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13/01/2019

Verso e Reverso, de José de Alencar

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Mãe, de José de Alencar

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Noites de São João, de José de Alencar

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O Jesuíta, de José de Alencar

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A Expiação, de José de Alencar

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O Crédito, de José de Alencar

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O que é casamento?, de José de Alencar

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13/09/2014

Escritos Políticos, de José de Alencar

 José de Alencar, de Escritos Políticos em pdf
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O político José de Alencar

O único homem novo e quase estranho que nasceu em mim com a virilidade foi o político. Ou não tinha vocação para essa carreira, ou considerava o governo do estado coisa tão importante e grave que não me animei nunca a ingerir-me nesses negócios. Entretanto, eu saía de uma família para quem a política era uma religião, e onde se haviam elaborado grandes acontecimentos de nossa história. (José de Alencar. Como e Porque Sou Romancista. 1873.)

Conforme menciona em sua autobiografia literária, José de Alencar vem de uma família cuja relação com a política sempre fora estreita. Como exemplos significativos dessa afirmação podem-se mencionar sua avó, D. Bárbara de Alencar, um dos grandes nomes da Revolução de 1817, e seu pai, o Senador Alencar, um político influente que, dentre várias outras atuações, foi peça importante das atividades que levaram à Maioridade antecipada de Pedro II.  

No entanto, a atuação como político iniciou-se mais tardiamente do que como escritor, jornalista e advogado. Deu-se mais exatamente em 1860, quando Alencar se candidatou a Deputado-Geral pelo Partido Conservador e foi até a Província do Ceará fazer propaganda política. Nessas eleições foi eleito, estreando na Câmara em 23 de maio de 1861. Em 1863, o Imperador dissolveu a Câmara, convocando novas eleições, mas ele não conseguiu reeleger-se. Assim, Alencar ficou fora da política até 1868, quando foi convidado a ocupar o cargo de Ministro da Justiça no Gabinete Conservador Dezesseis de Julho, organizado por Itaboraí, no qual permaneceu até 1870, quando pediu demissão alegando incompatibilidade com outros membros do Gabinete. Outro motivo que o teria levado a pedir exoneração do cargo seria o intuito de ocupar o lugar de Senador, para o qual havia se candidatado em 1869. Consta que ele obteve o maior número de votos, mas seu nome não apareceu na Carta Imperial de 1870 na qual foram divulgados os nomes escolhidos pelo monarca. Como em 1869 também havia sido eleito deputado-geral, retornou à câmara. A legislação durou até maio de 1872, quando o Imperador convocou novas eleições, nas quais foi novamente eleito para a legislação de 1872- 1875. Em 1876, nova eleição, outra vitória do escritor e político.

Buscamos recuperar o “Alencar-político” e sua maneira de lidar com questões escravistas levando em conta a imagem que ele mesmo tenta passar de si em seus textos não-ficcionais.

Em relação à sua postura política, há dois adjetivos que Alencar utiliza com freqüência para referir-se a si mesmo em vários de seus textos e que parecem carregados de grande significado para ele: monarquista e conservador. Sua adesão à monarquia foi explicitada várias vezes, como no trecho abaixo, parte de uma carta dirigida ao periódico A República, autorizando a publicação em folhetins do romance Til:

(...)Não me demove a consideração de se ter sua folha consagrado à opinião adversa; embora esteja bem convencido de que há de ser o fato mui explorado pela intriga, que de antemão já me assinalou como um republicano disfarçado.
Não sou, malgrado eles, que tanto se incomodam com os monarquistas da idéia; por isso empenham-se em tratar-nos de hereges.
Pese-lhes embora; sou monarquista sincero e convicto. Mas como nunca professei o fetichismo da realeza, espero o triunfo para minhas idéias, da civilização do povo, nunca de sua ignorância.
Quero que meu país seja monarquista, não pela rotina, mas por verdadeira fé nessa instituição; e, para isso, é necessário que estude as doutrinas opostas e esclareça com a livre discussão.
Se o encanto da república, a magia que exerce nos espíritos entusiastas, está, permitam-me a franqueza, no fruto proibido: a cárie das monarquias, o que lhe rói o cerne, é a presumida infalibilidade.
Convencidos, nós os monarquistas, de que é possível atacar a cidade invencível, correremos a defender a brecha, por onde no momento do perigo hão de fugir espavoridos os gansos do Capitólio.
Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1871.
J. de Alencar.

Preocupado com a possibilidade de que adversários políticos se utilizassem do fato de publicar em um periódico republicano para prejudicá-lo, tece um “elogio da monarquia” e mostra-se convicto de que essa é a melhor forma de governo. Essa convicção está presente nas passagens em que, tomando a Inglaterra como modelo bem sucedido, justifica sua crença na monarquia aliada ao sistema representativo como melhor modelo/regime político para o país. Em alguns momentos, o autor estabelece paralelos entre Inglaterra monarquista na Europa e Brasil monarquista na América, atribuindo ao país a tarefa de representar a monarquia com sucesso como o faz a Inglaterra:

Sou monarquista sincero e quase escuso repeti-lo (apoiado); entendo que a Monarquia é, não só uma necessidade para este País, como uma questão de honra e de pundonor nacional. (Apoiados.)
O Brasil comprometeu-se a dar à América o mesmo exemplo que deu a Inglaterra à Europa. Nós, os brasileiros, devemos provar ao mundo que sabemos ser um povo livre e que um Rei, essa entidade que espantava o povo romano, bem longe de ser um obstáculo para nossa felicidade, é, ao contrário, um instrumento da nossa liberdade. (Apoiados.)

Sua fidelidade ao partido conservador é postulada em vários momentos. Ele demonstra um forte empenho em afirmar-se conservador, principalmente na ocasião em que se defende de acusações de ter sido liberal no passado e, posteriormente, haver mudado de partido:

A minha infância, Senhores, foi liberal, é verdade, conforme disse o nobre Senador pela Bahia; foi liberal como é hoje a idade da reflexão. Hoje, porém, compreendo melhor a liberdade do que então a compreendia. O sentimento não mudou, mas a razão se esclareceu. Outrora, liberdade era para mim o entusiasmo popular, a eletricidade da multidão; hoje, porém, considero como o verdadeiro cunho da liberdade a felicidade calma, tranqüila do povo, a manifestação vivaz e enérgica da opinião pública.
(...)
O Partido chamado Liberal nunca me teve ao seu serviço; não me conferiu nem eu aceitei qualquer posição política. Nunca pugnei pelo seu triunfo, nem na Imprensa nem na Tribuna. Redigi em 1856 uma folha diária com inteira isenção de partido, com inteira imparcialidade política. Aspirando a uma cadeira no Parlamento, em uma época de conciliação, apresentei-me candidato por minha Província, recebendo, aceitando o concurso de todos, mas, sobretudo, apoiado no Partido Conservador, que me elegeu. (...)
Fui eleito Deputado, tendo obtido apenas 30 votos de cerca de duzentos eleitores liberais que havia no Distrito. Entrei então na vida política; liguei-me ao Partido cujas idéias, cujas aspirações se conformavam mais com os meus princípios. Como, pois, repetir-se essa inexatidão de que em algum tempo pertenci efetivamente ao Partido Liberal?

