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05/04/2014

O Livro de Cesário Verde, Cesário Verde

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Relação arte-realidade

O desejo de se livrar da opressão da cidade em processo de metropolização, em que se encontra Lisboa, fragmentada, no presente do sujeito lírico de OSO e no restante da obra como um todo, leva-o a buscar saída de diversos modos: pelo espaço geográfico representado por outros países “Madrid, Paris, São Petersburgo, o mundo!” (I-3) ou pelo campo; pelo espaço mental e físico “a cismar” e “erro pelo cais” (I-5); no tempo histórico, representado pelas “crônicas navais” (I-6); na literatura, pela alusão a “Os Lusíadas” (I-6); no sonho, que se torna pesadelo “Cólera e Febre” (II-7); no mito, que se refere à “raça ruiva do porvir” (IV-6). Entretanto, é através do processo de criação artística que o sujeito lírico reitera várias vezes o desejo de libertação, saída da opressão citadina: “E eu, de luneta de uma lente só, / Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:” (II-11). Essa tensão, que no poema analisado se configura entre opressão e desejo de libertação do sujeito poético, é um dos traços da poesia moderna, que segundo Hugo Friedrich:

Essa tensão dissonante da poesia moderna exprime-se ainda em outro aspecto. Assim, traços de origem arcaica, mística e oculta, contrastam com uma aguda intelectualidade, a simplicidade da exposição com a complexidade daquilo que é expresso, o arredondamento lingüístico com a inextricabilidade do conteúdo, a precisão com a absurdidade, a tenuidade do motivo com o mais impetuoso movimento estilístico. São, em parte, tensões formais e querem, freqüentemente, ser entendidas somente como tais. Entretanto, elas aparecem também nos conteúdos.

Tal é o caso, para fins exclusivos de análise, sabendo-se indissociável no universo artístico a forma-conteúdo, da alucinação (conteúdo) que o sujeito lírico expressa em OSO, através dos quartetos mistos, um verso decassílabo e três alexandrinos, (forma) que mantêm a isometria ao longo de todo poema. Na Parte I do poema, a busca de saída pela literatura parece frustrar-se ante a impossibilidade de imaginar, contida no verso: “Singram soberbas naus que eu não verei jamais!” (I6). Na Parte II, o sujeito lírico parece insinuar a expressão pictórica ao observar “de luneta de uma lente só”, ou seja, examinar microscopicamente, ao gosto do cientificismo da época que, segundo A. Moles inaugurou a crença na ciência, em oposição à fé, “ciência do certo”, a própria realidade: “Eu acho sempre assunto a quadros revoltados”. Na Parte III, ele enuncia o desejo de escrever: “E eu, que medito um livro que exacerbe, / Quisera que o real e a análise mo dessem;” (III-5). Na Parte IV, a busca de uma saída do ambiente urbano que o oprime dá-se no plano existencial: “Enleva-me a quimera azul de transmigrar”, verso que conota devaneio pelo verbo “enleva”, e criação literária, pela “quimera azul”, referência à tinta de escrever, ou seja, "de compor versos no papel." (IV-1). Em seguida, a associação das “linhas de uma pauta” à “dupla correnteza das fachadas”, também remete ao ato de escrever as notas musicais na pauta, e aos “círios de capela”, pela ordenação paralela que sugerem. E, finalmente, ante a realidade concreta e penosa da cidade, representada como “massa irregular de prédios sepulcrais, com dimensão de montes”, que aprisiona, a abstração dos “amplos horizontes” remete à idéia de liberdade, embora haja a consciência do sujeito poético que “a dor humana busca / E tem marés de fel, como um sinistro mar.”  

