de José de Alencar, Machado de Assis, Aluísio Azevedo.

Essa relação entre Norte e Sul será um tanto quanto tensa. Tanto por trazer referências nos romances, como também demonstrar um acirramento entre os escritores ao defenderem suas terras. Há um episódio curioso sobre o assunto, envolvendo Adolfo Caminha. Quando o escritor Cruz e Souza lançou o seu livro Missal, de 1893, o poeta catarinense propunha a divisão em dois brasis: entre o Norte e o Sul, para melhor demarcar as literaturas de cada região. Adolfo Caminha não gostou nada da idéia e escreveu um artigo, na Gazeta de Notícias, com manifestação contrária. Ele chega a afirmar que se fosse feito um estudo científico, provar-se-ia que os melhores escritores brasileiros estão no Norte, “de lá é que vem toda a força, todo o prestígio literário, toda a originalidade” (Caminha, 1999: 109). E cita como exemplo Aluísio Azevedo, José de Alencar e Gonçalves Dias, como uma pequena lista significativa das letras nacionais. Ele reconhece, no entanto, que o Rio de Janeiro, é o local onde se lapida o talento bruto desses grandes nomes e, mesmo sendo a cidade desprovida de nomes brilhantes, ela exerce função importante na nação, pois

os filhos do Rio de Janeiro têm uma vantagem sobre o provinciano: é que nascem no meio da civilização e logo, em idade precoce, vão adquirindo conhecimentos e maneiras próprias das grandes capitais e vão se familiarizando, portanto, mais depressa que aqueles, com os processos artísticos dominantes e com as idéias gerais da época. (...) O filho da província, por mais talentoso que seja, há de forçosamente completar a sua educação artística num círculo maior, onde as suas faculdades possam triunfar em comunicação com as boas obras estrangeiras; o talento, porém, esse conserva-se original e vigoroso, sem perder nenhum dos caracteres que o distinguem da inteligência meridional. (...) O Rio de Janeiro é o nosso petit Paris, o centro da vida nacional, por assim dizer a retorta em que se operam as dinamizações comuns em que se estabelece a verdadeira luta pela existência e pela glória (ibid., 112).

 A noção da superioridade carioca está presente também no romance A Afilhada. O dilema se concentra na personagem Vicente que, após longa estada no Rio de Janeiro, regressa à Fortaleza. A personagem traz em si a representação da modernidade: é cientista e letrado. Seria possível aqui, tentarmos estabelecer algumas conexões entre a vida de Oliveira Paiva e de sua personagem Vicente. Nascidos em Fortaleza, ambos tiveram uma longa vivência no Rio de Janeiro. Oliveira Paiva partiu para o Rio de Janeiro, aos 16 anos, “onde passa a estudar na Escola Militar da Corte. Seria apenas mais um jovem de uma mesma família a engrossar as fileiras de filhos da classe média provinciana nos quadros do novo Exército Nacional” (Tinhorão, 1986: 10).

O retorno à cidade, tanto de Oliveira Paiva quanto de Vicente, se deu por motivo de saúde. “O Centu, porém, não era um rapaz influído para certas coisas. Chegado de pouco à sua província, para convalescer de uma pneumonia, de volta da conclusão de estudos” (Paiva, 1993: 187). As doenças são diferentes. Enquanto Vicente vem tratar uma pneumonia, Oliveira Paiva tem tuberculose, que com o agravamento provoca “seu regresso de Fortaleza, em inícios de 1882, até seu desligamento definitivo da Escola em fevereiro de 1883, que se dá a iniciação literária” (Tinhorão, 1986: 24). Em Fortaleza, Paiva se envolve com movimentos políticos e literários, como discutirei com maior detalhe no próximo capítulo.

Mas talvez o elo mais forte entre autor e personagem esteja em crer na possibilidade de transformações sociais por meio da ciência. Vicente, sendo engenheiro, dedica boa parte de seu tempo à ciência, até ter seus sentimentos se alteram por causa do amor de Mariinha. Sobre a vida amorosa de Oliveira Paiva, tem-se pouca informação. Sabe-se apenas que ele foi casado e não deixou nenhum filho. Vicente, no entanto, vive o conflito frequente entre amor e ciência. Chega a escrever uma carta para a Mariinha, falando que a sensação do amor teria lhe transformado profundamente e modificado sua relação com a ciência.

Desde que resolvi-me entregar-me simplesmente às forças naturais, tirar à minha vontade o direito de imiscuir-se em tudo que não seja o estudo e o trabalho, passo melhor, leio, rio, faço caminhadas de recreio. É verdade que me dizem melancólico, e me chamam filósofo; e eu me sinto muito sensível. Isto, porém, é o amor que me gravaste, que me aguçou a percepção externa, me afinou os nervos e os sentidos (Paiva, 1993: 208 – grifo meu).