A “infância liberal” deveu-se também ao fato de que seu pai, o Senador Alencar, pertenceu a esse partido. Note-se, no entanto, que o autor recusa bravamente a alcunha de liberal, alegando que, como político, nunca se ligara a esse partido e que em momento algum se pronunciara favoravelmente a tal facção política.

De fato, em muitos momentos o autor se pronunciou como defensor das idéias do partido a que se filiara, chegando mesmo a criar um periódico, a folha Dezesseis de Julho, com objetivo de que fosse um órgão do partido conservador. No fragmento acima, ele declara que se ligou ao partido “cujas idéias, cujas aspirações se conformavam mais com os [seus] princípios”. Nesse sentido, é interessante levar em conta a imagem que ele tinha da diferença entre conservadores e liberais, explicitada em um discurso de julho de 1871:

Quem não sabe, Senhores, que o Partido Tory, na Inglaterra, foi sempre infenso à emancipação dos católicos? Era uma das bases dos dogmas de sua crença política, assim como é, entre nós, da índole e caráter do Partido Conservador, não fazer reformas precipitadas, não votar leis que afetam interesses graves ou princípios cardeais do sistema, quando não sofre a pressão enérgica da opinião, quando não é, por assim dizer, impelido pelo País. (Apoiados.)
Esta é a distinção entre o Partido Liberal e o Partido Conservador. O Partido Liberal marcha; na vanguarda, aventa as idéias, aponta-as à opinião, lança-as na discussão; o Partido Conservador, ao contrário, não aceita doutrinas que não estejam bastante amadurecidas; em vez de antecipar-se, acompanha, segue atrás da opinião. (...).

Note-se que, para ele, o conservador por excelência caracterizava-se pela prudência, que a seu ver significa “não antecipar-se”, aceitar somente “doutrinas amadurecidas”, respeitar os “interesses graves” e os “princípios cardeais do sistema”, sendo-lhe permitido agir de modo diverso somente em situações extremas em que sofresse “a pressão enérgica da opinião” e por isso fosse “impelido pelo País”. O contexto em que profere essas palavras é a discussão acerca do projeto da Lei de 1871, cuja aprovação para ele significava ameaça aos “princípios cardeais” do sistema escravista e prejudicaria os “interesses graves” de toda a nação.

Alencar confiava plenamente nessa concepção de “conservador” e uma das imagens que passa de si é a de um homem que possui uma determinação inabalável de defender os interesses de seu partido, como quando se compromete publicamente com afirmações categóricas como a de um Discurso de 1873: “sempre que for atacado o Partido Conservador em suas tradições, em seus princípios, hão de me encontrar nesta tribuna e, quando não tiver acesso a ela, hão de me encontrar na Imprensa, para defendê-lo.”

Há, também, vários textos em que ele explicita o modo como via a política e a postura que adotava como político:

Tenho a honra de comunicar a V. S. que S.M. o Imperador houve por bem nomear-me Ministro dos Negócios da Justiça.
Nas circunstâncias melindrosas em que se acha o país é necessário o concurso de todos os cidadãos para superar as dificuldades do presente.
Confio, pois, no zelo e dedicação de V.S. que há de auxiliar-me no empenho de honra que acabo de contrair com o nosso país.[...]
Corte, 20 de julho de 1868.

Nessa carta, apreende-se a concepção de política como algo conjunto, que deve levar em conta a opinião e o concurso de todos os cidadãos para chegar-se a soluções benéficas à nação. Além disso, podemos extrair dela a imagem de político como um homem que trava um compromisso de honra, zelo e dedicação para com seu país quando aceita desempenhar algum cargo. Possivelmente essa imagem de homem público é uma das justificativas para sua postura de indignação e revolta quando denuncia, no periódico O Protesto, a má administração do país, fruto do mau uso dos cofres públicos e da desonestidade:

A história de 1876, essa é breve, e escreve-se no estilo de Syèes; sem frases. Esbanjou-se o dinheiro público a pretexto de melhoramentos materiais; fizeram-se contratos ruinosos para o Estado; contraiu-se um empréstimo desgraçado, criaram-se empregos supérfluos; distribuiram-se novos brasões e maiores propinas; elegeu-se a futura Câmara; construiu-se uma montanha de papel; e finalmente pôs-se o remate à obra-prima da situação.

Consumou-se o déficit.

Déficit do tesouro; déficit na moralidade pública. O do tesouro é enorme; sobe a muitos mil contos. O da moralidade, quem o pode avaliar?

O tom irônico dá força à denúncia presente na enumeração de vários atos políticos maléficos ao país, os quais justificariam o final do texto, em que o autor postula a ausência de moralidade pública.

O empenho de Alencar em mostrar-se fiel ao seu partido, assim como a imagem que passa de sua postura como político e as críticas ao governo estão estreitamente ligados à sua concepção de sociedade, da qual emanam várias outras convicções políticas. Essa concepção, mais exatamente seu “ideal da sociedade”, está esboçada no segundo capítulo da obra O Sistema Representativo, de 1868:

O ideal da sociedade se póde traduzir em uma fórmula breve e simples: “O governo de todos por todos, e a independencia de cada um por si mesmo.”

A partir dessa fórmula, o autor aponta a existência do contraste entre a liberdade política e a liberdade civil. A seu ver, a personalidade ou o homem jurídico comportaria duas pessoas, a social e a individual:

A pessoa social foi creada para ser absorvida; é uma simples molecula da grande mónada politica designada com o nome de estado ou nação. Nessa esphera o homem figura apenas como particula de um todo, e só vale quando reunido em massa. Unicamente por abstracçao elle constitue uma unidade qualquer, anonyma, indistincta.
A pessoa individual ao contrario é independente, não póde ser absorvida. Entre milhões de outras individualidades, conserva a sua autonomia e vale tanto como a reunião de todas ellas.
Nesta esphera o homem constitue um ser integral; e isola-se dos outros no circulo de sua liberdade.