Lembrando que “Na criação lírica, ao contrário [da épica], metro, rima e ritmo surgem em uníssono com as frases. Não se distinguem entre si, e assim não existe forma aqui e conteúdo lá.”, cabe aqui, a partir de uma visão panorâmica da métrica cesariana, que prima pelo rigor parnasiano, que tende à procura da confecção perfeita dos versos, pela regularidade métrica, estrófica e rítmica, ressaltar dois poemas, cuja análise estilística denota um processo de maturação da lírica cesariana. A avaliação estilística das opções métricas de Cesário denota a diversidade combinatória dos dois metros, alexandrino e decassílabo, sendo os poemas Humilhações e De Verão importantes exemplos do momento de maturação da modernidade poética de Cesário, em que o casamento forma-conteúdo dá o tom de cada poema. Naquele, os três primeiros versos dos quartetos são alexandrinos, e o último, decassílabo; neste a relação se inverte, sendo o primeiro verso dos quintetos alexandrino e os quatro seguintes decassílabos, contribuindo, assim, a irregularidade métrica para o efeito de sentido singular de cada poema, um dos traços marcantes da modernidade. Tal indício já pode ser observado no poema Cristalizações (1879), composto por vinte estrofes de cinco versos cada, com a rima ABAAB, sendo o primeiro verso alexandrino e os outros quatro decassílabos. Esta introdução às quintilhas, feita por um verso de doze sílabas, atribui ao poema um ritmo especial, que ora se concilia com a condição climática e a situação do tempo, ora se quebra em frases exclamativas que introduzem aspectos particulares dos trabalhadores: “A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!”; “Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!” E nesse “dia frio, de imensa claridade crua” vão aparecendo os “calceteiros terrosos e grosseiros”, “as peixeiras descalças” “a dar com os rins”, “os rapagões” ”que partem penedos”, os “valadores” que atiram terra com largas pás”. E estes homens, “filhos das lezírias, dos montados”, “filhos da planície” ou “das montanhas”, do campo, portanto, com saúde de ferro e atitudes de macho, opõem-se à fragilidade da “actrizita”, uma figura feminina delicada, citadina, com rostinho estreito, friorento, que passa por ali vacilante para seu ensaio, atravessando “covas, entulhos e lamaçais”, num casaco à russa e botinas de tacões agudos, semelhantes “a pés de cabra”. Tanto em um caso como em outro, os verbos de ação conotam o movimento necessário para vencer o frio. O mesmo se dá com as peixeiras que marcham agitando os quadris e gritam. No tempo presente os verbos descrevem a ação e o som perpassa nítido através do ritmo das estrofes, às vezes pela contraposição ausência-presença dele, como por exemplo: “Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!/ Tomam por outra parte os viandantes;/ E o ferro e a pedra – que união sonora! /Retinem alto pelo espaço fora, / Com choques rijos, ásperos, cantantes.” (E.4)

Sobre o ritmo, valemo-nos de Otávio Paz, quando diz: “O poeta encanta a linguagem por meio do ritmo. Uma imagem suscita outra. [...] O poema é um conjunto de frases, uma ordem verbal, fundados no ritmo.“. Se a fragmentação em estrofes e versos é elemento constituinte do poema, o ritmo, ao provocar uma expectativa, produz um anelo. As imagens verbais expressam o movimento alternado entre opressão e desejo de liberdade no cotidiano, representando o contínuo na existência. Neste caso, o movimento de retração e expansão do sujeito lírico equivale à semelhança de sístole e diástole à pulsão da vida. No poema OSO, o ritmo se altera na fusão dos sextetos nos alexandrinos e à cesura variada dos decassílabos de que é constituído. Ao heroísmo comum da oitava rima de herança clássica substituem os quartetos populares, em que o cotidiano e a oralidade, num jogo temático, transformam o herói épico daquela no homem ordinário, sobrevivente ao dia a dia destes.

Não há repetições em vão. As variações do andamento expressam intensidades do sentir diferentes da regularidade dos passos, o que, de certo modo, possibilita ao leitor a noção do espaço físico e do espaço da emoção, do sentimento. Citando Óssip:

O ritmo como termo científico significa uma apresentação particular dos processos motores. É uma apresentação convencional que nada tem a ver com a alternância natural nos movimentos astronômicos, biológicos, mecânicos, etc. O ritmo é um movimento apresentado de uma maneira particular.

O ritmo marcado pela luz e sombra do dia e da noite marca o ciclo solar natural em OSO. O ritmo dos passos na cidade ou no campo marca o continuar na existência. Nesse sentido, verbos no presente do indicativo reforçam a idéia de movimento do sujeito no espaço. Por exemplo: “saio”, “erro”, “embrenho-me”, “sigo”, denotam um deslocamento físico, uma ação. Por outro lado, os verbos “ocorrem-me”, “chora-me”, “lembram-me”, “enleva-me”, “julgo”, remetem a uma atitude interior do sujeito. Do mesmo modo, o ritmo da natureza está presente em outros poemas, como é o caso de      Provincianas, como observamos nas expressões: “Como amanhecer”, “Nessa manhã”, “Bom sol!”, “ao meio-dia”, denotando período do diurno, ou “inverno”’e “outono”, designando as estações do ano, com suas paisagens “vagas dum verde garço” e atividades características: os grãos e as sementes “acordam”, “cresce o relevo dos montes”, “fartam-se as vacas”, “produz as novas manteigas”, referindo-se ao trabalho humano. Se o anoitecer na cidade desperta o sentimento de melancolia no sujeito, o amanhecer no campo deflagra sua alegria. A claridade do sol, mesmo nos poemas de temática citadina, dá tom de vigor aos versos. Por exemplo,     Num Bairro Moderno, em que o sol é “o intenso colorista” (E.7) , capaz de transformar vegetais em ser humano, na visão de artista do sujeito lírico. E, no mesmo poema: “E o sol estende, pelas frontarias, / Seus raios de laranja destilada.” (E.18), as imagens de alto teor impressionista contribuem para os efeitos da luz nos elementos espaciais da cidade.