Embora seja um homem letrado, Vicente possui pouco conhecimento sobre arte, diferente de Oliveira Paiva. A personagem sente, por exemplo, uma imensa vergonha de nunca ter lido José de Alencar, o maior escritor das terras cearenses. Vicente, não querendo passar vergonha diante da prima, mostra-se erudito e pede emprestado a moça o livro de José de Alencar, considerado pela personagem como “eminente escritor em conta de cavilosidades dos brasileiros”. Enquanto conversava com a prima, o amigo Lucas solta a Vicente a seguinte frase e ironiza com o “progresso” de Fortaleza:

- Ah, meu caro amigo, você cuidava que isto aqui era o Rio de Janeiro? Há de topar serviço! Isto está um país adiantadíssimo!... Além do calçamento, do encanamento de água, da iluminação a gás, – contava nos dedos – do Palácio da Assembléia, do novo sistema de carroças, das casas pela marca da Câmara, temos pianos em todas as salas, e a instrução do belo sexo! Você pega uma dessas flores do paraíso terrestre, principalmente se tiver sido educado pelas irmãs de caridade, corta a língua que nem maracanã, canta que nem sabiá, lê como doutor, e sabe que nem vigário! (ibid., 187).

Lucas apresenta para Vicente uma cidade que vive seu momento de civilidade e exalta os pianos, a instrução das mulheres, a presença do calçamento, chega até a brincar dizendo que a cidade já se assemelha ao Rio de Janeiro, onde se vive a glória de ser a melhor capital brasileira, mas ainda está longe de chegar próximo de uma Paris, como denominou Adolfo Caminha. A partir do raciocínio, tanto de Lucas, quanto de Caminha, costumo brincar que há uma equação hierárquica entre essa três cidades: Fortaleza quer ser o Rio de Janeiro e Paris ao mesmo tempo. Rio de Janeiro quer ser Paris. Esta última vive até hoje com o status de cidade da luz, berço da cultura.

A historiadora Sandra Pesavento (2002) desenvolveu uma pesquisa interessantíssima na qual descortina os textos literários produzidos no período entre os séculos XIX e XX sobre as cidades de Paris, Rio de Janeiro e Porto Alegre, respectivamente. Entre as várias questões curiosas apresentadas pela pesquisadora, ela destaca ser por meio da literatura que as cidades se apresentam ao mundo. Acredita, por exemplo, que Paris se constituiu como o paradigma de cidade moderna e metonímia da modernidade urbana muito mais pela força das representações construídas sobre ela, feitas por meio de uma extensa produção literária e de projeções urbanísticas, personificadas no já comentado 'haussmannismo'.

Ora, ao penetrar nos romances, tanto de Oliveira Paiva, quanto de Adolfo Caminha, percebemos um excesso de sentimento provinciano, de dependência e culto a uma cultura e aos costumes estrangeiros. A cidade construída por ambos, mesmo que por motivos diferentes, está fadada a não dar certo. Em Adolfo Caminha, a culpa é principalmente de sua população mesquinha e incivilizada. Em Oliveira Paiva, as intempéries naturais, a mácula da escravidão e a influência forte do sertão são características incompatíveis com os anseios de progresso e civilidade, alcançados apenas por alguns escritores, intelectuais, raros nomes nobres daquela terra. A relação existente entre cidade e seus signos representativos propicia uma longa reflexão. Até que ponto um texto se apresenta como importante na construção de um tecido urbano? O uruguaio Angel Rama esmiuçou essa questão em seu livro A Cidade das Letras (1986), no qual estabelece a importância do universo letrado para a constituição de uma cidade. Para ele, os textos mediam, muitas vezes, os sonhos e utopias de um povo sobre determinada região. Quem sabe também os pesadelos? Esses sonhos – ou pesadelos – podem se materializar ou não. Ou seja, não é só a cidade que é representada literariamente, mas os anseios são apresentados em forma de literatura como projeto para aquela cidade.

O sonho de uma ordem servia para perpetuar o poder garantido. E, além disso, se impunha a qualquer discurso opositor desse poder obrigando-a a transitar, previamente, pelo sonho de outra ordem (...) Antes de ser uma realidade de ruas, casa, e praças, que só podem existir e ainda assim gradualmente, no transcurso do tempo histórico, as cidades emergiam já completas por um parto da inteligência nas normas que as teorizavam, nos atos fundacionais que as estatuíam, nos planos que as desenhavam idealmente, com essa regularidade fatal que espreita aos sonhos da razão (Rama, 1986: 32 – grifos do autor).

