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20/06/2015

Antologia Poética de Florbela Espanca

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Florbela e o feminismo


Florbela e o feminismo Em sua época, a poetisa Florbela Espanca era tratada com certo preconceito e hostilidade pela sociedade portuguesa. Com o passar do tempo e o gradual desenvolvimento dos movimentos feministas iniciados no século XIX, com um significativo avanço na segunda metade do século XX, a poetisa começa a ser redimida pela crítica portuguesa, que recupera sua biografia e sua obra.

A preocupação ou mesmo a consciência do papel que cabe à mulher e uma protoluta, se é que se pode chamar assim, pelos direitos da mulher, se delineavam em Florbela, embora ela não tivesse levantado bandeira feminista, e também não tivesse participado de movimentos feministas que protestavam contra a exclusão política da mulher. Segundo Rolando Galvão, a poetisa dedicava-se a uma vida pacata, sem envolvimento políticos ou sociais.

Os movimentos feministas não eram um fato novo na época em que Florbela vivia. No longínquo século XV podem ser encontrados textos dispersos, considerados fundadores do feminismo, escritos por mulheres, em cujos conteúdos se revelavam veementes protestos contra os preconceitos discriminatórios contra a mulher. Joan Scott aponta o início da luta das mulheres pelos seus direitos na Revolução Francesa, quando elas se sentiram excluídas pelas promessas de liberdade, igualdade universal e direitos políticos estendidos a todos. É nesse ambiente reivindicatório que o movimento feminista começa a ganhar forma. A exclusão feminina da política deu-se através de um discurso baseado na diferença sexual. Para Scott:

Quando se legitimava a exclusão com base na diferença biológica entre o homem e a mulher, estabelecia-se que a “diferença sexual” não apenas era um fato natural, mas também uma justificativa ontológica para um tratamento diferenciado no campo político e social.

Para Scott, o protesto feminista contra a exclusão política da mulher objetivava eliminar as diferenças sexuais na política, entretanto, ao defender as mulheres na tentativa de eliminar a “diferença sexual”, o feminismo, em nome dessas mulheres, alimentava ainda mais essa diferença. “Esse paradoxo – a necessidade de, a um só tempo, aceitar e recusar a ‘diferença sexual’ – permeou o feminismo como movimento político por toda sua longa história”.

 A exclusão das mulheres da vida política, intelectual e cultural levouas, gradativamente, a posicionar-se contra as práticas do poder masculino assumindo uma postura cada vez mais clara e responsável dentro da perspectiva da política feminista pela conquista dos direitos civis. Dentre esses direitos, podese destacar o direito à educação e à profissão. A postura reivindicatória assumida pelas mulheres representou um grande avanço na caminhada do feminismo, e pode ter tido um reflexo imediato na literatura escrita por mulheres. Zahidé Muzart afirma que a principal ligação do feminismo com a literatura aconteceu no século XIX, quando as mulheres resolveram sair do fechamento doméstico. Para Muzart, pode-se dizer que as mulheres escritoras, desejosas de viver da pena, e de serem escritoras profissionais, eram feministas, pois só o fato de saírem da esfera doméstica era um indício de possuírem uma cabeça pensante e um desejo de subversão. Na primeira metade do século XIX, as mulheres da classe média (especialmente na Inglaterra e na França) adentraram no universo da escrita sendo que as mulheres da aristocracia européia eram as únicas que, dados os seus privilégios de classe, podiam almejar ser escritoras, segundo Cláudia P. Alonso.

As feministas vão consolidando essa postura por meio de lutas, movimentos, numa longa caminhada de duras e pequenas conquistas políticas, intelectuais, sociais e culturais. Entretanto a mesma disposição das feministas não é percebida em Florbela, embora a insistência em fazer-se ouvir através de sua fala, de seus poemas, de seus escritos fizesse com que ela transgredisse regras, rompesse barreiras tanto na vida quanto na obra.

Agustina Bessa-Luís credita a forma de Florbela comportar-se e até mesmo a neurastenia que a acompanharia até o final de sua vida, à composição familiar a que foi submetida durante sua vida. Ao nascer foi colocada aos cuidados de sua madrinha e mulher legítima do pai, Mariana Toscano, que veio a falecer depois de ter se separado de João Maria Espanca. Após a morte da primeira madrasta, a poetisa teve um relacionamento amigável com a segunda madrasta. Apesar de ter recebido boa educação e nada lhe faltar, Florbela, desde muito cedo, conviveu com uma instabilidade familiar por conta dos amores que o pai colecionou vida afora e das mães com as quais teve que conviver.89 Esse modo de vida, a atitude, o comportamento de Florbela, de certa maneira, revolucionário, tanto na sua poesia quanto em sua vida, fez muitos críticos confundirem uma com a outra.