Diversamente do meio natural, de farta insolação, o meio técnico sofria de precariedade. Segundo Joel Serrão, em 1848, são acesos em Lisboa os primeiros candeeiros a gás. Em 1871, no Concelho de Lisboa, havia já 3080 candeeiros. “Mas a noite, a antiga e persistente noite, só será vencida de vez pela luz elétrica, o que levará seu tempo. A princípio (1878), só na via pública, [...]. Levará tempo a sobrepor-se à iluminação a gás, cujos restos ainda hoje existem nos bairros velhos de Lisboa.122 Em 1878, Cesário nos dá o “Quadro dum que à candeia / Ensina o filho a ler...?”, documento histórico de excepcional valor de que a candeia de azeite continuava a iluminar a noite. A luz do gás torna-se obsessão em sua poesia. Por exemplo, nos versos a seguir: “E em breve ao quente sol e ao gás alvejará!” (Ironias do desgosto, 1875. E.7); “Nas ruas a que o gás dá noites de balada” (Merina, 1878. E.1); “Entre um saudoso gás amarelado” (Noitada, 1879. E.1); “O gás extravasado enjoa e perturba,” (OSO, 1880. E.2).

O próprio som da palavra gás sugere algo que escapa; e a sequência de sons a e l nas palavras baladaamarelado, bem como as vogais que intercalam as sibilantes em extravasado, sugerem lentidão e monotonia. Um ritmo lento. Valendo-nos aqui, por transposição, das expressões com que Milton Santos se refere à má distribuição do uso da técnica no mundo atual, podemos dizer que a precariedade da iluminação técnica da Lisboa de Cesário também fazia dessa capital um espaço opaco em relação ao espaço luminoso de outras capitais europeias da época, o que se reflete na angústia do sujeito, no texto.


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Fonte:
Sônia Maria de Araújo Cintra: “Relações espaciotemporais na obra poética de Cesário Verde: fragmentação e busca de totalidade”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em Letras. Orientadora: Profa. Dra. Raquel de Sousa Ribeiro). São Paulo, 2009. Disponível em: www.teses.usp.br/

08/03/2014

Poemas de Cesário Verde

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Do risível amor de si ao desastre do Outro

O constante uso da ironia, não  raras vezes do escárnio puro e outras tantas da  auto-flagelação,  se  constituem,  de  acordo  com  a  intenção  desta  análise,  não  só  as  primeiras  ‘pinceladas’ autorais de Cesário, mas um recurso estilístico de extrema importância para seus  poemas. É através deste recurso que, em seus trabalhos inicias, o Eu se permite esconder atrás  do  contraste  entre  a  enunciação  do  tema,  o  seu  desenvolvimento    e  a  conclusão  que  desconstrói o que foi até então dito. Esconde-se atrás do riso, mas esconde-se também de si,  já  que  este  Outro  não  pode  ser  nada  além  de  sua  extensão.  A  escolha  pela  perspectiva  intimista, como já tratado anteriormente, permite este tipo de leitura: mesmo quando se centra  no Eu enquanto persona, no Outro como um personagem e nas relações entre eles como um  terceiro objeto, se está a meio caminho de uma visão totalizante, ou melhor, uma visão que  abrange  estes  elementos  sempre  voltados  para  a  caracterização  da  escrita  do  autor,  e  como  isso determina a estilização do Eu.