Sob este aspecto, Paris é, para Pesavento, uma cidade em prosa por excelência. Vários dos grandes cânones da literatura universal são de origem francesa: Victor Hugo, Emílio Zola, Alexandre Dumas, Balzac. Esses escritores, mesmo apresentando uma postura crítica diante da cidade onde habitaram, descreveram as ruas, os monumentos, os prédios. Construíram, como reforça a historiadora, “verdadeiros poemas arquiteturais”. A ilustração tornou-se responsável pela visualização de uma cidade virtuosa, “centro da alta cultura, núcleo produtivo por excelência, germe do progresso econômico e social, símbolo da civilização e locus privilegiado de realização do pensamento racional em todas as suas manifestações” (2002: 38). Paris, mais do que uma grande metrópole, passa a ser um conceito que ganhou o mundo. É um imenso sistema onde se pode averiguar ideias e imagens de representações que aos poucos se tornaram coletivas e universais. “Paris é o centro de um imaginário social construído pela modernidade. É a cidade cujo nome evoca paisagens, maneiras, hábitos, desejos e personagens” (2002: 68).

Em paralelo a toda essas atribuições literárias para Paris, houve o grande empreendimento urbanístico proposto por Haussmann que fixou sonhos já existentes. O projeto, dada certa liberdade, vem para consolidar essa cidade-poesia. A arquitetura materializa os estilos e modos de vidas almejados. Mas ela não seria suficiente se não fizesse parte de um longo processo. A prática de intervenção urbana de Haussmann teve a preocupação de conciliar sensação de continuidade e renovação. Deixou marcas visíveis no traçado urbano, cristalizando uma imagem visual de metrópole.

Essas mesmas idéias foram exportadas para o mundo. No Brasil, como veremos a seguir, tanto houve a importação do estilo de escrita por meio do romance, como os projetos arquitetônicos foram fundamentais para a construção das cidades. Por diferentes justificativas, as cidades, aos poucos, foram aderindo ao projeto europeu.


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Fonte:
Tiago Coutinho Parente: “A Cidade em Letras: Uma análise da construção de Fortaleza no final do século XIX, no romance A Afilhada, de Oliveira Paiva”. (Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre, pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará. Orientador: Prof. Dr. Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes), Fortaleza, 2009.

12/01/2014

Panóplias e outros Poemas de Olavo Bilac

 Olavo Bilac - Alma Inquieta - Iba Mendes
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Olavo Bilac, aspectos biográficos e a crítica

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 16 de  dezembro de 1865, num sobrado da rua da Vala. Bilac teve sua infância marcada  pela Guerra do Paraguai (1864-1870). Seu pai, o Dr. Brás Martins dos Guimarães  Bilac, médico, fora em missão para os campos de batalha, só retornando com o  fim da guerra. Ainda criança, participou da multidão que foi saudar o  desembarque do 13º  Batalhão dos Voluntários da Pátria, sob o alarido do povo,  as chaminés dos navios, o repicar dos sinos, o toque do Hino Nacional e tudo isto  envolvido pela brisa e o azul do mar. Bilac também e ainda em tenra idade ouviu,  de seu pai, narrativas impressionantes sobre a guerra, que certamente forjaram  nele o seu espírito patriótico.

Na adolescência, Bilac se embevecia pelos poetas franceses Victor Hugo,  Gautier, Leconte de Lisle e Herédia, e cultivava a amizade Artur de Oliveira (1851-1882), que chegou ao Brasil, vindo da França, trazendo consigo os segredos da  técnica parnasiana.

A vida amorosa de Bilac também foi um fator que moveu e influenciou sua visão do mundo e está fortemente registrada em sua poesia, e merece ser brevemente mencionada neste trabalho. Bilac amava Amélia, a irmã do poeta Alberto de Oliveira31, mas o irmão mais velho de Amélia, Juca, ao ver-se chefe da família pela morte do pai, negou o pedido de casamento de Bilac com Amélia, a inspiradora de Via Láctea, por considerá-lo um boêmio, irresponsável, que nem emprego tinha, embora Bilac não fosse tão boêmio assim. Este fato pode ter afetado sua vida acadêmica, levando-o a se desfazer dos cursos, atormentando e entristecendo sua vida. Bilac não mais amou outra mulher e sua vida de sucesso profissional provou exatamente o contrário do que pensava o irmão de Amélia.

Bilac estudou medicina no Rio de Janeiro, mas abandonou o curso para estudar Direito em São Paulo, que também não concluiu, abraçando o jornalismo e a literatura. Participou intensamente de política, das campanhas cívicas de alcance nacional e foi um defensor da instrução primária, da educação física e exerceu também a inspeção escolar Perseguido pelo governo do marechal Floriano Peixoto, por ocasião da revolta de 1893, escondeu-se em Vila Rica, Minas Gerais, e depois foi recluso na fortaleza de Laje, no Rio de Janeiro.

