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04/01/2014

Patkull, de Gonçalves Dias (Teatro)

 Goncalves Dias- Patkull - Iba Mendes
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A obra dramática de Gonçalves Dias

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A peça Patkull situa-se no ano de 1707, estende-se de Mecklenburgo a Dresde, e vai até Casimir na Polônia. Patkull, o herói, é um guerreiro destemido, nativo da Livônia, local dominado, sucessivamente, por Carlos XII, da Suécia, por Pedro, o Grande, da Rússia, e por Augusto II, eleito rei da Polônia e posteriormente destronado. Em defesa de sua terra, Patkull  vai para os campos de batalha deixando a noiva, Namry Romhor. O anti-herói, Paikel, suposto amigo de Patkull, e antigo namorado de Namry Romhor, com a ausência do guerreiro tenta recuperar o amor da heroína. Embora Namry mantenha o compromisso de honra com Patkull, Paikel faz com que pareça que Namry traiu o noivo, desencadeando uma série de acontecimentos que culmina com a morte do herói.
[..]
Todas as peças de Gonçalves Dias são, portanto, inspiradas em fatos históricos e têm o desenlace sangrento como ponto comum: em Patkul, o herói morre ao ser incitado por Paikel a lutar nas disputas territoriais; em Beatriz Cenci, o vilão Francisco Cenci é envenenado, mas antes de morrer mata Lucrécia, madrasta e confidente de Beatriz; em Leonor de Mendonça, a protagonista é acusada de adultério e, apesar de inocente, é assassinada pelo marido; e, em Boabdil, o amor de Zoraima e Aben-Hamet é descoberto, e o casal condenado à morte. Além disso, as peças apresentam, de alguma forma, personagens femininas sujeitas ao domínio do pai e do marido. Namry Romhor abdica do amor a Paikel em respeito ao pai que a prometeu a  Patkull; Beatriz deixa-se seduzir pelo pai; Zoraima casa-se com Boabdill por imposição paterna, e Leonor de Mendonça é castigada pelo marido, por um crime que não cometeu.

Ao analisarmos as peças de Gonçalves Dias sob uma linha cronológica, observamos que as duas primeiras, Patkull e Beatriz Cenci, frutos de um espírito jovem, apresentam alguns problemas na estruturação e no entendimento do enredo. Em Patkull, drama composto por cinco atos, o protagonista desaparece no final do ato I e reaparece em cena nos dois últimos atos, quando já está sendo julgado e condenado à morte. Neste entremeio, o triângulo Patkull – Namry – Paikel é substituído por Namry – Paikel – Berta, esta última, dama de companhia de Namry, que havia sido seduzida e abandonada, por Paikel, no passado. Os três habitam a mesma casa na ausência de Patkull, e vivem se acusando uns aos outros. Desta forma, o leitor não tem acesso a um fato muito importante, de perspectiva política, que seria o período de ausência de Patkull enquanto lutava em defesa da Livônia. Além de não ter relatado os fatos históricos ocorridos no período, o autor usa, para preencher a lacuna, um segundo triângulo amoroso de baixo valor dramático. Outro problema da peça, que prejudica o entendimento do leitor, é a forma como Gonçalves Dias refere-se a Namry Romhor, ora tratando-a pelo nome e ora pelo sobrenome, como se fosse uma outra personagem.

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Fonte:
Ana Cláudia Rôla Santos: “A obra dramática de Gonçalves Dias”. Belo Horizonte, v. 9, p. 11-19, dez. 2005, disponível em: http://www.letras.ufmg.br

03/01/2014

Leonor de Mendonça (Teatro), de Gonçalves Dias

 Goncalves Dias - Leonor de Mendonca - Iba Mendes
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A desdêmona ambígua: Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias


“A complexidade patológica de D. Jaime, a doçura estática e trêmula de Leonor, a deliciosa cena familiar na casa dos Alcoforado, a função de contraponto naturalístico de uma Paula - são coisas de tragediógrafo nato. E o último ato (a batalha de Leonor contra a morte) faz arder, em um fogo só, realidade e símbolo, psicologia e abstração, como só as páginas deveras eternas do teatro conseguem.” Ruggero Jacobbi


