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13/09/2014

Memórias (Volume I), de Raul Brandão

 Memórias, de Raul Brandão gratis em pdf
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Por que ler as Memórias de Raul Brandão?
  
A leitura das Memórias, de Raul Brandão, leva a pensar que há algo de ontológico que impele o escritor português à prática da escrita. Com efeito, o texto literário pode ser interpretado como “derradeiro abrigo contra o esquecimento e o silêncio, contra a indiferença da morte” (GAGNEBIN, 2009, p. 112). O fato de aparentemente lutar contra a morte, repeli-la, pode parecer contraditório quando se observa que a escrita brandoniana tem por um de seus mais destacados pilares a tensão morte/vida, ao abrigo de narradores que, incessantemente, chamam-na para perto de si:

Aqui cumpriu a condenação perpétua de escrever, de escrever sempre [...]. Estou a vê-lo a entrar por aquela porta a dentro – tenho medo desta grande figura dolorida. Mete-me medo desde depois de morto. Vejo diante dos meus olhos o fantasma quase cego, com a boca amarga, só ossos e pele, só osso e desespero. (BRANDÃO, 1998, p. 164).

No fluir da escritura, o autor de Guimarães luta contra a morte porque a compreende na forma da derrota final, porque “o esquecimento é a morte definitiva” (VIÇOSO, 1994, p. 177) dos homens. Raul Brandão encarna o narrador-sucateiro, aquele que recolhe os destroços do passado no intuito de não permitir que nada se perca.

Esse narrador-sucateiro, que também poderia ser o historiador, “não tem por alvo recolher os grandes feitos. Deve muito mais apanhar tudo aquilo que é deixado de lado como algo que não tem significação, [...] algo com que a história oficial não sabe o que fazer” (GAGNEBIN, 2009, p. 54). É somente na encruzilhada da escrita, seja ela de cariz literário, histórico, memorialístico e ainda (auto)biográfico, que o desejo benjaminiano de apokatastasis, isto  de “recoleção de todas as almas no Paraíso” (Ibidem) pode se tornar viável. Pensar esse resgate das almas dos que soçobraram no decurso da história é, em última análise, mirar a redenção dos vencidos, a que o filósofo alemão faz alusão nas suas teses “Sobre o conceito da história”.

Posto isto, torna-se possível vislumbrar a escritura memorialística de Raul Brandão na forma de contributo original para o resgate dos portugueses que fizeram e fizeram-se nas primeiras décadas do século XX.  Original não apenas porque põe em foco o levante dos vencidos, mas ainda porque se constitui de forma singular ou, como pontua Álvaro Manuel Machado, uma “poética de memória que [...] revoluciona as memórias como gênero instituído.” (1996, p. 135). O escritor da Foz do Douro, como bem sublinha Clara Rocha, produz seu relato como “diálogo de instâncias v rias” (1992, p. 49), no qual revela “suas ambigüidades, sua contradições, a natureza híbrida de sua composição” (MOLLOY, 2003, p. 15).

As inquietações sentidas pelos críticos literários quando se debruçam sobre o texto brandoniano apontam para o mesmo sentido daquelas que são acalentadas pelos teóricos dos escritos intimistas, porque residem nesse tipo de texto agudas polêmicas, entre as quais a problemática do estatuto literário. Por isso, faz-se preciso abrir caminhos teóricos que dêem conta da diversidade dos escritos intimistas, assim como dos pontos que os definem como textos literários, que é, por conseguinte, a qualidade que mais interessa a esta investigação.


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Fonte:
Otávio Rios Portela: “De trapeiros e vencidos: efabulação e história em Raul Brandão”. (Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas   da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito para a obtenção do Título de Doutor em Letras Vernáculas (Literaturas Portuguesa e Africanas. Orientador: Profa. Doutora Luci Ruas Pereira). Rio de Janeiro, 2012.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. 
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível digitalmente no site: www.letras.ufrj.br

05/04/2014

Húmus, de Raul Brandão

 Húmus, de Raul Brandão
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Os sentidos do Húmus: leitura crítica do romance