Conferencista notável e mestre das palavras, Olavo Bilac foi formador de opinião e de mentalidade, estreando-se em 1888 com seu livro Poesias, aos 23 anos. Acumulavam-se nele o jornalista profícuo, o propagandista entusiasmado da educação pública, o autor de poesias infantis, o patriota, o célebre conferencista mundano, tradutor, tratadista poético.
Exerceu diversos cargos públicos como: oficial da Secretaria do Interior do Rio de Janeiro, inspetor escolar do antigo Distrito Federal (Rio de Janeiro) e secretário da III Conferência Pan-americana do Rio de Janeiro, em 1906. Idealista e divulgador dos princípios nacionalistas, Bilac fez campanhas como a do serviço militar obrigatório, que ele viu como um meio de alfabetizar os adultos.

A personalidade de Olavo Bilac, de forte cunho literário e social, fez com que se tornasse o poeta mais lido do país nas duas primeiras décadas do século XX. Foi idolatrado em vida pelo público do Brasil, talvez por ter sabido elevar dois sentimentos humanos comuns: o amor à mulher e a veneração à Pátria. Segundo o crítico Sílvio Romero32 (citado por Barbosa, 1965):

Os versos lhe saem correntios, deslizam-se doces, maviosos, como se fossem falas decoradas e repetidas sem o mínimo esforço. Em suas composições avultam dois gêneros principais: idealizações históricas, feitas com invejável maestria, e efusões amorosas como não há melhores em línguas românticas (BARBOSA, 1965).  

De fato, Olavo Bilac foi um poeta parnasiano além de seus contemporâneos. Mais do que os poemas Herédia, os de Olavo Bilac eram requintados estudos de efeitos sonoros que poderiam ser extraídos da palavra falada. Este procedimento conferia plasticidade e vida à poesia de Bilac. Sua poesia transbordava de sonoridade e timbre, como que para desviar ao ouvido a sensação de “fórmula” da rígida estética parnasiana. Para ele o ouvido era o melhor mestre do poeta. O uso de variadas rimas, aliterações, assonâncias, elisões e absorções revestia a expressão de seu pensamento em cores, timbres, ritmos, sons e ruídos. Enfim, seus poemas preciosamente apurados, fluíam numa natureza sonora própria, numa alquimia que formulava música usando versos como instrumento.

Contudo, essa busca de novos elementos sonoros já se fazia presente na primeira metade do século XIX, na poesia de Allan Poe (1809 -1849) e era uma tendência da poesia finissecular simbolista de Baudelaire e Rimbaud (1854-1891). Podemos perceber analogamente esse novo conceito de som nas obras de Debussy (1862-1918), Schoenberg (1874-1951) e Webern (1883-1945).

Debussy, assim como Bilac, pesquisava as sonoridades da linguagem e as empregava como inovações musicais que eram baseadas, em certo sentido, nas inflexões sutis e especiais da língua e da poesia francesas, no caráter oposto ao forte acento métrico e ritmo da música italiana e alemã, na organização fluida e não-simétrica do metro francês. Os sons e seus padrões relacionam-se através de critérios auditivos arbitrários e sensuais, não se submetendo às regras do movimento e resoluções da lógica linear tonal. Essa dissociação do evento individual do som elevou o timbre e a articulação a um ponto de paridade com a harmonia e o ritmo. Esse som desvinculado e coisificado de Satie (1866-1925), Debussy, Shoenberg e Webern transformou a música, oferecendo ao século XX um amplo estudo tímbrico, gerando a expansão de técnica instrumental e orquestral, paralelamente à expansão de materiais.

Aplicava-se o uso de abafadores, sons velados nos violinos, articulação da língua nos sons de flauta e expressões como col legno, battuto e tratto. (SALZMAN, 1970)

Eis a observação de Sílvio Romero, confirmada pelo próprio poeta:

[...] Todas as palavras cabem no verso: tenha o versificador paciência, conheça a língua e adquira um apuro superior do ouvido. [...] [...] Da homofonia do verso trata Castilho33; não trata, porém, da rima, e nesta a uniformidade de som, variando apenas e quase sempre de mais abertos para mais fechados e vice-versa, é, a meu ver, sempre desagradável e não sei se algo haverá que a sancione.[...] (BILAC; PASSOS, 1905, p.33).

