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12/08/2014

Astúcias de Namorada, de Manuel Pinheiro Chagas

 Pinheiro Chagas em pdf gratis
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Pinheiro Chagas: O homem e o seu tempo

Manuel Pinheiro Chagas9 (1842-1895), lisbonense. Foi na sua época personalidade influente, porém hoje é inevitável o ostracismo da sua figura literária. Autor de uma obra vasta que no seu tempo foi lida com grande interesse e até ardor. Fez os seus estudos no Colégio Militar, prosseguindo-os na Escola do Exército e, simultaneamente, na Politécnica.

Iniciou a carreira das armas, chegando à patente de capitão, mas entrou logo na inatividade, em que se manteve até 1883, para tomar, em comissão de serviço, o lugar de professor do Curso Superior de Letras.

Literariamente, iniciou a sua carreira em 1863 com o poema O anjo do lar, poesia  dedicada à esposa, Maria da Piedade. Foi nesse período também, que estreou na imprensa jornalística, como crítico e folhetinista, na Gazeta de Portugal. Cunha Belém, um de seus contemporâneos, dá-nos impressões valiosas sobre o início de Pinheiro Chagas nos periódicos. Na visão daquele crítico:

Lopes de Mendonça, que empunhara o cetro daqueles domínios, tinha visto apagar-se-lhe a lâmpada da razão, pelo esforço de lucubrações, não superiores ao seu talento, mas avessas à sua índole! Se quiser (sic) obrigar a doidejante borboleta a produzir mel como a laboriosa abelha! Antonio Serpa dera-se fazer mel no cortiço da política; Latino Coelho...esse imitava só da abelha... o fazer cera. Ficara apenas o talento pertinaz e simpático de Júlio César Machado na arena do folhetim. Carecia de um rival que o estimulasse, de um adversário que lhe viesse acender os brios! Pinheiro Chagas levantou a luva, e na Gazeta de Portugal se estreou com os mais prósperos auspícios, que nunca bafejaram as primeiras tentativas de folhetinista algum. Estilo ameno, pomposo, rico de galas e louçanias, tesouros de erudição enceleirados desde a infância e beneficiados pela clareza do juízo, fina e chistosa crítica e, sobretudo, um bom senso literário e um instinto de bom gosto, admiráveis em tão verdes anos, tudo concorreu para fazer de Pinheiro Chagas um completo escritor desde os seus primeiros passos, sem que nunca lhe coubesse essa blandiciosa e convencional denominação de mancebo esperançoso, dada pela condescendência literária às mediocridades incipientes, que muitas vezes se conservam com o caráter de escandalosa cronicidade. (BELÉM, s.d, apud ARANHA, 1893, p.289)

Os primeiros romances foram publicados em folhetim na Gazeta de Portugal, a começar de 1866 pela Virgem de Guaraciaba que, com A conspiração de Pernambuco, constitui a série de Crônicas brasileiras. A partir desta data, Chagas publicará  inúmeros romances históricos até 1878.  Em 1865, sai o Poema da mocidade com a célebre e hiperbólica carta-prefácio do visconde de Castilho, suscitando a celeuma que se sabe, e a qual dispensamos um capítulo para sua discussão.

 Pinheiro Chagas foi um polígrafo de vastos recursos, pois a sua atividade se distribuiu por trabalhos de índole diversa. Revisou a História de França, de Henri Martin, na tradução de Pedro dos Reis. Escreveu o Prólogo inserto  em uma tradução de D. Quixote de Cervantes, obra a que voltaremos. É autor do Prólogo da edição dos Lusíadas empreendida por Duarte dos Santos e Aristides Abranches; esse prefácio foi traduzido em francês por Henri Faure e publicado em separata, em Paris. Dirigiu e foi o principal colaborador do Dicionário popular, nos moldes do    Larousse, em dezesseis volumes de grande formato.

Escreveu, em português e francês, os artigos descritivos de 24 oleografias editadas por Pedro Correia, nos anos de 1883 a 1885, com o título de Portugal pitoresco, e alguns dos artigos que acompanharam as estampas litografadas do Álbum de costumes portugueses. Da sua autoria são 113 biografias, referentes a sábios, escritores e militares, antigos e modernos, algumas incluídas na coletânea intitulada Portugueses ilustres.