Húmus é um livro repleto de signos que nos remetem à dor: o embate entre a vida e a morte, problemática que sempre inquietou o homem, supura em gritos que ecoam por toda a narrativa e que abrem uma via de comunicação entre dois estados possíveis: a vida-simulacro, feita de manias e de mentiras, esboço de uma vivência humana, e a vida-verdadeira, em que, de fato, a existência ganharia sentido. Embora as dicotomias estejam sempre presentes, em Húmus não há dois pólos: vida e morte formam uma só moeda. O narrador, sobre quem nos deteremos mais adiante, protesta contra a mesmice da existência, contra a mentira, contra a Igreja, contra a burguesia e contra o capitalismo; não aceita as artimanhas impostas pela civilização moderna, da qual decorre uma vida falsa, desprovida de uma experiência autêntica, para pensarmos a partir dos conceitos de Walter Benjamin. Entretanto, se se expõe que a vida é uma farsa (essa idéia Raul Brandão já havia exposto em seu livro de 1903 e a retoma durante quase toda a sua produção literária), também se afirma que é preciso mentir para suportar a inutilidade da vida e reprimir o sonho (que se manifesta a partir das experiências alquímicas do Gabiru) que existe no mais recôndito de cada ser humano, desejoso de que não lhe caia a máscara.

Na meticulosa construção do texto, Raul Brandão harmoniza uma plêiade de estéticas e tendências que surgiam na virada do século, algumas das quais estão entre as conhecidas vanguardas européias, com destaque para o valor expressionista (ao lado do impressionismo, como já mencionamos na abertura do primeiro capítulo), que se infiltra não apenas na forma, mas também no conteúdo literário: as personagens sofrem agonicamente, perfilam toda a narrativa como a purgar os defeitos e a tentar recomeçar a viver, sempre aos gritos, plasticamente aproximando-se da tela de Edvard Munch. O desespero lancinante que se confronta ao olhar O Grito, pintado em 1893, aproxima-se, em tema e em técnica, da miséria, da dor e do sofrimento que se multiplicam pelo texto brandoniano, ora emitidos pelo narrador, ora pelas velhas ou pelo Gabiru. A explosão da emoção e a retratação do sentimento por meio da deformação visual da imagem, em que a dramaticidade (e, em certa medida, a tragicidade) avulta, aproximam o texto brandoniano e a tela de Munch.

Técnica: essa parece ser a palavra-chave na construção do Húmus, livro que, verdadeiramente, exige reencontros, novas leituras, para que possamos absorver e compreender ao máximo possível o texto de Raul Brandão e o projeto estético a ele subjacente. Se, como vimos no primeiro capítulo, Teixeira de Pascoaes sentiu a necessidade de voltar à obra, a fim de estudá-la como peça de arte (conscientemente construída), algumas passagens do romance parecem confirmar essa idéia, dando-nos a impressão de que seu discurso difuso, freqüentemente ambíguo, é mais uma das artimanhas do autor, que muitas vezes se detém em esmiuçar o cotidiano de uma vila imaginária, que dá certa ambientação ao livro, ou em enveredar por reflexões existenciais e até mesmo metalingüísticas.

A metalinguagem, aliás, é um dos mais fortes argumentos disponíveis no próprio corpo do texto para que se defenda a modernidade da narrativa, numa perspectiva da consciência da ruptura, aparentemente explicitada por meio do narrador, que diz: “E é com secreta satisfação que vejo esfarelar-se este edifício tão bem construído sobre bases, que pareciam inabaláveis” (H1, p. 61), pois a “construção antiga desabou, e a um mundo novo correspondem criaturas novas” (H1, p. 118). Assim, a “narrativa desconjunta-se: ganha em dor e em grotesco. Enche a boca, perde a naturalidade, adquire em imponência” (H1, p. 145), ou seja, “torna-se obscura, dolorosa, hesitante, como se fosse arrancada aos pedaços d’uma alma espezinhada” (H1, p. 147, grifo nosso).


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Fonte:
Otávio Rios Portela: “A experiência estética de Raul Brandão: Variantes textuais e Construção narrativa em Húmus”. (Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas (Literatura Portuguesa), Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito à obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas (Literatura Portuguesa). Orientadora: Professora Doutora Luci Ruas Pereira). Rio de Janeiro, 2007. Disponível em: http://www.letras.ufrj.br/

A Morte do Palhaço, de Raul Brandão

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A Morte do Palhaço, de Raul Brandão