Enquanto Martins Pena (assim como, depois, Joaquim Manuel de Macedo) se concentrou no potencial cômico de Otelo e na própria representação deste por João Caetano, Gonçalves Dias afigura-se como um dos primeiros leitores do Otelo shakespeariano no Brasil, e usa desta fonte para compor a melhor de suas peças, quiçá de toda a literatura dramática brasileira do século XIX194, que traz por título o nome da protagonista. O drama em três atos e cinco quadros de 1846 descende de Shakespeare em um período em que a versão de Ducis ainda era a que corria no Brasil, por conta principalmente da marcante interpretação de João Caetano – para quem, aliás, Leonor de Mendonça foi escrita, e por quem foi rejeitada (a peça só estrearia no Rio de Janeiro com a encenação do Teatro do Estudante do Brasil, dirigida por Esther Leão, e em São Paulo em 1954, com a montagem do Teatro Brasileiro de Comédia.

Gonçalves Dias foi buscar a inspiração para seu enredo em um fato histórico português ocorrido em 1512, quando D. Jaime de Bragança matou sua esposa Leonor sob pretexto de adultério, apesar do testemunho do padre confessor da esposa, que defendeu sua inocência. O fato, narrado na História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Vida do Duque D. Jaime, deixava margem à ambigüidade – teria sido Leonor inocente ou culpada?

Na peça, tal enredo é desenvolvido da seguinte forma: no primeiro ato, em uma  conversa entre Leonor e sua criada Paula, conhecemos o caráter terrível do duque e o interesse do jovem Alcoforado pela duquesa. Descobrimos também que o moço roubara de Paula uma fita de cetim pertencente a Leonor, que ordena à criada que a recupere.

Alcoforado vem pedir a proteção da duquesa, que promete interceder junto ao marido para enviá-lo à África para lutar por Portugal. Tendo tomado de volta sua fita do barrete do rapaz, acaba dando-lhe a mesma novamente como uma memória. Alcoforado joga-se aos pés de Leonor no momento em que o duque é anunciado. O jovem sai e Leonor comenta que fora imprudente. Mesmo assim, fala ao marido sobre a partida do moço. D. Jaime fala de seus sofrimentos anteriores, de cujas lembranças não consegue escapar. Aflito, resolve sair para uma caçada, a fim de acalmar-se. Leonor concorda em acompanhá-lo.

O segundo quadro traz a cena após a caçada, na qual Alcoforado salvara a vida de Leonor abatendo um javali. O duque insiste que a esposa agradeça seu salvador remunerando-o como lhe aprouver. D. Jaime tem um acesso de terror ao ver um copo d’água, atemorizando a duquesa. Ele insta Leonor a partir para a corte antes que seus ataques culminem em desgraça. A seguir, Alcoforado minimiza seu feito frente à duquesa, e fala de seu sofrimento por ela e de seus maus pressentimentos. Mesmo assim, ousa pedir a ela uma entrevista a sós para abrir seu coração. Leonor acaba concordando, e diz que mandará notícias pela criada.

O segundo ato mostra a cena familiar, na qual Alcoforado, em casa, conversa com o irmão, a irmã e o pai, preparando-se para sair à noite mas negando-se a revelar aonde vai. O pai o questiona mas acaba compreendendo, e o jovem sai levando a espada do irmão. Entretanto, no palácio, o criado Fernão vem advertir o duque sobre uma carta de Leonor a Alcoforado marcando um encontro. D. Jaime, em cólera, prepara uma armadilha e ameaça Fernão, caso tudo não seja verdade.

No terceiro ato, Alcoforado chega ao quarto de Leonor e declara seu amor, sabendo que vai partir e que deve morrer em combate. A duquesa expressa um amor “de mãe”, desvelado, mas o diálogo é interrompido por Paula que avisa que há homens armados pelos corredores. Leonor faz o jovem prometer que não lutará contra o duque, que os descobre e os acusa. Alcoforado conforma-se em ser punido mas tenta convencer D. Jaime da inocência de sua esposa. O duque sumariamente o condena à morte pelas mãos de um escravo.