A sociedade política ou estado derivaria da comunhão das pessoas sociais, da união de suas vontades surgiria a lei, ao passo que a soberania nacional emanaria da totalidade da nação:

É essencial fundir todas as vontades em uma só e única para formar a lei. Se nesse todo compacto e homogeneo se destacassem individualidades, o direito seria perturbado. A soberania nacional não significa uma somma de vontades, ou o producto da addição de certa quantidade de votos; é um poder idiviso que emana da totalidade do paiz; uma vontade maxima e plena formada pela concrecção das vontades. Todos concorrerão para ella; ninguém isoladamente a creou.
Tal é o verdadeiro caracter do poder político; o governo de todos por todos. A sciencia a designa com o termo conhecido de democracia, soberania do povo, soberania da comunhão de todos os cidadão de um estado, demos.

Temos, assim, explicada a primeira parte da fórmula inicialmente apresentada pelo autor. Em contrapartida a ela, Alencar postula que do isolamento da pessoa individual sai a cidade, a sociedade civil, e que a independência individual deve ser resguardada para que não se passe da democracia para a servidão. Assim, ele desvenda a segunda parte da fórmula:

Por outro lado a sociedade civil compõe-se de uma concurrencia de unidades exclusivas que se tocão, mas não adherem. A minima individualidade que fosse, não já annullada, mas simplesmente reduzida, importaria um attentado. Nesse dominio impera o eu; o homem e seu proprio subdito e soberano. Ahi a formula social se resume, na independecia de cada um por si mesmo.

Declarando que o assunto de seu estudo é “a democracia, ou o systema geral do governo do estado”, passa a esmiuçar o sentido do “governo de todos por todos”, o qual não pressupunha “unanimidade”, mas deveria empenhar-se para executar a vontade da “pessoa coletiva”, a “vontade nacional”, resultante da fusão dos “pensamentos opostos e disseminados” de todos os cidadãos. Para que os atos governamentais executassem o desejo da nação, era necessário que todas as opiniões fossem representadas no parlamento:

A representação, já que tornou-se impraticavel a democracia directa, deve reproduzir com a maior exactidão possível essa funcção ampla do governo popular.
É essencial á legitimidade dessa instituição que ella concentre todo o paiz no parlamento, sem exclusão de uma facção qualquer da opinião publica. Na representação, como no comicio do qual ella deve ser a copia fiel, cumpre que todas as convicções tenhão voz; todos os elementos sociaes um orgão para defender sua idéas.

O texto de O Sistema Representativo consiste num grande esforço por parte de Alencar para traçar um projeto que garantisse a representação das minorias e possibilitasse a existência de um governo plenamente democrático. A democracia constitui um dos princípios políticos defendidos em alguns de seus textos e fundamenta sua luta pela maior representatividade através do voto. Na Introdução à obra, ele faz algumas considerações importantes a esse respeito:

O voto é o elemento da soberania; a representação o meio de concentrar a vontade nacional para organisação do poder público. Os principios que regulão essa personalidade politica, são immutáveis como as da personalidade civil; pertencem aos conservadores como aos liberaes dos paizes representativos: não são propriedade de um partido com exclusão de outro, mas propriedade do povo que os conquistou pela civilização.(...) Pode-se portanto ser conservador no Brasil, e sustentar a maior amplitude do voto em relação à universalidade dos cidadãos. É até esse um dos deveres do partido; zelar a pureza e verdade do principio da representação que elle defende e mantém.

Percebe-se, no texto acima, a defesa da representatividade das minorias, a qual se daria através de uma ampliação do voto, que possibilitaria que a organização do poder público contemplasse melhor a vontade nacional. A seu ver, naquele momento o parlamento representava somente a maioria ao invés de representar a nação, o que o leva a questionar tanto a validade do voto censitário quanto o critério de capacidade eleitoral da época. Como semelhante postura parece-lhe associada a políticos do partido liberal, alega que tal concepção é errônea, pois a amplitude do voto seria inerente ao sistema representativo e um direito das pessoas. Percebe-se que Alencar tinha uma imagem do público que leria seu texto, o que o faz responder previamente a acusações que considera possíveis.

Também atrelada a essas convicções estão suas concepções de político e de partido político. A seu ver, nas sociedades modernas o povo não possuía disposição ou mesmo condição para ocupar-se com questões de Estado como ocorria com os povos antigos. No entanto, de todas as classes sociais emanariam homens que poderiam representar as diversas opiniões e, entre eles, o partido escolheria o de sua confiança para ser seu “cérebro político”, o qual deveria representar os interesses de uma parte do país:

Nelles se opera uma transfusão do pensamento das massas; não representão sómente uma idéa determinada; mas a faculdade intellectual de uma fracção do paiz; quando reflectem, é como se aquella massa refletisse.

Nesse quadro, o partidos políticos “são a milícia da nação; velam sobre o exercício da soberania; defendem as instituições e preservam simultâneamente o monarca e o povo”, cabendo a eles, através dos votos, representar as parcelas da população. O chefe do partido, em especial, teria a missão de representar sua facção política e ser fiel a ela, já que entre eles estabelecia-se um “compromisso de honra”. Dessa forma, explicam-se muitas das atitudes tomadas por Alencar em defesa de seu partido e várias acusações que faz a membros que não estariam defendendo suas idéias, como no caso da discussão da reforma servil em 1871.

A concepção alencariana de sistema representativo, assim como as noções a ela atreladas, parecem nortear seu pensamento político, já que são reiteradas em praticamente todos os seus textos. Dessas idéias, derivam muitas das “rusgas” que ele teve com o imperador, que a seu ver em muitos momentos exercia “poder pessoal”, desacreditando a monarquia representativa perante a nação e lesando os cidadãos, cuja opinião era desconsiderada:

Não ha mais belo exemplo da excelencia do governo constitucional do que o de um monarcha cedendo de sua opinião individual ante o voto da nação.
A realeza presta homenagem á soberania. O rei artificial paga o tributo devido ao rei natural, que é o povo.
Quando, porém, o monarcha de um paiz livre, sem audiencia da nação, compromette sua fé perante o mundo civilisado; empenhando a palavra augusta como garantia de uma resolução que não depende de sua vontade exclusiva; ha nesse acto grande imprudencia, e grave perigo para a causa publica. [...]
A lição que encerra a questão da emancipação em nosso paiz deve ser proveitosa. Um rei constitucional não tem o direito de decretar sobre o futuro, e de empenhar a vontade nacional. Se a sua opinião individual não recebeu a consagração do paiz, convém para decoro da realeza que fique em conselho[...].


A noção de que o governo deve executar a “vontade nacional” é a base das considerações acima. Ao rei caberia, como representante maior da nação, consultá-la em todas as decisões e em prol da “vontade soberana do povo” abster-se de sua opinião pessoal. Quando isso não se dava, ocorria uma “imprudência”, que ameaçava a “causa pública”. As palavras acima referem-se à promessa feita pelo Imperador aos europeus de encaminhar a reforma servil e conduzir o país à abolição. Como veremos, as questões relativas à emancipação muitas vezes levaram Alencar a pronunciar-se, seja na tribuna, na imprensa ou mesmo nos textos ficcionais.