Mário de Andrade, em crítica ao poeta no Jornal do Comércio do dia 20 de agosto de 1921, reafirma o talento para a poesia artesanal de Bilac e descobre nele o poeta de vanguarda, que brincava de simbolismo:

[...] Por enquanto quero considerar Bilac como deputado da Beleza na terra do Brasil. [...] [...] Como deputado da Beleza era natural que Bilac estivesse estudado a arte de agradar por meio de seus versos... E que técnica formidável![...][...] Inteligentíssimo, estudioso, paciente, o tapeceiro de As viagens adquiriu uma facilidade, uma segurança, uma perfeição tal no manejo do alexandrino, e mesmo de outros metros, que confina com a genialidade. Se quiserem: Bilac é o malabarista mais genial do verso português. [...] [...] Quando devorei Tarde pela primeira vez, o meu pensamento parou estarrecido (não sei se me compreendem) diante destes versos: Um cometa passava... Reli, Tornei a ler. Creio mesmo que treli. Qual! Não compreendia! Que diabo! Olavo fizera simbolismo! Ou coisa que o valha? Não podia ser! Reli. Qual! Não entendia. Senti que pesava a minha alma parnasiana! Joguei-a fora. Eureka! Esplendor! Fecundação! As palavras brilhavam como vidas. As idéias palpitavam como profecias... [...] Fizeste com que o deputado da Beleza sonhasse o que sonhamos todos nós – a criançada de hoje – com os nossos olhos abertos: o futuro sincero e libertário da poética brasileira![...] E de ambos vives a zombar assim. [...] (BILAC, Obra Reunida, 1996, p.37).

Olavo Bilac também possuía plena e angustiada consciência das limitações da escola parnasiana, manifestadas em certos trechos de uma crônica sua, publicados em O Estado de São Paulo:

Qualquer um de nós pode, com maior ou menor esforço, fixar em versos mais ou menos perfeitos uma idéia mais ou menos nova. Tudo é questão de estudo e paciência: não há dificuldade que a pertinácia não vença; e fazer jogos malabares com as palavras é prodígio que só pode maravilhar os que não se iniciaram no mistério desta arte vulgar. Que valem nossos sonetos, nossas baladas, nossas fantasias de vôo curto? O artifício chinês que consome um ano de trabalho, em cavar e arrebitar o pedacinho de marfim, para dele extrair uma maravilha de escultura microscópica, tem mais valor do que qualquer um de nós... Poetas como o maior de nós, aparecem às dúzias, por ano, por esse vasto mundo; aparecem, brilham um momento, e apagam-se e desaparecem como flóculos de espuma no mar sem raias do tempo. “Poeta” quer dizer “criador” – continuador e rival de Deus -  capaz de tirar a luz das trevas e a inércia da morte, a palpitação da vida... Nós outros somos os miniaturistas do sentimento, os fabricantes dos pechibeques literários, que a moda aclama e repele, ao sabor dos caprichos. Um capricho nos eleva, outro capricho nos abate, e, dez anos depois da nossa morte, já os homens acham aborrecido e pretensioso aquilo que tanto esforço nos custa (PONTES, 1944, p. 551).
  
Cultor da perfeição estilística integrou, juntamente com Alberto Oliveira e Raimundo Corrêa34, a famosa tríade parnasiana brasileira. Seus poemas em forma de soneto de chave-de-ouro eram declamados em toda parte, pelos saraus e salões literários.
Em 1907, aproveitando-se da época em que a poesia ocupava a alma da grande maioria dos brasileiros, a revista carioca Fon-Fon promoveu um concurso para reconhecer o Príncipe dos Poetas e Bilac era o mais aplaudido, o mais popular, o mais idolatrado.

No dia três de outubro daquele ano, num grande banquete onde estavam representadas todas as classes sociais, Bilac recebeu a mais alta homenagem já prestada a um homem de letras no Brasil. Como Príncipe dos Poetas, Bilac então falou: “O que estais, como brasileiros, louvando e premiando, nesta sala, é o trabalho árduo, fecundo, revolucionário e corajoso da geração literária a que pertenço. [...]” (BARBOSA, 1965, p.105).

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, que tem por nome a fórmula do verso alexandrino (12 sílabas) faleceu em 1918, no dia 28 de dezembro, na rua Barão de Itambi, 35, de edema pulmonar em conseqüência de uma hipertrofia cardíaca da qual sofria havia anos. Seu velório foi do Silogeu Brasileiro e enterro, com imenso cortejo, no cemitério São João Batista.

As obras poéticas de Olavo Bilac foram: Poesias (1888): Profissão de Fé, Panóplias, Via Láctea, Sarças de Fogo, Alma Inquieta, As Viagens, O Caçador de Esmeraldas; Tarde (1919) e Poesias infantis (1895). Sua obra em prosa: Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Ironia e Piedade (1916) e Últimas Conferências e Discursos (1924).