A associação que parece existir entre vida e obra de Florbela, talvez tenha feito com que os críticos encontrassem dificuldade em distinguir o que era da vida e o que era da obra da poetisa. Lúcia Castello Branco diz que poucos são os críticos que conseguiram distinguir os domínios da arte dos domínios da vida na produção poética das mulheres escritoras em geral. Para Haquira Osakabe, o fato de a poetisa ter se constituído mais como mito do que como escritora reconhecida pelos seus dotes literários foi, por vezes, favorável e em outras vezes se voltou contra ela. O autor alega que dificilmente se distinguirá com nitidez o que é da vida e o que é da obra em Florbela Espanca, pois ambas se atrelam e se subordinam à solidez do mito que por vias misteriosas se construiu. Nesse aspecto, a poetisa é aparentada de Mariana Alcoforado, embora haja uma diferença radical e escandalosa: enquanto as figuras femininas, incluindo Heloísa, foram possivelmente inventadas por mãos masculinas, Florbela foi inventada por si mesma.

As lutas feministas reivindicavam direitos políticos concernentes à individualidade e à cidadania; Florbela, por sua vez, reivindicava o direito ao prazer, à sensualidade em seus versos, sem se preocupar com a sua reputação. Com esta preocupavam-se os críticos que queriam salvar sua poesia, considerada, por eles, de inegável valor. Nessa tarefa, transformavam-se em defensores da moral das senhoras poetisas que tinham a coragem de declarar-se capazes de sentir prazer. Para Lúcia Castello Branco, a vida e a obra de Florbela foi inquieta e paradoxal. Ao mesmo tempo transitava entre a ousadia e o recato, entre a sensualidade insaciável e a santidade fanática, entre a paixão desenfreada e o amor fraterno-cristão. O fato de ser ao mesmo tempo desbocada e pudica, sensual e etérea rendeu-lhe uma intensa hostilidade pelos “decorosos senhores da literatura”. E é no auge de sua ousadia que o erotismo explode na sua poesia, sem medo de transgredir, sem culpa de ter transgredido. Em Florbela, o direito de conclamar o erotismo mais próximo da transgressão do que do sagrado, no livro Charneca em Flor, de alguma maneira se efetiva. Portanto, a interdição encontra uma certa libertação na sua poesia.

O fato de o tema da paixão, do erotismo aparecer com uma certa regularidade na poesia de Florbela, justifica os vários estudos que se encontram publicados a respeito dessa temática. Desde seus primeiros poemas publicados no livro Trocando Olhares delineiam-se as matrizes da paixão, do amor, da sensualidade filiadas ao erotismo. A cada livro essa tendência se consolidaria e ganharia espaço, configurando o seu texto poético como discurso feminino do erotismo, e que Rolando Galvão chama de “a intensidade de um transcendido erotismo feminino”.

Para Castello Branco, o erotismo é uma das questões mais delicadas e movediças quando se trata da escritura feminina. A autora assinala que o erotismo difuso ou canalizado para um objeto de prazer é tema recorrente na literatura feminina, e, determinante na obra de Florbela. E por ser tão visível e palpitante na sua obra é que os críticos, mesmo aqueles que se manifestaram na década de 20, se reportam ao tema do erotismo.

Para as mulheres de hoje, falar sobre e fazer sexo deixou de ser tabu. Não havendo mais interdição, conseqüentemente não há mais transgressão. Nos dias de hoje não é mais tabu falar sobre sexo no discurso literário feminino ou fora dele, na década de 20, a mulher que ousasse abordar o erotismo no seu discurso seria considerada imoral, “porque as mulheres não deviam falar nesse tom”. Florbela ousou erotizar seu discurso literário, por isso não é de se estranhar as críticas que recebeu e a crucificação a que foi submetida em sua época. Hoje, não são raros os críticos que a consideram uma heroína, uma precursora, um mito, a mesma Florbela considerada por seus contemporâneos como devassa, e todos os termos pejorativos e degradantes possíveis e imagináveis de uma sociedade que se considerava paladina da moral.


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Fonte:
Marly Catarina Soares
: “O místico e o erótico na poesia de Florbela Espanca”.  (Tese apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor no Curso de Pós-Graduação em Literatura, Doutorado em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC – sob a orientação da Profª Drª Simone Pereira Schmidt).  Florianópolis 2008

17/06/2014

Charneca em Flor, de Florbela Espanca

 Charneca em Flor, de Florbela Espanca PDF
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A superação da dor de amor


O luto da imagem, na medida em que não consigo levá-la a cabo, me angustia; mas, na medida em que consigo realizá-lo, me entristece. Se o exílio do Imaginário é a via necessária para a “cura” deve-se convir que nesse caso o progresso é triste. Essa tristeza não é uma melancolia incompleta (de modo algum clínica), pois não me acuso de nada e não estou prostrado. Minha tristeza pertence àquela orla da melancolia em que a perda do ser amado permanece abstrata. Dupla perda: nem mesmo posso investir em minha desgraça, como naquela época em que sofria por estar enamorado. Naquela época, eu desejava, sonhava, lutava; havia um bem diante de mim, simplesmente adiado, atravessado por contratempos. Agora, nada mais ressoa. Tudo está calmo, e é pior. Se bem que justificado por uma economia – a imagem morre para que eu viva -, o luto amoroso sempre deixa um resto: uma frase ressoa sem cessar: “Que pena!” (BARTHES, 2003, 187)

Esse luto amoroso descrito por Barthes neste fragmento, pode ser encontrado nas poesias de Florbela Espanca, figurado na morte da imagem do ser amado:

AMOR QUE MORRE

O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...
Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer
E são precisos sonhos pra partir.