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Fonte:

Hebe Cristina da Silva: “Imagens da escravidão – uma leitura de escritos políticos e ficcionais de José de Alencar”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Teoria e História Literária. Orientadora: Profa. Dra. Márcia Abreu. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Estudos da Linguagem. Departamento de Teoria e História Literária). Campinas, 2004.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. 
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível digitalmente no site:  www.bibliotecadigital.unicamp.br

18/11/2013

Ao Correr da Pena (Crônicas Completas), de José de Alencar

 Jose de Alencar - Ao Correr da Pena
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José de Alencar: o cronista do Correio Mercantil

João Roberto Faria aponta Francisco Otaviano como o  pioneiro do folhetim no Brasil, com sua seção no Jornal do Comércio, a partir de  1852. É justamente pelas mãos de Otaviano que José de Alencar inicia sua  caminhada, fazendo-o através do jornal e, especialmente, pelo rodapé das páginas  do Correio Mercantil, com a “benção” de Otaviano, a quem Alencar considerava  seu mentor intelectual.

E o caminho do jornal, para um escritor iniciante como Alencar, era  incontornável. Enquanto que, na França, o surgimento e ascensão da indústria  midiática pelo jornal foi o caminho para a consagração de diversos escritores já  maduros do ponto de vista intelectual, no Brasil, o jornal se mostrou o caminho de  entrada para jovens talentos.

Destaque-se, em tal sentido, a criação do grupo que editou na França a  revista literária Nitheroy, em 1836. Apesar de terem sido publicadas apenas duas  edições da revista, tal empresa auxiliou no surgimento e evolução de um grupo  que, nos primeiros anos da era midiática no Brasil, ditaria o rumo das  manifestações artísticas e, especialmente, da literatura no país; grupo este  capitaneado por Gonçalves de Magalhães, renomado poeta da época e preferido  do Imperador D. Pedro II. O mesmo Gonçalves de Magalhães que traria à luz em  1856 aquele que se pretendia o poema épico de formação da identidade brasileira,  A confederação dos Tamoios, que seria duramente atacado nas páginas do Diário  do Rio de Janeiro por meio de oito cartas inicialmente publicadas por um certo que posteriormente se revelaria como o próprio José de Alencar, em uma  acirrada polêmica, bem ao gosto do escritor cearense.

 Nesse sentido, como afirmado por Weslei Roberto Cândido (2009, p. 125)

O jornal, no século XIX brasileiro, exerceu uma importante  função na formação e consolidação das letras no país. Órgão  divulgador da literatura francesa que chegava nos paquetes e  logo era traduzida nos rodapés dos jornais, a imprensa  também funcionou como divulgadora dos novos escritores  nacionais, como o próprio Alencar e ainda serviu de palco  para polêmicas e debates literários que talvez não tenham se  repetido mais na história da literatura brasileira.

Mas antes da polêmica travada por Alencar acerca do poema de  Magalhães, veio o então jovem aspirante a escritor, com apenas 25 anos de idade,  a ocupar as páginas do Correio Mercantil¸ a partir de 3 de setembro de 1854, com  a seção intitulada Ao correr da pena, tendo escrito neste jornal a primeira série de  folhetins – trinta e sete ao todo –, a qual foi encerrada, em sua primeira fase, em 8  de julho de 1855. Nessa ocasião, Alencar pediu demissão do cargo que ocupava  no jornal, por não concordar com modificações feitas em sua última crônica, na  qual atacara a febre de especulação financeira que grassava no Rio de Janeiro,  bem como aos especuladores.

 E o escritor inicia sua jornada pelos rodapés dos jornais em 3 de setembro  de 1854, com a publicação da crônica cujo original é reproduzido abaixo, em uma  revisão dos fatos recentes que eram reproduzidos nas páginas dos jornais de então,  especialmente o Correio Mercantil...


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Fonte:
Douglas Ricardo Hermínio Reis: “A literatura no jornal: José de Alencar e os folhetins de Ao correr da pena (1854-1855) – Volume 1. (Dissertação apresentada como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em  Letras, junto ao Programa de Pós-Graduação em  Letras, Área de Concentração – Literaturas em  língua portuguesa, do Instituto de Biociências,  Letras e Ciências Exatas da Universidade  Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”,  Campus de São José do Rio Preto. Orientadora: Profª. Drª. Lúcia Granja). São José do Rio Preto, 2011.

19/10/2013

O Teatro de José de Alencar (Volume II)

 Jose de Alencar - Teatro II - Iba Mendes
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Representações femininas, a  censura ao teatro de José de Alencar

Ao todo, ele escreveu nove peças teatrais, representadas no Teatro Ginásio  Dramático, bastante conceituado pela sociedade carioca da época. Como o espírito dos  literatos desta época estava muito ligado as questões da educação pública, a cada peça nova  que estreava, vinha acompanhada de um grande entusiasmo nos jornais, que publicavam  notas e colunas diversas tecendo comentários e críticas a respeito da obra e da atuação dos  atores. No caso da produção de Alencar, quando as críticas não lhes era favorável, suas  repostas publicadas em jornais eram quase imediatas.

Em junho de 1858 deu-se início a uma polêmica que foi encarada por Alencar,  como uma questão de honra a ser defendida. No Ginásio Dramático, a peça As Asas de um  Anjo teve a sua representação proibida, e sérias críticas foram feitas sugerindo que ela era  “realista demais”. A trama trata de uma jovem, que é “induzida” ao vício da prostituição e  depois de muito sofrer nesta vida marginal, acaba por encontrar a redenção através da  maternidade. Há no entanto, uma cena em particular que chocou completamente a polícia  da época. Resumidamente, é um momento em que Carolina, a jovem prostituída, sofre uma  tentativa de estupro por seu próprio pai, que completamente bêbado, não a reconheceu.

Alencar defendeu-se, declarando a plena aceitação do público e alegando que os  motivos que o levaram a escrever tal estória são de natureza mais pura e bem-intencionada.  A imoralidade citada pela polícia é totalmente refutada, sendo percebida como um ato que é  auto-punitivo

Será imoral uma obra que mostra o vício castigado pelo próprio vício; que  tomando por base um fato infelizmente muito freqüente na sociedade, deduz dêle conseqüências terríveis que servem de punição não só aos seus autores  principais, como àqueles que concorreram indiretamente para a sua realização.