Barbosa (1965, p. 9) inicia seu livro com uma reflexão que sintetiza a obra de Olavo Bilac: “A era Bilaquiana é um marco brilhante da história de nossa Poesia. Reveste-se, perante qualquer geração, de uma luminosidade de caríssimo relicário”.

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Fonte:
Francisco Braga: “uma análise poética e musical de sua canção  Virgens mortas, sobre soneto homônimo  de Olavo Bilac”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais Orientador: Prof. Dr. Maurício Veloso Queiroz  Pinto). Belo Horizonte, 2006.

03/01/2014

Os Timbiras, de Gonçalves Dias

 Goncalves Dias - Os Timbiras - Iba Mendes
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Gonçalves Dias e os Timbiras


[...]

A missão de Gonçalves Dias consiste em ultrapassar os termos estabelecidos pela literatura colonial, que, desde a carta de Caminha estabelecera um confronto entre os dois mundos: em que o conquistador é o representante da civilização, e os índios os representantes da barbárie. Ou o primeiro a bondade natural humana e o segundo corporificando a maldade18. Cabia aos conquistadores uma tarefa, que Caminha mesmo sugeriu: salvar a terra, salvar a gente que nela habita. Mas por trás desse salvamento e do combate à barbárie praticou-se a barbárie, em combate à injustiça mataram-se homens, velhos, mulheres e crianças, em nome do cristianismo destruiu-se, em combate ao paganismo cometeram os mesmos sacrifícios humanos.

Gonçalves utiliza o termo índios, e isto revela o desconhecimento da identidade do outro, porque este termo provém do pseudo-hindu; acaba por sua vez o índio assumindo aquela que lhe foi atribuída. Herculano também reconheceria que o poeta tem muito de trato do português na sua lírica. Mas o indianismo gonçalvino possui três grandes autenticidades: pelo sangue, porque era filho de uma guajajara com um português; pelo conhecimento direto com os índios, pelos estudos realizados, como em Brasil e Oceania.

Salvo a terceira alternativa, as duas primeiras são controversas, a primeira porque carece de maiores fontes se teria tido o poeta sangue indígena em sua miscigenação, fato que muitos escritores não reconhecem e nem é possível comprovar através de análise por parentes, porque não existem descendentes do poeta – nem mesmo o poeta conheceu o local da sepultura de sua filha – e o corpo do poeta precipitou-se no mar, impossibilitando uma comprovação por meio da arcada dentária; a segunda porque, conforme veremos, o poeta atribui aos Timbiras costumes dos tupinambás, embora alguns teóricos afirmem que seja pelo conhecimento que tinha dos tupinambás e pela ignorância dos costumes dos Timbiras.

Todavia optamos por acreditar que teria o poeta optado por louvar os Timbiras, índios que ocupavam a maior parte do seu estado natal, o Maranhão, atribuindo costumes tupinambás talvez porque estes já eram tidos como uma raça nobre, e pelo fato do desconhecimento da tribo Timbira, e que o poeta quisesse legitimá-los. De acordo com Angione Costa, os Gês não foram povos de civilização inferior aos Tupis-guaranis, antes tão adiantados quanto eles, se não mais nas indústrias domésticas, tendo, porém, ânimos menos propensos às atrações da guerra, aos pendores marciais. Só assim se explica que, em todos os campos onde se defrontaram com os seus valentes e aguerridos inimigos, sempre lhes cederam o lugar, sempre se deixaram bater.

No entanto, esta afirmação não compromete a obra de Gonçalves, porque o seu caráter não é histórico e sim poético. Em diversos momentos a verdade poética seria inquestionável na obra do poeta. Gonçalves sobrepõe à realidade, arquiteta uma sociedade convencional, uma civilização ideal, um Brasil fora de sua rude verdade.


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Fonte:
Weberson Fernandes Grizoste: “Reflexos anti-épicos de Virgílio no indianismo de Gonçalves Dias”. (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra Dissertação de mestrado em Poética e Hermenêutica, especialidade de Poética e Hermenêutica, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sob a orientação do Professor Doutor Carlos Ascenso André). Coimbra, 2009

I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias

 Goncalves Dias - I Juca-Pirama - Iba Mendes
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Breve Análise


INTRODUÇÃO

Poema desenvolvido em dez cantos, tendo como tema central o drama vivido pelo último descendente da tribo tupi.

É sabido que o índio teve papel relevante no romantismo brasileiro. Sabe-se também que esse mesmo índio dentro da vertente romântica possui atributos de perfeição, um ser idealizado, cujo comportamento seria reflexo do modelo ideal da “nobre civilização” branca. Na Europa essa idealização deu-se através da mitificação dos heróis da Idade Média, tida como uma época de glórias, período pelo qual se formaram as grandes nações.