O  Eu  que  se  percebe  nos  primeiros  poemas  publicados  é  um  Eu  impossibilitado  de  poder  compartilhar  do  amor  do  Outro.  São  dois  motivos  pelos  quais  este  ‘amor’  não  se  consuma:  o  primeiro  é  sê-lo  demasiadamente  carnal,  e  o  segundo,  pelo  Eu,  hesitante,  se  constituir ainda num Eu não definido. O amor  carnal o  atrai, o sufoca, o enforcará. Aquele  que  imagina  ser  o  seu  ideal,  um  amor  de  adoração,  distante,  sublime,  não  será  encontrado.  Assim, o Eu encontra desde já seu primeiro ponto de fragmentação: O amor que o Eu procura  é o Amor Ideal,  mas o que encontra é o amor real, carnal. Seu amor ideal encarna-se na doce  mulher,  na  Vênus  linfática.  Por  esta  perspectiva,  a  ironia  não  é  somente  esperada,  como  a  única saída razoável para o Eu fugir intacto deste contato “danoso”. A ironia, neste sentido,  também mereceu importante estudo de Janet Carter: “O tom de ironia mordaz(...) sugere certa  inquietação psicológica ou conflito emocional quanto à situação amorosa. A tensão que assim  se  evidencia  entre  o  querer  e  o  não  querer  tem  o  seu  paralelo  temático  no  conflito  que  se  manifesta  na  reacção  do  ‘eu’  perante  a  figura  feminina  em  geral.”  O  Outro,  enquanto  mulher,  deveria  se  constituir  apenas  num  espelho  para  o  Eu  engrandecer-se  e  olhar-se  com  garbo e altivez. A ironia é o escudo contra tal erotismo, mas é também a possibilidade do Eu  se  relacionar  com  o  Outro  apenas  em  parte.  É  que,  tal  como  usada  nos  poemas,  a  ironia  é  como um mea culpa do pecador flagrado no ato: confissão de uma culpa que se divide pela  sedução do Outro. Fosse esse Outro puro, o deleite poderia acontecer no campo do Ideal. 

Nem toda ironia, porém,  em Cesário, trata deste tipo de relação ou tem somente este  tipo  de  solução.  A  ironia,  como  a  define  Hegel,  envolve  um  conhecimento  da  situação,  permeada por um desprezo não somente ao objeto ironizado, mas também a si mesmo. O  Outro  também  se  transmorfa,  assim  como  o  Eu  avança  nos  domínios  do  seu  autoconhecimento.  No  início,  ele  ainda  é  hesitante,  juvenil,  deleitoso  dos  prazeres  carnais, recém descobridor de si enquanto ser. Se o Eu se imagina digno de adoração  (“Já que adorar-me  dizes  que  não  podes”),  puro  (“Ò  áridas  Messalinas,  Não  entreis  no  santuário.

Transformareis  em  ruínas,  o  meu  imenso  sacrário”),  iluminado  (“Lâmpada  no  mundo  cavernoso”) e se o Outro somente existe para ressaltar tais qualidades em contraposição pelos  seus defeitos, tal relação tomará outros rumos quando o Eu abandonar o Amor de si e passar a  dirigir seu olhar para o Outro. Até então, o foco sempre tem sido no Eu; um Eu doente de si e  cheio  de  si,  onde  em  seu  mundo  cavernoso  o  que  não  é  Eu,  é  errado,  é  o  Outro.  A  grande  ironia se constitui então não no escárnio aberto e claro dos versos, mas a constatação de que  se ri não  do Outro ou das relações, mas de si mesmo.

O  Outro,  além  de  funcionar  como  contraposição  ao  Eu,  ressaltando-o,  também  é  a  ponte    entre  este  Eu  -  mergulhado  no  amor  de  si,  focado  e  entronizado  somente    em  suas  próprias  reações  e  sensações  -  e  uma  realidade  empírica,  histórica  e  social,  principalmente,  porém,  cultural.  A  “Imperatriz  serena,  alva  e  discreta”  não  é  uma  traidora  simplória  qualquer,  mas  aquela  que  tem  um  peito  de  Herodes,  assim  como  a  “Vênus  linfática”  não  engana  pelo  simples  instinto  ou  pela  malícia,  ludibria  com  a  ajuda  do  Secretário  das  Amantes. Mais do que definir o Outro, a mulher sensual acaba por provocar o efeito oposto:  O Eu constituído nestes poemas inicialmente tratados será enforcado, enganado ou profanado.

Mas o que há-de apertar o meu pescoço
Em lugar de corda de bom linho
Será do teu cabelo um menos grosso

[..]

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Fonte:
André Yuiti Ozawa: “Cesário Verde e o desconcerto do eu.” (Dissertação apresentada na Faculdade de  Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo  para obtenção do título de Mestre em Literatura Portuguesa. Área de concentração: Literatura Portuguesa Orientador: Profº Dr. Álvaro Cardoso Gomes). São Paulo, 2008.