As atitudes representadas funcionariam para os espectadores como um espelho  invertido. Ao invés de incitar a imoralidade como insinua a polícia censora, Alencar tentou  criar todo um clima de aversão, evidenciando toda a vileza e asquerosidade do ato da  sedução.

No decorrer deste ensaio, publicado no Diário do Rio de Janeiro em 22 de junho  de 1858, fez uma análise de todos os personagens envolvidos na peça, explicitando como  cada um deles contribuiu para a elaboração do desfecho final em que o amor é glorificado e  a maternidade exaltada como forma de redenção dos vícios. Utilizou a seu favor também,  um recurso altamente qualificado: citar autores europeus que outrora escreveram sobre a  prostituição como Vitor Hugo e Dumas Filho. Ao afirmar que tanto o tema como a forma  de abordagem não eram exatamente sua criação original, o autor caiu novamente na  interessante contradição aparentemente indissolúvel de legitimar uma literatura nacional a  partir de modelos estrangeiros, que ele resolveu usando um princípio evolutivo, em que as  mais altas civilizações (leia a civilização francesa) serviriam de espelho para a organização  das bases estruturais da sociedade brasileira, e suas idiossincrasias iriam-se firmando  conforme seu desenvolvimento.

A censura das Asas de um Anjo foi sentida por Alencar de forma bastante intensa.  Basta percebermos que o tema da prostituta regenerada será retomado em duas de suas  obras posteriores, Expiação e Lucíola, e que a publicação da peça foi precedida de uma  advertência com o mesmo tom rancoroso e com um leve desdém aos que não  compreendiam os objetivos de sua obra contido no ensaio publicado no Diário do Rio de Janeiro. Expiação é literalmente uma continuação de Asas de um Anjo, numa tentativa,  como o autor mesmo afirma, de desenvolver melhor os argumentos na qual defendeu a obra  anterior.

Meu pensamento escrevendo em 1858 a comédia que tem por título “As Asas  de um Anjo” , foi esboçar a vida da Madalena moderna, a Madalena do  Ouro, filha da sociedade atual. (...) A Madalena do mundo é uma vítima do  ouro, abjura do amor e relapsa na cupidez; embora contrita e arrependida só  remirá sua culpa quando tiver amado muito e portanto muito sofrido. (...) A  primeira época de Carolina, As Asas de um Anjo, foi censurada por espíritos  bem reputados em literatura. (...) A Expiação é a resposta a estas censuras.

A grande resposta a censura viria mesmo em 1862 com a publicação de Lucíola.  Expiação foi escrita posteriormente em 1868, revelando a obsessão do autor com este tema,  talvez pela maneira considerada brutal e incompreensiva da censura em relação as suas  idéias. Alencar, um renomado escritor de sua época, que trabalhou em diversos jornais,  convivia com diversos escritores e jornalistas, e tinha grande aceitação por parte do  público, (tanto que a conceituada editora Garnier estabeleceu um contrato para editar seus  livros a partir de 1870), tinha tamanha certeza que seu projeto de construção de uma  literatura que fundamentasse as bases da civilização moderna nacional era o mais correto,  que nunca aceitou muito bem qualquer atitude que resvalasse em seus objetivos enquanto  escritor-educador.

Ao traçarmos um panorama de sua obra literária como um todo, podemos perceber  uma grande quantidade de escritos destinados a retrucar e replicar críticas feitas as suas  obras. É através delas que podemos perceber também este seu projeto. Foi de extrema  importância a análise desta peça teatral, uma vez que ela representa em termos literários os antecedentes mais explícitos ao romance  Lucíola. Acredito que a História está inscrita não  apenas não apenas os homens e em suas ações, mas também em suas produções  intelectuais, em suas representações construídas e consumidas no cotidiano nacional.
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Fonte:
Ana Carolina Eiras Coelho Soares:  “MÃE, MULHER E PROSTITUTA EXEMPLARES: representações femininas, a  censura ao teatro de José de Alencar e a construção da obra literária Lucíola”

Sonhos D'Ouro, de José de Alencar

Sonhos de Ouro de Jose de Alencar
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Uma história de sonhos, uma história de ouro

[...]
A história de Sonhos D’Ouro começa em um verão tropical, sob o sol ardente da Tijuca onde se encontram Ricardo e Guida. Ele, um jovem bacharel provinciano, com interesses e dotes artísticos, está no Rio trabalhando honestamente para conseguir vinte contos de réis, montante que o levaria à felicidade. Guida é a moça da corte, educada à inglesa, versada em salões e menina mimada, vendo todos os caprichos satisfeitos, por ser filha de Soares, homem que “de simples dono de armarinho, se elevara a milionário”, a “banqueiro”. A narração do primeiro encontro das duas personagens utiliza tantos recursos teatrais que o leitor logo percebe por onde vai a história e seu motor é “esta diferença de condições sociais”, apontada por Antonio Candido, na Formação da Literatura Brasileira, como “uma das molas da ficção de Alencar” A explicitação dessa diferença social entre as personagens cria a possibilidade de lermos, neste romance, episódios de uma história do ouro. Os capítulos VIII e XII trazem algumas maneiras de enriquecimento e de aquisição de títulos de nobreza, ao apresentarem os convivas de Soares, mostrando que as relações existentes à mesa de almoço ou de jogo são tecidas pelo dinheiro. Este aparece também como elemento decisivo na definição do casamento, problema longamente discutido nos capítulos XXV e XXVI. O narrador, no capítulo V, atribui a devastação da natureza ao desejo de lucro. Freqüentemente, esse universo de relações humanas permeado por disputas econômicas serve de apoio a crítica.s à atividade política, como nas seguintes palavras de Soares, referindo-se ao casamento da filha: “eu sou a coroa, a Guida é o parlamento. Ela tem o direito de votar o projeto; eu limito-me à sanção ou ao veto”.

Na relação entre Guida e Ricardo hd dois obstáculos: o ouro e a consciência. Observe-se o caráter metálico das imagens que a ela se referem: o riso “argentino” de Guida é comparado a “um cofre de pérolas e rubis”; “ela era o milhão feito anjo; o ouro convertido em luz, a libra esterlina transformada em estrela”, e sonhos d’ouro, a flor que provoca o encontro das personagens, tem a cor do metal. Ricardo defende a dignidade do trabalho, recusando-se a relacionar-se com o mundo pela circulação do dinheiro ou do favor.

Isola-se em seu pequeno quarto para preservar a palavra empenhada e a consciência, trabalhando em alguns processos e traduzindo folhetins e Eugénie Grandet. Intencional ou não, é interessante citação desta obra de Balzac: história de uma riqueza que cresce na medida em que os proprietários se dissolvem, uma trajetória de desumanização.