No Romantismo brasileiro o índio é eleito para exercer a função do nobre e ostentoso cavaleiro medieval. De acordo com o ensaísta Eugênio Gomes, é especificamente no poema I - Juca Pirama que o índio perde a sua “selvatiqueza”. Afirma ele: “...é atribuído à tribos dos Timbiras um sentimento que eles não tiveram jamais: a compaixão”.


BREVE ANÁLISE

O título, obviamente de origem indígena, em tupi-guarani significa “aquele que há de morrer”. Típico herói romantizado, perfeito e sem mácula, que melhor representa os sentimentos do leitor burguês no período da escola romântica brasileira.

I - Juca Pirama é o último descendente da tribo tupi. Sabe-se que havia no Brasil inúmeras tribos indígenas (o próprio poema fala da tribo dos Timbiras). Qual então a razão pela qual Gonçalves Dias elegeu especificamente um guerreiro da tribo tupi? O que havia de tão especial nessa tribo?

Para os historiadores, houve basicamente dois ramos da linhagem indígena: os tapuias (os que primeiro passaram os Andes e subiram pelo interior) e os tupis (os que subiram pelo litoral). Dos povos indígenas que aqui se estabeleceram, os tupis, por esforço próprio, foram os únicos que culturalmente se mantiveram com extremo vigor. Dessa forma, na visão romântica, os tipis seriam os legítimos representantes da tradição secular dos índios brasileiros. Ainda hoje, nacionalistas extremados, os novos “Policarpos Quaresmas”, vêem ainda na cultura tupi, a lídima representante da cultura brasileira.

CANTO I:

Apresenta e descreve a tribo dos timbiras.

“(...) Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão”.

Os índios aqui são retratados como seres fortes, soberanos da imensa terra brasileira; são os verdadeiros senhores desta terra, que reinam majestosa e livremente sobre o solo que lhes pertenciam legitimamente.

São rudes, severos, sedentos de glória.
(...)
São todos Timbiras, guerreiros valentes!

A tribo da qual pertenciam os timbiras praticava o canibalismo de maneira ritual. Eles não sacrificavam o inimigo por gula. Os rituais de sacrifício não significavam para eles sacrílegos banquetes, mas cerimônias de culto. Trincava a carne do inimigo como se fizesse um desagravo, e uma honra à tribo desagravada. É o que se poderia denominar de “antropofagia heróica”, algo bastante distinto da antropofagia religiosa ou doméstica, que era comum entre os índios tapuias.

“No centro da taba se estende um terreiro,
onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis:
Os velhos sentados praticam d’outrora.
E os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se em torno dum índio infeliz”.

A tribo senhora é exatamente a tribo dos timbiras que se preparava para praticar o ritual canibalístico. O índio infeliz é I - Juca Pirama, que fora feito prisioneiro por essa tribo. Nesse ínterim, os velhos índios recordavam os grandes feitos do passado.

“Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto,
Sua tribo não diz: - de um povo remoto
Descende por certo - dum povo gentil;
(...)

O narrador utiliza o adjetivo nobre para definir o prisioneiro. Apresenta-o como um guerreiro especial, que descende de igual modo de uma tribo especial. É relevante notar que, ao narrar a cerimônia de preparação do sacrifício, o poeta incorpora inúmeros elementos da cultura indígena, tais como: derrubar o teto da prisão do índio; convidar as tribos vizinhas para a cerimônia; adornar a maça (arma) com penas; raspar a cabeça do prisioneiro etc.

“Por casos de guerra caiu prisioneiro”

A causa da prisão do guerreiro tupi foi exatamente a guerra. O tupi vivia para a guerra. Tinha, da sua força e da sua coragem, profundo orgulho, associado a uma verdadeira paixão de glória. Vencer um inimigo era a maior ufania de um guerreiro tupi.

“Afeitas ao rito da bárbara usança”

Nesse trecho o poeta revela que as mulheres da tribo estavam acostumadas ao ritual de sacrifício do inimigo.


CANTO II:

Aqui o narrador revela a festa canibalística dos timbiras e a aflição do guerreiro tupi, que logo seria sacrificado.

“Em fundos vasos d’alvacenta argila
ferve o cauim;
Enchem-se as copas, o prazer começa,
reina o festim.

O ritual está sendo preparado conforme os costumes das tribos. Segue-se “religiosamente” os costumes dos antepassados. Observa-se aqui uma mudança na métrica dos versos, realçando o evento que pretende consumar. A antropofagia praticada pelos índios existia como conseqüência dos excessos de bravura e de vingança vividos por eles. As cerimônias confundiam-se com as celebrações da guerra.