Na última cena, Leonor, presa em seu quarto, reflete sobre a sua situação. Paula lhe traz os filhos, e logo depois o padre Lopo Garcia vem confessá-la. Leonor conta todo o ocorrido e seus sentimentos para com o duque e o Alcoforado. Quando D. Jaime chega, o padre afirma que Leonor é inocente antes de sair. A duquesa tenta argumentar com o marido, em vão. Enfim, todos os servos do castelo se recusam a matar Leonor, seguindo a recomendação de Lopo Garcia. Por um momento Leonor crê na sua salvação, mas o duque decide ser ele mesmo o executor, arrastando-a para fora da cena.


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Fonte:
Daniela Ferreira Elyseu Rhinow: “Visões de Otelo na cena e na literatura dramática nacional do século XIX”.(Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em   Literatura Brasileira, do Departamento de  Letras Clássicas e Vernáculas da  Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,  da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de  Doutor em Letras.  Orientador: Prof. Dr. João Roberto Gomes de Faria). São Paulo, 2007

Os Timbiras, de Gonçalves Dias

 Goncalves Dias - Os Timbiras - Iba Mendes
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Gonçalves Dias e os Timbiras


[...]

A missão de Gonçalves Dias consiste em ultrapassar os termos estabelecidos pela literatura colonial, que, desde a carta de Caminha estabelecera um confronto entre os dois mundos: em que o conquistador é o representante da civilização, e os índios os representantes da barbárie. Ou o primeiro a bondade natural humana e o segundo corporificando a maldade18. Cabia aos conquistadores uma tarefa, que Caminha mesmo sugeriu: salvar a terra, salvar a gente que nela habita. Mas por trás desse salvamento e do combate à barbárie praticou-se a barbárie, em combate à injustiça mataram-se homens, velhos, mulheres e crianças, em nome do cristianismo destruiu-se, em combate ao paganismo cometeram os mesmos sacrifícios humanos.

Gonçalves utiliza o termo índios, e isto revela o desconhecimento da identidade do outro, porque este termo provém do pseudo-hindu; acaba por sua vez o índio assumindo aquela que lhe foi atribuída. Herculano também reconheceria que o poeta tem muito de trato do português na sua lírica. Mas o indianismo gonçalvino possui três grandes autenticidades: pelo sangue, porque era filho de uma guajajara com um português; pelo conhecimento direto com os índios, pelos estudos realizados, como em Brasil e Oceania.

Salvo a terceira alternativa, as duas primeiras são controversas, a primeira porque carece de maiores fontes se teria tido o poeta sangue indígena em sua miscigenação, fato que muitos escritores não reconhecem e nem é possível comprovar através de análise por parentes, porque não existem descendentes do poeta – nem mesmo o poeta conheceu o local da sepultura de sua filha – e o corpo do poeta precipitou-se no mar, impossibilitando uma comprovação por meio da arcada dentária; a segunda porque, conforme veremos, o poeta atribui aos Timbiras costumes dos tupinambás, embora alguns teóricos afirmem que seja pelo conhecimento que tinha dos tupinambás e pela ignorância dos costumes dos Timbiras.

Todavia optamos por acreditar que teria o poeta optado por louvar os Timbiras, índios que ocupavam a maior parte do seu estado natal, o Maranhão, atribuindo costumes tupinambás talvez porque estes já eram tidos como uma raça nobre, e pelo fato do desconhecimento da tribo Timbira, e que o poeta quisesse legitimá-los. De acordo com Angione Costa, os Gês não foram povos de civilização inferior aos Tupis-guaranis, antes tão adiantados quanto eles, se não mais nas indústrias domésticas, tendo, porém, ânimos menos propensos às atrações da guerra, aos pendores marciais. Só assim se explica que, em todos os campos onde se defrontaram com os seus valentes e aguerridos inimigos, sempre lhes cederam o lugar, sempre se deixaram bater.