Na dramaturgia, ele começou a sua carreira com A morgadinha Val Flor, drama em cinco atos estreado em 1869, com enorme êxito, que acabaria por lhe valer a tradução em várias línguas e um monumento na Avenida da Liberdade, em Lisboa, inaugurado em 1908, onde figura a famosa morgadinha. A sua produção foi interrompida em 1875 com a representação do Drama do povo, no teatro de D. Maria II. Nesta época, o público manifestou desagrado por acreditar que a peça era um ataque à realeza. Este infortúnio levou o dramaturgo a se afastar do teatro por dezenove anos. Sendo que o seu último trabalho teatral foi a comédia Lição cruel, em três atos, representada em 1894, no teatro do Ginásio.

A sua atividade como tradutor conta com mais de sessenta títulos, entre romances e peças de teatro. No domínio da crítica literária, publicou Ensaios críticos (1866) e Novos ensaios críticos (1867) nos quais analisa a iniciativa literária de prosadores e poetas portugueses, brasileiros, italianos e espanhóis. E, algumas dessas opiniões acerca da Literatura Brasileira foram contraditadas num folhetim inserto no jornal A reforma, do Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 1869. Teve grande interesse pela instrução do povo e seguindo as idéias da sua época, foi um grande divulgador, principalmente da história, colaborando ativamente na coleção de educação popular, onde publicou: AljubarrotaO Marquês de Pombal, A guerra peninsular, História da guerra entre a França e a Prússia, etc. Vale citar que a história ultramarina também lhe mereceu alguns estudos. Foi, além disso, redator e colaborador de inúmeros periódicos, dentre os quais podemos citar: Gazeta de Portugal,        Jornal do comércio,    Diário popularRevista ilustrada e Diário da manhã, substituído posteriormente por Correio da manhã..

Foi talvez como historiador que alcançou maior notoriedade ao publicar em fascículos, entre 1867 e 1874, como principal colaborador, a História de Portugal desde os tempos mais remotos até a atualidade, obra composta por “uma sociedade de homens de letras, segundo o plano de Ferdinand Denis. Sete anos mais tarde, essa obra daria lugar, revisada e aumentada, à História de Portugal. Em 1880, Pinheiro Chagas publicou a História alegre de Portugal e Resumo da história de Portugal, adotado oficialmente nos liceus; em 1890, A Descoberta da Índia contada por um marinheiro e, em 1893, Migalhas de história portuguesa.

Como estadista, filiou-se ao Partido Regenerador que o fez deputado à primeira vez, pela Covilhã, em 1871, e desde então foi eleito para todas as legislaturas até 1892, apenas com um interstício de seis meses, causado por uma forte oposição do Partido Progressista. Em 1883, foi nomeado ministro da Marinha, no ministério de Fontes Pereira de Melo,tendo-se exonerado desse cargo em 1886. Promoveu, no tempo do seu ministério, o desenvolvimento de infra-estruturas nas colônias de Angola, Moçambique e Cabo Verde. Além disso, incentivou a colonização do interior de Angola, na província de Namibe (antiga Moçâmedes).  

Pinheiro Chagas também ocupou os cargos de secretário-geral da Academia das Ciências, de vogal do Conselho Superior da Instrução Pública, presidente da Junta de Crédito Público e presidente da Associação dos Homens de Letras. Recebeu inúmeras distinções, como a nomeação vitalícia de par do reino, titular das comendas e grã-cruzes das ordens de D. Carlos III de Espanha e de Leopoldo da Bélgica e, ainda, o grau de grande oficial da legião de Honra de França.

Não obstante, a sua popularidade e êxito ficaram evidentes a partir de um plebiscito literário promovido em 1884, pelo Imparcial de Coimbra. Vale lembrar que, nessa época, os progressos estéticos e a modernização literária imposta através do romance naturalista não conseguiram – mesmo no auge da produção realista e naturalista de Eça de Queirós –mudar a opinião literária do público luso-brasileiro. O resultado final desta pesquisa literária, que contraria o momento estético em destaque, posicionou nos primeiros lugares dois escritores tidos como ultra-românticos pelas histórias literárias, Camilo Castelo Branco em primeiro e Pinheiro Chagas em segundo lugar.