“O prisioneiro, cuja morte anseiam,
sentado está...

I - Juca Pirama aguarda o momento pelo qual será sacrificado. Não fosse o fato de seu velho pai ser cego e doente, haveria por parte do guerreiro aceitação do ritual com toda a normalidade que era própria das tribos.

“Que temes, ó guerreiro?

Não era comum entre os índios o fato de um guerreiro temer a morte. Tal atitude era considerada um ato de covardia.


CANTO III:

Apresentação do último remanescente tupi: I - Juca Pirama

“Dize-nos quem és, teus feitos canta,
ou se mais te apraz, defende-te”

Antes de ser executado cerimonialmente, o guerreiro é convidado a entoar o seu canto de morte, o que é feito no IV canto.


CANTO IV:

I - Juca Pirama, aprisionado pelos timbiras, declara o seu canto de morte e pede ao cacique dessa tribo que o deixe ir para cuidar do seu pai que padece enfermidades (Só o narrador fora preso, o pai ficará distante).

“Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci

Apresentação do narrador épico. Como se trata de uma experiência essencialmente pessoal e familiar, emocionada e dolorida, pode-se esperar também por um clima trágico e lírico.

“Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte...

Existiram tribos que em lutas contra os brancos e os próprios índios se extinguiram. Aqui, o narrador é um remanescente tupi, tribo que, como muitas outras foram exterminadas, principalmente pelos brancos, e mais especificamente, pelos portugueses e espanhóis.

“Aos golpes do inimigo
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
acerbo desgosto
Comigo sofri”.

É interessante notar aqui certo “preâmbulo narrativo” qualificando o narrador, que se refere diretamente a decadência final dos tupis.

“Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos...

Somente a partir desta estrofe é que se tem início realmente a história. Mesquinhos nesse contexto tem o sentido de “fracos”, “abandonados”.

“O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só qu’ria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.

Faz-se mister realçar o pequeno número de sílabas. Narrativa elaborada com esse tipo de metro é algo bastante comum na épica popular da Península Ibérica: a isso se chamava romance, que, nesse caso, era um tipo de poesia narrativa de inspiração heróica e popularesca.

“Deixai-me viver!”

Atitude desse tipo não condizia com um verdadeiro guerreiro, por esse motivo, os que o aprisionara viram nesta súplica um sentimento de temor e covardia.

(...)
“Guerreiros, não coro
Do pranto que choro;
Se a vida deploro,
Também sei morrer”.

Para os inimigos que o preparava ao sacrifício ritual, o herói - ao chorar - mostrava covardia (não parecia um guerreiro tupi, senão um tupiniquim). Dessa forma, o guerreiro a ser sacrificado não era digno das galas da morte como “I - JUCA PIRAMA”.


CANTO V:

Ao escutarem o canto de morte do guerreiro tupi, os timbiras entendem ser aquilo um ato de covardia e dessa forma o desqualifica (como já fora citado) para tão nobre morte.

“És livre; parte!”

Os timbiras o libertam, e imediatamente o guerreiro tupi corre para o seio do pai.


CANTO VI:

O filho encontra-se com o pai que, ao pressentir o cheiro de tinta que os timbiras costumavam utilizar para rituais de sacrifício, desconfia da conduta do filho, e decide, ambos, partir para cessa tribo na tentativa de provar aos tais que a tribo tupi é verdadeiramente honrada.


CANTO VII:

Sob alegação de que os tupis são fracos, o chefe dos timbiras não quer aceitar a consumação do ritual no qual se provaria a honra dos tupis.


CANTO VIII:

O pai maldiz o suposto filho covarde.

“Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros
Implorando cruéis forasteiros
Seres presa de vis Aimorés”.

Nos quatro primeiros versos, a estranheza do pai. Como poderia seu filho chorar, se era um bravo guerreiro? Nos quatro versos seguintes começa a admoestação ao filho “maldito”.

“Um amigo não tenhas piedoso
Que a teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d’argila cuidoso
Arco e flecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra.
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és”.

A maldição paterna reúne o conjunto de tudo aquilo que significava horror para os selvagens, especialmente a transformação da natureza em punição e solidão.


CANTO IX:

Enraivecido o guerreiro tupi lança o seu grito de guerra e derrota valentemente a todos em nome de sua honra.

“ - Basta! clama o chefe dos Timbiras,
Basta, guerreiro ilustre! assaz lutaste...


CANTO X:

O velho (o narrador) rende-se frente ao poder tupi e diz a célebre frase: “Meninos, eu vi!”.

A DIGNIDADE DA TRIBO TUPI FORA PRESERVADA!