No entanto, esta afirmação não compromete a obra de Gonçalves, porque o seu caráter não é histórico e sim poético. Em diversos momentos a verdade poética seria inquestionável na obra do poeta. Gonçalves sobrepõe à realidade, arquiteta uma sociedade convencional, uma civilização ideal, um Brasil fora de sua rude verdade.


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Fonte:
Weberson Fernandes Grizoste: “Reflexos anti-épicos de Virgílio no indianismo de Gonçalves Dias”. (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra Dissertação de mestrado em Poética e Hermenêutica, especialidade de Poética e Hermenêutica, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sob a orientação do Professor Doutor Carlos Ascenso André). Coimbra, 2009

I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias

 Goncalves Dias - I Juca-Pirama - Iba Mendes
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Breve Análise


INTRODUÇÃO

Poema desenvolvido em dez cantos, tendo como tema central o drama vivido pelo último descendente da tribo tupi.

É sabido que o índio teve papel relevante no romantismo brasileiro. Sabe-se também que esse mesmo índio dentro da vertente romântica possui atributos de perfeição, um ser idealizado, cujo comportamento seria reflexo do modelo ideal da “nobre civilização” branca. Na Europa essa idealização deu-se através da mitificação dos heróis da Idade Média, tida como uma época de glórias, período pelo qual se formaram as grandes nações.

No Romantismo brasileiro o índio é eleito para exercer a função do nobre e ostentoso cavaleiro medieval. De acordo com o ensaísta Eugênio Gomes, é especificamente no poema I - Juca Pirama que o índio perde a sua “selvatiqueza”. Afirma ele: “...é atribuído à tribos dos Timbiras um sentimento que eles não tiveram jamais: a compaixão”.


BREVE ANÁLISE

O título, obviamente de origem indígena, em tupi-guarani significa “aquele que há de morrer”. Típico herói romantizado, perfeito e sem mácula, que melhor representa os sentimentos do leitor burguês no período da escola romântica brasileira.

I - Juca Pirama é o último descendente da tribo tupi. Sabe-se que havia no Brasil inúmeras tribos indígenas (o próprio poema fala da tribo dos Timbiras). Qual então a razão pela qual Gonçalves Dias elegeu especificamente um guerreiro da tribo tupi? O que havia de tão especial nessa tribo?

Para os historiadores, houve basicamente dois ramos da linhagem indígena: os tapuias (os que primeiro passaram os Andes e subiram pelo interior) e os tupis (os que subiram pelo litoral). Dos povos indígenas que aqui se estabeleceram, os tupis, por esforço próprio, foram os únicos que culturalmente se mantiveram com extremo vigor. Dessa forma, na visão romântica, os tipis seriam os legítimos representantes da tradição secular dos índios brasileiros. Ainda hoje, nacionalistas extremados, os novos “Policarpos Quaresmas”, vêem ainda na cultura tupi, a lídima representante da cultura brasileira.

CANTO I:

Apresenta e descreve a tribo dos timbiras.

“(...) Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão”.

Os índios aqui são retratados como seres fortes, soberanos da imensa terra brasileira; são os verdadeiros senhores desta terra, que reinam majestosa e livremente sobre o solo que lhes pertenciam legitimamente.

São rudes, severos, sedentos de glória.
(...)
São todos Timbiras, guerreiros valentes!

A tribo da qual pertenciam os timbiras praticava o canibalismo de maneira ritual. Eles não sacrificavam o inimigo por gula. Os rituais de sacrifício não significavam para eles sacrílegos banquetes, mas cerimônias de culto. Trincava a carne do inimigo como se fizesse um desagravo, e uma honra à tribo desagravada. É o que se poderia denominar de “antropofagia heróica”, algo bastante distinto da antropofagia religiosa ou doméstica, que era comum entre os índios tapuias.

“No centro da taba se estende um terreiro,
onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis:
Os velhos sentados praticam d’outrora.
E os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se em torno dum índio infeliz”.