Em 7 de fevereiro de 1888, Pinheiro Chagas foi atacado à bengalada por um anarquista, em plena rua, à saída do Parlamento, agressão que o deixou muito abalado e em perigo de vida. Este ataque fora em represália às palavras chistosas e depreciativas que Chagas dedicara, no diário lisboeta O repórter, a Louise Michel, heroína socialista da Comuna de Paris. Oliveira Martins (1957 [1888], p.181), no dia seguinte, publicava nesse mesmo jornal a condenação do atentado, referindo-se a vítima como “um escritor que nas letras pátria está na primeira fila”. Por essa altura, Eça polemizava novamente com ele, desta vez a propósito do concurso da Academia, a que concorrera com A relíquia.

Pinheiro Chagas viria a falecer em Lisboa, em 8 de abril de 1895. Contudo, todos os seus cargos, a sua vasta produção literária e as inúmeras homenagens que recebeu em vida não o impediram de morrer em estado de pobreza.

Nas palavras de Campos Matos (1988), as relações de Eça15 com Pinheiro Chagas começaram, presumivelmente, por ocasião da campanha de oposição aos representantes da nova geração de Coimbra, Teófilo Braga e Antero de Quental, no Jornal do comércio, em 1865. Destaca também que muito embora Eça não tenha participado diretamente na contenda da Questão coimbrã – este a acompanha como observador e admirador de Antero. Dessa maneira, devemos antecipar que os temas que discorreremos a seguir sobre a Questão coimbrã, A Comuna de Paris e As Conferências do Cassino serão decisivos para a construção da imagem reacionária e regressiva que a Geração de 70 terá de Pinheiro Chagas.


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Fonte:
Jane Adriane Gandra Veloso:A (de)formação da imagem: Pinheiro Chagas  refletido pelo monóculo de Eça de Queirós”. (Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Motta Oliveira). São Paulo, 2007.


Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade. Disponível em www.teses.usp.br

30/03/2014

História Alegre de Portugal, de João Pinheiro Chagas

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Pinheiro Chagas, da crítica ao romance histórico

Com a sensibilidade romântica, o romance histórico vai tanto ser instrumento de formação histórica, como ajudar na consolidação da literatura nacional. Fossem, portanto, nas veredas literárias de Scott, Dumas ou de Hugo, os autores do período oitocentista, cada qual a sua maneira, quase sempre com o olhar voltado para o período da fundação da nacionalidade, utilizaram-se do didatismo e dos ensinamentos históricos para estabelecerem um confronto binário entre passado/presente.

Apesar de centrarmos nossa discussão em romance histórico, o estudo sobre o drama histórico, realizado por Teófilo Braga (1871), nos informa mais elementos sobre as produções de cunho histórico no Portugal de Oitocentos. Neste, seu autor assevera que apesar de ter havido um empenho considerável da classe letrada na adoção do gênero literário, respeitando todas as suas especificidades, suas tentativas iniciais foram inexpressivas. Isto porque,  embora os escritores nacionais tivessem contato com um variado número de exemplares franceses traduzidos, para escrever romance de fundamentação histórica, era imprescindível um conhecimento apurado da História e, além disso, que a mesma estivesse consolidada. Desses volumes traduzidos, nenhum alcançou maior glória ante ao gosto popular do que os de Voltaire. Ainda, conforme os estudos de Braga (1871), as tragédias voltaireanas eram admiradas porque defendiam a liberdade de consciência contra despotismo e o obscurantismo religioso, e por isso tiveram muitos seguidores, principalmente no drama histórico.  

Essa precariedade de embasamento histórico levará ao surgimento, como adverte Ana Isabel Vasconcelos (2008), de dois grupos que tomaram a História em perspectivas diferentes, sendo que uma mais aproxima do referencial histórico e outra distanciada deste compromisso, ou seja, mais historicizantes. Esclarece, ainda, que o termo histórico vagamente associado a muitos escritos do momento não derivava particularmente de suas autorias, mas da crítica que, sem levar em conta a relação estabelecida entre História e ficção, englobava todas estas publicações num único conjunto, sem distinção.

Embora o cientificismo histórico tenha se originado no século XIX, não podemos nos esquecer que este período era de transição. Nesse sentido, a historiografia portuguesa oscilava ainda entre aquela feita na perspectiva liberal e científica e outra de cunho tradicionalista e conservador. Ser progressista era ter o máximo de compromisso com o discurso histórico na ficção, do contrário, não passava de uma descrição cênica do passado.  É curioso que embora se tenha produzido dramas históricos relativos à época medieval no interstício de 1846-1856, nenhum desses autores recorresse como fonte documental ao primeiro e mais importante estudo histórico de oitocentos, A História de Portugal, de Alexandre Herculano. Nem com a possibilidade de encontrarem um estudo coeso e sério sobre o período de formação de Portugal, os quatro volumes não foram atrativos para essa classe de literatos. Confirmando-se, portanto, certa resistência e incapacidade de manusear o novo saber histórico. Possivelmente, ao optarem pelas fontes mais remotas, especificamente as crônicas, os romancistas pretendiam conhecer a História feita no calor da ação do passado.