Talvez por a realidade brasileira não apresentar o mesmo grau de complexidade que a província francesa, talvez por Alencar não conseguir olhá-la com a pupila impiedosa de Balzac, Sonhos D’Ouro impregna-se do romantismo e nos oferece uma história de amor. Ricardo, liberado do compromisso de sua palavra, volta à harmont natural da Tijuca. A rapidez do desabrochar da flor desata os sentimentos. Com a mesma pressa, Alencar foi ao prelo acrescentar o post-scriptum que, apesar de tantas peripécias douradas, acaba forjando um happy-end para a história de sonhos. Talvez seja esta a que mais cale na memória do leitor.

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Fonte:
Valéria de Marco, in: “Sonhos D’Ouro”: José de Alencar. Editora Ática. São Paulo, 1981.

O Tronco do Ipê, de José de Alencar

 Jose de Alencar - O Tronco do Ipe - Iba Mendes
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Impasse e conciliação:  a posição do homem livre pobre em O tronco do ipê

É  provável  que  nunca  estivesse  tão  presente,  no romance rural do XIX, de modo explícito, sistemático e recorrente, o mal-estar que a condição de dependente  representa para este tipo de personagem, como se percebe  n’O tronco do ipê. Com modulações variadas de sentimentos e expressão em face do problema, que passa pelo sarcasmo, toca a autocomiseração e o constrangimento, chegando muitas vezes ao ressentimento, certos aspectos que cercam a posição de Mário como dependente são a linha de força que movimenta significativamente a primeira parte do romance de Alencar. Como n’O sertanejo e em Til, romances do mesmo autor, temos como protagonista um dependente de um grande proprietário. Entretanto, do ponto de vista da narrativa, enquanto Arnaldo Louredo (O sertanejo) e Berta/Jão  Fera (Til),  sobretudo estes  últimos,  transitam  de modo inconsciente na relação de dependência, Mário, ao contrário, enuncia não somente o lugar que ocupa na fazenda Nossa Senhora do Boqueirão, como protegido do barão da Espera, como também o mal-estar que tal situação representa para ele. Observe-se que, das sete passagens destacadas, seis são intervenções feitas diretamente pelo protagonista, e apenas numa, a sexta, é o narrador que se põe na perspectiva do personagem inserido em tal condição. Esta maneira de o romance formular um dos nós centrais terá consequências expressivas no plano narrativo,  como se tentará mostrar mais adiante.

A primeira parte do romance, que a bem dizer preenche quase que simetricamente a sua metade, é tomada de tom nervoso, crispado. Uma estridência tensa que tende a ser amainada, ou mesmo parece querer se confundir ou se misturar à própria natureza juvenil das situações apre- sentadas, já que as idades dos personagens centrais, Mário, Alice e Adélia, giram, nesse momento, em torno de 12 a 15 anos. Num certo sentido, é como se estivéssemos apreciando a estrepitosidade juvenil dos personagens em geral, mesclada e interposta à estridência desgostosa, insatisfeita e irritadiça de Mário diante da condição de dependente que ocupa. Em O tronco do ipê, os acontecimentos do passado familiar de Mário vão determinar o todo da narrativa, ou seja, a caracterização do protagonista, a sua posição social e o andamento da intriga.

Mário Figueira, desde menino (período este da vida do protagonista que corresponde à primeira parte do romance), carrega a suspeita de que Joaquim Freitas, o barão da Espera, esteja ligado ao destino fatal de seu pai, José Figueira, morto nas águas do boqueirão, bem como à posse inesperada da fazenda. Em flashback, nos capítulos X e XI, intitulados “Dois amigos” e “Desastre”, o leitor toma conhecimento de que José Figueira e Joaquim de Freitas foram amigos de infância. Pobre e órfão de um administrador de fazenda, este se torna protegido do comendador Figueira, pai de José, o qual o ajuda a montar “uma pequena casa de negócio”. Vendo no casamento “toda a esperança, todo o futuro; era a riqueza tão ardentemente ambicionada” (ALENCAR, 1980, p. 39), é, todavia, com a posse da propriedade que Joaquim de Freitas enriquece. Com a morte do comendador e a enigmática morte de José Figueira  no  boqueirão,  sabe-se,  de  modo  surpreendente  para  os envolvidos, que ele se tornara um dos principais credores do comendador, “a quem estava hipotecada a fazenda de Nossa Senhora do Boqueirão no valor de cem contos de reis” (ALENCAR, 1980, p. 42). A partir desta situação, torna-se dono da propriedade; em seguida, pleiteia e obtém, em troca da soma de doze contos de réis “doados” ao hospício de Pedro II, o título de barão; e também por gratidão e generosidade ampara agora em suas terras a viúva e o filho de José Figueira, D. Francisca e Mário. A passagem de Joaquim de Freitas de homem livre pobre a grande proprietário reconfigura a posição social de Mário no presente da intriga, que de potencial proprietário passa a protegido e dependente. Parodiando a famosa expressão de  Sérgio  Buarque  de  Holanda,  Mário  é  um  expropriado em suas próprias terras. Deriva desta situação, mais sentida do que refletida por parte do protagonista, o sentimento de que “todas as pessoas da amizade do rico fazendeiro incorriam na antipatia do menino” (ALENCAR, 1980, p. 67). Dentre elas, Alice, a filha do barão da Espera, será, a princípio, alvo central do ressentimento de Mário, destilado por um sarcasmo e por um pretenso desprezo dos privilégios que cercam a menina por ser filha de proprietário “nobre” e rico. A afronta contínua e sistemática à posição da garota não vai sem uma dose ambígua de desejo oculto de admiração, não só pela condição social que, ao que tudo indica, gostaria de ver como sua, mas também  pela própria figura feminina de Alice. Esta, por sua vez, sempre tolerante com o rapaz, atribui o caráter irritadiço de Mário a seu “temperamento forte”.

Sob este aspecto, a perspectiva admirativa da menina não deixa de, em boa dose, coincidir com a do narrador. A posição precária de Mário e a expressão (ressentida) que isso toma não invalidam o caráter positivo que o narrador atribui ao protagonista. Ao contrário, este é assumido com todas as letras, como se pode notar:

Quando  se  observava  aquele  menino  e  via-se  o  meneio altivo  com  que  ele  atirava  a  cabeça  sobre  a  espádua,  o gesto frio e compassado, a ruga precoce que lhe sulcava o sobrolho e a expressão desdenhosa do lábio crespo, não se podia o observador eximir a um sentimento de repulsa. Parecia que essa criança de quinze anos já se julgava com o direito de desprezar o mundo, que nem conhecia, e os homens de que ele era apenas um projeto. Entretanto com a continuação do exame aquele sentimento de repulsa diminuía. Havia nessa fisionomia um quer que seja que atraía, malgrado; adivinhava-se na fronte larga uma inteligência vigorosa; e vinha como um vago pressentimento, de que a expressão estranha de seu rosto não era outra cousa senão o confrangimento dessa alma superior (ALENCAR, 1980, p. 14).