A tribo senhora é exatamente a tribo dos timbiras que se preparava para praticar o ritual canibalístico. O índio infeliz é I - Juca Pirama, que fora feito prisioneiro por essa tribo. Nesse ínterim, os velhos índios recordavam os grandes feitos do passado.

“Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto,
Sua tribo não diz: - de um povo remoto
Descende por certo - dum povo gentil;
(...)

O narrador utiliza o adjetivo nobre para definir o prisioneiro. Apresenta-o como um guerreiro especial, que descende de igual modo de uma tribo especial. É relevante notar que, ao narrar a cerimônia de preparação do sacrifício, o poeta incorpora inúmeros elementos da cultura indígena, tais como: derrubar o teto da prisão do índio; convidar as tribos vizinhas para a cerimônia; adornar a maça (arma) com penas; raspar a cabeça do prisioneiro etc.

“Por casos de guerra caiu prisioneiro”

A causa da prisão do guerreiro tupi foi exatamente a guerra. O tupi vivia para a guerra. Tinha, da sua força e da sua coragem, profundo orgulho, associado a uma verdadeira paixão de glória. Vencer um inimigo era a maior ufania de um guerreiro tupi.

“Afeitas ao rito da bárbara usança”

Nesse trecho o poeta revela que as mulheres da tribo estavam acostumadas ao ritual de sacrifício do inimigo.


CANTO II:

Aqui o narrador revela a festa canibalística dos timbiras e a aflição do guerreiro tupi, que logo seria sacrificado.

“Em fundos vasos d’alvacenta argila
ferve o cauim;
Enchem-se as copas, o prazer começa,
reina o festim.

O ritual está sendo preparado conforme os costumes das tribos. Segue-se “religiosamente” os costumes dos antepassados. Observa-se aqui uma mudança na métrica dos versos, realçando o evento que pretende consumar. A antropofagia praticada pelos índios existia como conseqüência dos excessos de bravura e de vingança vividos por eles. As cerimônias confundiam-se com as celebrações da guerra.

“O prisioneiro, cuja morte anseiam,
sentado está...

I - Juca Pirama aguarda o momento pelo qual será sacrificado. Não fosse o fato de seu velho pai ser cego e doente, haveria por parte do guerreiro aceitação do ritual com toda a normalidade que era própria das tribos.

“Que temes, ó guerreiro?

Não era comum entre os índios o fato de um guerreiro temer a morte. Tal atitude era considerada um ato de covardia.


CANTO III:

Apresentação do último remanescente tupi: I - Juca Pirama

“Dize-nos quem és, teus feitos canta,
ou se mais te apraz, defende-te”

Antes de ser executado cerimonialmente, o guerreiro é convidado a entoar o seu canto de morte, o que é feito no IV canto.


CANTO IV:

I - Juca Pirama, aprisionado pelos timbiras, declara o seu canto de morte e pede ao cacique dessa tribo que o deixe ir para cuidar do seu pai que padece enfermidades (Só o narrador fora preso, o pai ficará distante).

“Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci

Apresentação do narrador épico. Como se trata de uma experiência essencialmente pessoal e familiar, emocionada e dolorida, pode-se esperar também por um clima trágico e lírico.

“Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte...

Existiram tribos que em lutas contra os brancos e os próprios índios se extinguiram. Aqui, o narrador é um remanescente tupi, tribo que, como muitas outras foram exterminadas, principalmente pelos brancos, e mais especificamente, pelos portugueses e espanhóis.

“Aos golpes do inimigo
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
acerbo desgosto
Comigo sofri”.

É interessante notar aqui certo “preâmbulo narrativo” qualificando o narrador, que se refere diretamente a decadência final dos tupis.

“Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos...

Somente a partir desta estrofe é que se tem início realmente a história. Mesquinhos nesse contexto tem o sentido de “fracos”, “abandonados”.

“O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só qu’ria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.

Faz-se mister realçar o pequeno número de sílabas. Narrativa elaborada com esse tipo de metro é algo bastante comum na épica popular da Península Ibérica: a isso se chamava romance, que, nesse caso, era um tipo de poesia narrativa de inspiração heróica e popularesca.