De interpretação mais digerida, o texto cronístico se destaca dos outros pelo estilo simples de narrar, pelo seu caráter sintético, realístico e urgente da escrita, bem como pelo tom lírico-reflexivo que se dá aos relatos dos fatos.

Antes de Herculano, a escrita da História, como asseverou Pinheiro Chagas, era ad narradum (para se narrar), tinha características tão próximas da poética que quase não havia comprometimento com a verdade histórica. De modo geral, suas censuras creditavam à maioria desses estudos os adjetivos de amadores, demasiadamente fantasiosos e declamatórios. A mais grave delas era a forma idealista com que se desenhavam as personalidades nacionais, engrandecendo-as nos feitos e qualidades, aspectos que comprovadamente nunca existiram na vida pregressa dessas individualidades. A outra reprovação era a forma erudita desses ensaios, no uso excessivo do latim, que produziam uma dificuldade de interpretação do fato.

Na avaliação final de Ana Vasconcelos (2008), os romancistas históricos românticos preferiram, por vezes, duas formas de conhecerem a História. No primeiro caso bem mais usual, temos as incansáveis leituras das crônicas, muito pelo seu aspecto narrativo, pitoresco e de realismo acentuado. Mas há, ainda, pesquisas isoladas feitas em documentos oficiais, manuscritos, relatos orais e publicações de artigos em periódicos, os quais são confidenciados aos leitores, por meio de notas finais, em suas introduções ou prólogos.

Com isso, houve por parte dos romancistas um furor na busca de fundamentação histórica, registros que esclarecessem a vida medieval nacional. O passado, então, funcionava como um script para o presente, lugar privilegiado para se conhecer as verdades religiosas e as intemporais paixões humanas. Mas como advertem Chaves (1979) e Marinho (1999), não foram todos os períodos históricos que os românticos privilegiaram. O medievalismo exagerado ocorreu somente na primeira fase romântica, atenuando-se a partir do segundo momento desta estética, conforme ilustra a obra de Rebello da Silva. Depois disso, houve um decréscimo do gênero, que passou a ficcionalizar um passado mais recente. Dessa lista se excetuam os romances históricos de Camilo que são elogiados pela crítica de Chaves, “[...] pela magia da linguagem em que estão escritos, pelo poder estético que possuem ali onde se fundem os elementos fictícios com elementos históricos, caldeados nas vivas paixões humanas” (CHAVES, 1979, p.54). Assim, o que importa, no final de contas, não é a descrição pormenorizada do ambiente, mas falar da essência humana, sem fazer parecer que é desta que se fala. Seja como for, romance histórico ou citadino, para Candido, o importante é reconhecer:

A ficção [...] [como] um lugar ontológico privilegiado: lugar em que o homem pode viver e contemplar, através de personagens variadas a plenitude da sua condição, e em que se torna transparente a si mesmo; lugar em que transformando-se de si mesmo, verifica, realiza e vive a sua condição fundamental de ser autoconsciente e livre, capaz de desdobrar-se, distanciar-se de si mesmo e de objetivar a sua própria situação. [...] Somente quando o apreciador se entrega com certa inocência a todas as virtualidades da grande obra de arte, esta por sua vez lhe entregará toda a riqueza encerrada no seu contexto (CANDIDO, [1968] s.d, p.38).

Posto isso, na próxima seção, pretendemos analisar as censuras feitas por Pinheiro Chagas a algumas obras de Arnaldo Gama, que sempre foi lembrado pela crítica pelo rigor histórico com que compunha os seus romances.


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Fonte:
Jane Adriane Gandra: “Pinheiro Chagas, um escritor olvidado”. (Tese apresentada ao Programa de Pós–Graduação em Estudos Comparados de Literaturas     de        Língua Portuguesa,     do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, como exigência para a obtenção do título de Doutor  em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernando da Motta de Oliveira). São Paulo, 2012.