Alma superior e confrangimento, uma disjunção que constitui o personagem pela ótica do narrador. O gesto frio, a ruga precoce, a expressão desdenhosa – tudo isso com- pondo “a expressão estranha” do rosto de Mário – seriam fruto do confrangimento de sua alma superior, observa o narrador, a quem o leitor não pode deixar de ter vontade de perguntar: o que atormenta, oprime e constrange o  protagonista? e, por outro lado, o que o torna uma alma  superior? Mário é superior por quê? superior a quem? superior para quê?

Quanto à primeira questão, ela parece estar respondi- da nas seis passagens transcritas que abrem esta parte do trabalho e no comentário parcial que esbocei. No entanto, situar o personagem na órbita da dependência é de suma importância  para  o  nosso  raciocínio,  mas  não  é  tudo. Tínhamos observado rapidamente acima que as situações que expressam o “sentimento de confrangimento” do personagem formulam-se predominantemente por meio do discurso direto. Ou seja, é a própria consciência do personagem que enuncia o mal-estar sobre a sua posição social, em situações de interlocução. Estrategicamente, digamos, o narrador fica à sombra das observações do personagem, e os comentários daquele se tornam menos enigmáticos se atentarmos para a divisão de perspectiva que compõe a caracterização do personagem como um todo. Esta resulta numa multiplicidade de pontos de vista da qual o narrador, em relação ao protagonista, se resguarda de comentários e  juízos  diretos  sobre  a condição social  de  Mário e  seu  significado. Não se pretende, neste artigo, aprofundar o sentido estratégico da posição do narrador alencariano; deixaremos isso para outro momento. Interessa destacar, por ora, o fato de a narrativa se compor por uma espécie de divisão de pontos de vista envolvidos na tarefa de caracterização do protagonista. A este, como se mencionou, cabe enunciar o lugar social precário que ocupa e o sentimento disso derivado; ao narrador cumpre fazer comentários algo abstratos referentes a esta situação, apenas indiretamente vinculados a ela, e também, e sobretudo, tecer comentários e juízos positivos e elevados em face do caráter e da personalidade do protagonista.

Esta é uma divisão de perspectivas que, com outros objetivos ficcionais, já está presente em outros romances de Alencar, como O sertanejo. Aqui como lá, está na instância narrativa a resposta à segunda questão, como já se pode perceber. Mas se n’O sertanejo o narrador punha a sua voz a serviço da configuração de um herói de histórias romanescas, aquele que fica a meio passo do mito e do homem, em O tronco do ipê, o narrador trata mesmo de homens. Mário não pode ser visto como herói no sentido que se atribui a Arnaldo Louredo, encarnação da figura nacional,  ao menos  em  uma das  suas  facetas.  No caso  de Mário, o caráter elevado e positivo do personagem  é  chancelado  pela  autoridade  do  narrador.  (E  aqui  nos aproximamos da segunda parte do nosso questionamento.) Caso se possa falar no aspecto “heroico” do personagem, este deve se referir à identidade que a instância narrativa expressa e mantém em relação às suas virtudes e qualidades morais e sociais. São caracterizações abstratas e genéricas (“inteligência vigorosa”, “alma superior”, etc.), em face  de certas situações concretas vividas por ele, que alçam Mário à esfera elevada ao imputar uma espécie de aura de dignidade, de reputabilidade, de nobreza e de correção. Ao mesmo tempo em que definem a sua essência em relação a si mesmo, elas o fazem na diferenciação diante dos outros personagens. Estes, se podem ter alguma respeitabilidade  social e de caráter, não se inscrevem no mesmo nível do protagonista. Assim, pode-se dizer que Mário é um herói na medida em que é exemplar e ilustrativo do homem  elevado no que pode se considerar o contexto prosaico do mundo rural alencariano, enquanto Arnaldo, por sua vez, em seu viés positivo, sintetiza o aspecto heroico da particularidade nacional no contexto mítico-aventureiro do mundo rural alencariano.

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Fonte:
Fernando C. Gil: “Impasse e conciliação:  a posição do homem livre pobre em O tronco do ipê. Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.18, 2011
 

17/10/2013

As Minas de Prata, de José de Alencar (livro completo)

Jose de Alencar - As Minas de Prata (Completo)
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A construção de um herói

A individualidade essencial de Estácio faz-se perceber em sua busca pelo mapa da mina prateada que lhe permitirá alcançar dois objetivos completamente pessoais: conquistar uma posição social que o permita aspirar à mão de Inesita e restabelecer o bom nome de sua família. Por um lado, ao identificarmos Inesita como seu objeto de desejo, seu “fim visado”, observamos que o caminho para alcançar esse objeto passa pelo encontro da mina, o que lhe permitirá, a ele que é pobre, obter os ganhos necessários para igualar-se economicamente à família da moça e ter a chance de pedir sua mão em casamento. Por outro lado, também é  “objeto de desejo” para Estácio limpar o nome do pai, Robério Dias, retirando, assim, a mácula que pesa sobre seu bom nome. Em ambos os casos, Padre Molina é o antagonista, a força opositora, ou seja, aquele que impede  “a força temática de se desdobrar no microcosmos”. Molina está à altura de Estácio, já que  “o herói, para ser grande, necessita de companheiros e adversários que não lhe sejam muito inferiores. [...] A pureza ingênua do herói, num mundo de crápulas, transforma-o em ser quixotesco”. Sendo assim, temos na figura de Padre Molina o grande obstáculo que Estácio tem que vencer. Para isso, ele está sozinho; não conta com a ajuda de forças místicas, nem míticas, e seus amigos, apesar de fiéis, pouco podem fazer para ajudá-lo.

A observância desse tratamento, dado por Alencar aos seus personagens, permite-nos entender que ele não apresenta seus heróis na concepção clássica da palavra, apesar de eles terem certo caráter épico. Podemos verificar que os personagens alencarinos fogem, portanto, do sentido hegeliano consagrado ao herói, objetivado no absoluto e sendo fio condutor da história.