“Deixai-me viver!”

Atitude desse tipo não condizia com um verdadeiro guerreiro, por esse motivo, os que o aprisionara viram nesta súplica um sentimento de temor e covardia.

(...)
“Guerreiros, não coro
Do pranto que choro;
Se a vida deploro,
Também sei morrer”.

Para os inimigos que o preparava ao sacrifício ritual, o herói - ao chorar - mostrava covardia (não parecia um guerreiro tupi, senão um tupiniquim). Dessa forma, o guerreiro a ser sacrificado não era digno das galas da morte como “I - JUCA PIRAMA”.


CANTO V:

Ao escutarem o canto de morte do guerreiro tupi, os timbiras entendem ser aquilo um ato de covardia e dessa forma o desqualifica (como já fora citado) para tão nobre morte.

“És livre; parte!”

Os timbiras o libertam, e imediatamente o guerreiro tupi corre para o seio do pai.


CANTO VI:

O filho encontra-se com o pai que, ao pressentir o cheiro de tinta que os timbiras costumavam utilizar para rituais de sacrifício, desconfia da conduta do filho, e decide, ambos, partir para cessa tribo na tentativa de provar aos tais que a tribo tupi é verdadeiramente honrada.


CANTO VII:

Sob alegação de que os tupis são fracos, o chefe dos timbiras não quer aceitar a consumação do ritual no qual se provaria a honra dos tupis.


CANTO VIII:

O pai maldiz o suposto filho covarde.

“Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros
Implorando cruéis forasteiros
Seres presa de vis Aimorés”.

Nos quatro primeiros versos, a estranheza do pai. Como poderia seu filho chorar, se era um bravo guerreiro? Nos quatro versos seguintes começa a admoestação ao filho “maldito”.

“Um amigo não tenhas piedoso
Que a teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d’argila cuidoso
Arco e flecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra.
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és”.

A maldição paterna reúne o conjunto de tudo aquilo que significava horror para os selvagens, especialmente a transformação da natureza em punição e solidão.


CANTO IX:

Enraivecido o guerreiro tupi lança o seu grito de guerra e derrota valentemente a todos em nome de sua honra.

“ - Basta! clama o chefe dos Timbiras,
Basta, guerreiro ilustre! assaz lutaste...


CANTO X:

O velho (o narrador) rende-se frente ao poder tupi e diz a célebre frase: “Meninos, eu vi!”.

A DIGNIDADE DA TRIBO TUPI FORA PRESERVADA!

Segundos Cantos, de Gonçalves Dias

 Goncalves Dias - Segundos Cantos - Iba Mendes
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O amor

No poema “O Amor” de os Segundos Cantos fica ainda mais evidente a  noção romântica de amor como sublimação. O sentimento amoroso para os românticos representa a busca pela elevação espiritual: “Amor! enlevo d’alma, arroubo,   encanto/   Desta   existência   mísera,   onde   existes?   / Fino   sentir   ou  mágico transporte, / (O que quer que seja nos leva a extremos, /Aos quais não  basta a natureza humana;) / Simpática atração d’almas sinceras / Que unidas  pelo   amor,   no   amor   se   apuram, /     Por   quem   suspiro,   serás   nome  apenas?” (S.C., p.228)


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Fonte:
Gisele Gemmi Chiari: “A Presença do Medievalismo em Gonçalves Dias: Um  Estudo das Sextilhas de Frei Antão. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2008

02/01/2014

Primeiros Cantos, de Gonçalves Dia

 Goncalves Dias - Primeiros Cantos - Iba Mendes
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A "Canção do Exílio" e o contexto lítero-cultural

Sabemos que,por menor que seja a participação efetiva de qualquer homem em seu tempo, esse mesmo tempo em que vive é que caracteriza suas vivências e pensamentos. Sobretudo os poetas, seres humanos dotados de uma sensibilidade além, são os primeiros a, como um prisma, conter e, em seguida, refletir as cores do seu tempo.