Na contramão do cânone, História dum Palhaço rompe com a narração tradicionalmente estruturada para, a partir de então, mostrar-se como texto que é, ele próprio, edificado sobre escombros e destroços, para se revelar uma obra literária em que o palhaço emerge como arauto que anuncia uma história – numa visão finissecular – incessantemente em ruínas. Por fim, em “Quando os vencidos saem às ruas”, o foco da análise repousa sobre os três volumes das Memórias, texto em que “confessamente o Autor se desdobra” (COELHO, 1996, p. 296), iluminando a si e aos outros como personagens de uma história cujo objetivo constituiu-se em evidenciar o papel dos homens e das mulheres de um Portugal, sobretudo nas cidades do Porto e de Lisboa, que se levantam, frenéticos e atônitos, contra o stato quo da monarquia, da corrupção, da dominação das classes abastadas. É o ser esfarrapado que se torna o agente de uma outra história e que assume a posição de legítimo protagonista, tanto nas Memórias quanto nas demais narrativas em análise nesta investigação. É, portanto, pelos meandros da literatura que o escritor faz falar os que foram emudecidos no processo de dominação.

[...]

Ao dizer que a escritura de Raul Brandão possui a capacidade de perscrutar, de investigar as almas, o missivista aponta para a perspectiva psicológica da narrativa brandoniana, em que constrói personagens plenos de conflitos, emparedados entre a dor (o real) e o sonho (o desejo). Não é justamente esta a tônica da História dum Palhaço de 1896? Não reside neste texto caracteristicamente finissecular uma espécie de testamento ou legado literário da geração de 1890, da qual o escritor da Foz do Douro fez parte e na

qual se formou? Há no arquivo de Brandão missiva datada de 10 de novembro de 1926, portanto alguns meses após a carta apresentada anteriormente. O documento foi redigido por Justino de Montalvão na esteira da edição refundida da História dum Palhaço e, da mesma forma, apoiada ainda nas edições que eclodiram nesse ano particularmente profícuo para o escritor.

Justamente ando a acabar de escrevinhar uma imensa papelada que te diz respeito. Imagina tu que comecei (como sabes) por fazer o prefácio para a Morte do Palhaço que te tinha anunciado. Mas de tal modo foi inchando, inchando que em vez dum prefácio dá um livro. Nesse livro, que tenho quase pronto – em vez de tratar só da tua obra , comecei a meter tudo o que me vinha à mente [,] tudo o que me vinha vindo à cabeça sobre a nossa mocidade. E de tal maneira a imaginação foi tecendo, tecendo... [...] Vou pois publicar um livro (um volume de cerca talvez de 150 páginas) junto ao que tinha primeiro escrito com a intenção do prefácio – toda a história pitoresca da nossa geração, com este título genérico “Os Insubmissos”. Será uma série da qual o primeiro é o volume em que falo de ti. O segundo será referente ao Nobre, etc.

A carta é bastante longa para ser transcrita na íntegra. O que se continua a observar nas páginas que seguem é como a narrativa de História dum Palhaço continua a ecoar nas produções seguintes de Raul Brandão e como o texto em destaque é peça-chave para a leitura da poética brandoniana. Guilherme de Castilho (2006) considera-a uma obra de transição, vista ainda desta forma pela crítica de reabilitação. Vitor Viçoso debruça-se sobre ela, na perspectiva de uma narrativa decadentista, em cujo interior desnuda-se “certa falta de coerência ou de lógica organizativa, parecendo, por vezes, mais uma desconexa acumulação de textos – uma coleção de ‘papéis’ escritos ao sabor de inspirações momentâneas” (1999, p. 157).

Vista sob esse prisma, a refundição de 1926 efetua outra estruturação interna (que, afinal, não é tão diferente assim nas duas edições da obra), mas não se encarrega de lhe conferir outra roupagem que não a de papéis colados, numa espécie de narrativa anárquica, que tem em seu bojo a proposta do trapo, do fragmento, do desequilíbrio, do desajuste, da própria ruína materializada textualmente. No entanto, para que se possa ler História dum Palhaço por esse viés é preciso revestir-se de um intuito que se afaste da preocupação estrutural e buscar cada vez mais outros olhares a partir da escritura brandoniana. Volto, portanto, à pergunta lançada anteriormente: qual o papel conferido ao arquivo de Raul Brandão no interior desta pesquisa? O texto que se construiu até este passo parece ser a própria resposta: ser suporte, ser ponte, fonte que fecunda e enriquece o estudo do texto.

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Fonte:

Otávio Rios Portela: “De trapeiros e vencidos: efabulação e história em Raul Brandão”. (Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito para a obtenção do Título de Doutor em Letras Vernáculas - Literaturas Portuguesa e Africanas. Orientador: Profa. Doutora Luci Ruas Pereira). Rio de Janeiro, 2012. Disponível em: http://www.letras.ufrj.br/