Não podemos conceituar dessa forma os heróis alencarinos, principalmente Estácio. A história não se desenvolve por ele, mas através dos acontecimentos, concedendo-nos a oportunidade de observar as reações do herói, que passamos a conhecer mais profundamente. O “herói” alencarino busca muito mais uma conquista de objetivos pessoais, e suas buscas individuais são mais fortes do que a busca pelo bem coletivo, a redenção de seu povo – o que, quando surge ao seu alcance, na possibilidade de desarticulação de uma conspiração holandesa, por exemplo, é puramente ao acaso, não algo pelo qual ele estivesse buscando ou lutando para conquistar. O seu envolvimento nessa desarticulação deve-se mais à oportunidade reconhecida de aproximar-se da realização de seu intento do que de um desejo propriamente dito de salvação do reino, apesar de não podermos desconsiderar a honra que o move em todas as suas ações, pois “Estácio buscará o polimento da imagem paterna, bem como o amor de Inesita [...]; e ainda que debele a conspiração holandesa não haverá de exprimir, no conjunto, a concentração de um fato histórico”.

Mas é também essa exarticulação do conluio que nos permite apreciar uma cena das mais curiosas, em que o protagonista do romance, travando contato com D. Diogo de Meneses e Siqueira – real personagem da história do Brasil – revela toda a sua altivez, nobreza e coragem. Ao entregar-se ao governador-geral, exige justiça e reparação dos agravos sofridos por culpa de uma falsa acusação que o levou preso. Ora, somente um personagem com porte de herói agiria de tal forma diante de uma tão grande autoridade. Estácio não hesita, invade a sala de D. Diogo, dá-se a conhecer, revela toda a conspiração interrompida por sua ação e ainda o afronta, acusando-o de ser injusto. Tudo em nome da honra violada.

– Estas são as provas de minha inocência, sr. governador. Agora, a captura destes presos que se evadiam, a destruição dos dois navios de contrabando que os esperavam em Itapoã para levá-los à Holanda; a descoberta do plano que concertaram os judeus desta cidade para entregarem a Bahia aos holandeses; estas são as provas da vossa injustiça.

Suas atitudes estão de acordo com a criação que lhe deu Vaz Caminha, o qual, segundo o próprio Estácio, ensinou-o a suportar a pobreza e que lhe aconselhava: “sois moço e valente cavalheiro; a riqueza mudou-vos de repente a carreira; habituai-vos desde já a trazer a vossa fortuna, como a vossa honra, na ponta de vossa espada”.

Trabalhando com o conceito de herói clássico, ou seja, na esfera do mito, o herói seria aquele ser nascido da relação entre um deus e um mortal; um semi-deus, cujas façanhas sobre-humanas tornavam-no alguém fora do comum, diferente de deuses e de homens, tanto pela valentia física quanto pelas qualidades da alma; um ser a-histórico, que

visa ao sempre igual, arquetípico, [que] não reconhece transformações históricas fundamentais. Os fenômenos históricos são, para ele, apenas máscaras através das quais transparecem os padrões eternos. Sua visão do tempo é circular, não há desenvolvimento. O mito salienta a identidade essencial do homem em todos os tempos e lugares.

Movido por um dinamismo vital, mantinha-se constantemente em ação, fazendo uso de seus instintos aguçados ou da ajuda direta dos deuses. Impelido por sua valentia e grande força física e moral, o herói estava sempre pronto a arriscar sua vida por outrem ou pela causa que defendia, deixando os seus próprios interesses em segundo plano. ― “Instintivo, genuíno, puro, ignorante das forças que possuía, conduzia-se impelido por um dinamismo que se confundia com o próprio ato vital”.

Esse é o herói da epopeia, forma estética que responde à pergunta ― “como pode a vida tornar-se essencial?” E esse seria o segredo do helenismo, segundo Lukács.

Se quisermos, assim podemos abordar aqui o segredo do helenismo, sua perfeição que nos parece impensável e a sua estranheza intransponível para nós: o grego conhece somente respostas, mas nenhuma pergunta, somente soluções (mesmo que enigmáticas), mas nenhum enigma, somente formas, mas nenhum caos.

Hegel explica que “a epopeia, quando narra alguma coisa, tem por objeto uma ação que [...] apresenta inumeráveis ramificações pelas quais contata com o mundo total de uma nação ou de uma época”. E é o romantismo, com sua caracterização lírica, que desenvolve a noção de indivíduos excepcionais que encarnam a providência histórica; homens com a capacidade de realizar determinadas tarefas importantes para a humanidade, também chamados pelos poetas românticos de gênios. Essa é a linha de pensamento de Hegel, que considera como individual a finalidade de toda a ação épica, mesmo as que se ligam de alguma forma à coletividade. Defende, ainda, que a história de uma nação, ou o seu acontecimento épico, por não ter o que ele chama de “uma existência individual subjetiva” está ligada inexoravelmente a um determinado indivíduo, ―cuja individualidade confere a forma e o conteúdo a toda a realidade”.

Já antes tínhamos dito que o que constitui o fundo do mundo épico é um empreendimento coletivo no qual se possa exprimir a totalidade do espírito nacional ainda nos primórdios do seu estado heróico. Porém, acima desta base geral deve elevar-se um fim particular, cuja realidade pode ter uma influência decisiva sobre o caráter nacional, sobre as crenças e a atividade nacionais.

Em se tratando de seres históricos, esse herói estará sempre ligado aos acontecimentos políticos de sua nação. Como poeta, na sua arte, conferirá a forma e o conteúdo à realidade através de uma descrição poética e viva, que se fundamenta no espírito universal. Hegel elege os heróis de Homero como os exemplos de homens completos, cujas ações denunciam a identidade comum à do seu povo, porém atingindo o máximo grau de desenvolvimento, afirmando a totalidade extensiva da vida à medida que se desenrolam os acontecimentos.

Seriam eles os heróis que vivem “nessas épocas naturais quando o caráter individual conserva toda a sua ingenuidade”. Totais em si mesmos, são, no entanto, tocados pelo destino, subjugados pelo poder do fatum, o qual determina a sucessão de acontecimentos aos quais o herói tem a “necessidade” de obedecer, sob pena de ser castigado pelos deuses. É, portanto, o exterior que rege o herói clássico, e mesmo o herói universal hegeliano, pois que a epopeia tem por objeto os acontecimentos, ao contrário do romance que tem objetiva o indivíduo e apresenta todo o resto, como suas ações e seu contato com o mundo, como consequência de seu estado interior.

Desta forma, o herói do romance diferencia-se do helênico por ser o seu oposto. Por ter mais dúvidas que respostas; por estar em uma busca incessante de algo e não saber como tornar a vida essencial. “A epopeia dá forma a uma totalidade de vida fechada a partir de si mesma, o romance busca descobrir e construir, pela forma, a totalidade oculta da vida”.


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Fonte:
 Arlene Fernandes Vasconcelos:  “A Verdade Dispensa a Verossimilhança”: O Fato e a Ficção no Romance Histórico As Minas De Prata, de José De Alencar (Dissertação de Mestrado apresentada ao programa de pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Ceará, como requisito à obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Marcelo Almeida Peloggio). Fortaleza, 2011