Gonçalves Dias nasceu um ano após a Independência do Brasil - em 1823 -  e viveu sua fase adulta duas décadas depois, em meio ao grande entusiasmo produzido por este marco histórico brasileiro. É, portanto, natural que o sentimento nacional, de amor a Terra, esteja presente - e à priori - em sua obra; e é nesse espírito que devemos ler Gonçalves Dias. O grande poeta soube, com mestria, associar, em perfeito equilíbrio, a força ufanista ao poder verbal que caracterizou sua expressão. Foi a "Canção do Exílio" o seu primeiro momento de inspiração, o passaporte da sua imortalidade; segundo Manuel Bandeira , "Ainda que não tivesse escrito mais nada, ficaria, por ela, o seu nome para sempre gravado na memória de sua gente".

Isto porque o nacionalismo de Gonçalves Dias não apenas traduziu o furor ativista do pós-Independência, ou o sentimento saudosista de um jovem exilado em Coimbra. O poeta falou  de emoções universais profundas, transcendendo espaço e tempo: seu lirismo interno abriu caminhos na sensibilidade do século XIX, perpetuando-se até nossos dias. É certo que novas formas de expressão foram trabalhadas, novos movimentos literários, após o Romantismo, ampliaram o "dizer" e o "fazer" poéticos vinculados ao tema do exílio, mas a "Canção do Exílio", escrita em 1843, estabeleceu-se como a grande inspiradora, o poema "clássico", Princípio da nacionalização literária brasileira.

"Estava eu na sala de redação do Diário do Rio quando aí entrou um homem pequeno, magro, ligeiro ... Não foi preciso que me dissessem o nome, adivinhei quem era – Gonçalves Dias!

Fiquei a olhar, pensando, com todas as minhas sensações da adolescência. Ouvia cantar em mim a famosa "Canção do Exílio" ... "
Machado de Assis

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Fonte:
Sylvia Helena  Cyntrão: “Dissertação:  "A ideologia nas Canções  d e  Exílio: Ufanismo e  Crítica" (Dissertação apresentada ao Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília como requisito para obtenção do título de mestre em literatura brasileira. Orientadora: Maria de Jesus Evangelista). Brasília, 1988

01/01/2014

Novos Cantos, de Gonçalves Dias

 Goncalves Dias - Novos Cantos - Iba Mendes
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Novos Cantos, de Gonçalves Dias

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Outros poemas de Dias expressam o gosto pelo exotismo oriental. Em  “Zulmira” de os Novos Cantos, o eu-lírico descreve uma comitiva de orientais  que   passa   pelas   veigas   de   Granada.   Os   homens   trajam   seda,   os   eunucos  usam alvíssimos turbantes, e Zulmira aparece numa tenda de seda e ouro que,  por sua vez, está sobre o dorso de um elefante. Apesar de o poema intitular-se  “Zulmira”, não é a personagem que sobressai, mas a descrição pitoresca da  comitiva. Zulmira assim como Gulnaré de as  Sextilhas de frei Antão  aparece  em um cortejo e como que enfeitiça os homens com sua beleza. Outro aspecto  convergente entre as duas composições é a coisificação das mulheres.

E pergunto quem és? – Então me dizem
Ciosos de guardar o seu tesouro,
Nome tão doce aos lábios, que parece
Escrever-se em cetim com letras d’ouro. (“Zulmira”. N.C. p, 281) 

Quantas coisas que trazia,
Nula ren lhe estava mal;
Diziam que tudo nela
Tinha graça natural,
Era coisa preciosa,
Como coisa oriental. ((“Loa da Princesa Santa”. S.F.A. p. 316)


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Fonte:
Gisele Gemmi Chiari: "Presença do Medievalismo em Gonçalves Dias: Um  Estudo das Sextilhas de Frei Antão". (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação   em   Literatura   Brasileira,   do  Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas  da   Faculdade   de   Filosofia,   Letras   e   Ciências  Humanas da Universidade de São Paulo como  requisito   parcial   para   obtenção   do   título   de  Mestre em Literatura Brasileira. Orientadora: Profa. Dra. Cilaine Alves Cunha). São Paulo, 2008