Eu bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
Doutro amor impossível que há de vir!
(ESPANCA. In: Reliquiae, 1997, 288)

Esse soneto de Florbela Espanca é representativo da imagem do luto do amor. O eu-lírico tem a consciência de que o amor, o sentimento morreu. Foi necessário realizar o luto para evitar o sofrimento demasiado ou a evitar a formação de uma fantasia. Aparece ainda a imagem da cegueira novamente relacionada ao sentimento amoroso:

O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

No verso Bem estava a sentir que ele morria..., aponta de um sujeito que já conhece e pode prever as conseqüências de um enamoramento, reconhece assim, a efemeridade do sentimento:

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

O eu-lírico parece já ter vivido a mesma situação antes. A sua cegueira se contrapõe ao abrir dos olhos e enxergar um outro clarão que estar por vir, e esse clarão, nada mais é, mais um novo amor. O amor, o sentimento, que não passava de um engano, se esvai. Reconhece o eu-lírico o amor enquanto sentimento efêmero quando afirma a vinda da luz doutra miragem fugidia. O amor é uma miragem - o que se vê não é a realidade -, além de ser efêmero.

Apesar de enganoso e fugidio, e de ser um sentimento relacionado à dor, morte, aniquilação do sujeito, o amor também, reconhece o eu-lírico, é essencial para a vida:

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer
E são precisos sonhos pra partir.


Confirma-se, mais uma vez, o paradoxo vidamorte do amor na obra poética de Florbela Espanca: o amor é princípio e fim, parafraseando um de seus poemas. Entretanto, após a morte, a destruição, vem a reconstrução, e essa depende do sonho. É necessário sonhar para conseguir abandonar os velhos sentimentos. Do velho sentimento resta, apenas, a esperança para viver um outro amor, mesmo reconhecendo a sua efemeridade:

Eu bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
Doutro amor impossível que há de vir!

Na obra de Florbela, o luto, o esquecimento de um amor está relacionado à condição da vida:

A VIDA

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés d’alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo “Pedro Sem”,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo d’onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem dum dia.
Que queres, meu Amor, se isto é a Vida!...
(ESPANCA. In: Livro de “Sóror Saudade”, 1999, 195)

Podemos observar no soneto, mais uma vez, a percepção do eu-lírico em relação à efemeridade dos sentimentos: amor, ódio, desdém. Qualquer tipo de sentimento, assim como o desejo é inútil:

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés d’alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

A ilusão do amor se desfaz, e o que resta é a nostalgia, uma saudade que parecia adormecida, mas logo se desfaz:

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

A efemeridade do amor não permite a eternidade deste. Acabamos por esquecer o que um dia nos foi importante. Essa é a condição da vida:

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem dum dia.
Que queres, meu Amor, se isto é a Vida!...

A morte do amor é condição para o surgimento de outro amor, como vimos no soneto Amor que morre. É nesse ponto em que na poesia de Florbela aparece a temática que é a negação do único e grande amor e o encontro com vários amados:

Assim se fecha um ciclo: espera do amante-amado; encontros com vários amados; sentimento do desencontro; negação do amor único e do grande amor; entrega ao amar só por amar, com recusa de pertencer a alguém; total decepção do amor dos homens; apelo para um Deus que não virá.(RÉGIO, José. In: Sonetos de Florbela Espanca, 1984, 24) 
Em várias poesias de Florbela percebemos a presença da temática da inconstância do objeto de amor, o que exprime a própria condição da pulsão (rever conceito de pulsão no Capítulo I). A dinâmica do desejo permite que este se realize em vários objetos de amor. Não existe a completude procurada pelo sujeito. Um outro não totaliza o que é desejado, procurado. Um outro ser não é capaz de preencher a falta do sujeito. A incompletude reina, então.

AMAR!

Eu quero amor, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba prender... pra me encontrar...
(ESPANCA. In: Charneca em flor, 1999, 232)

O soneto acima confirma a dialética do objeto de desejo através da multiplicidade do verbo amar. Amar a todos é o que importa, não importa a quem, ou seja, o objeto sempre substitui um outro que já partiu, e assim, não amar a ninguém, que representa a consolidação do desejo no simbólico:

Eu quero amor, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Assim se confirma também, mais uma vez, a efemeridade do sentimento:

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Torna-se indiferente qualquer tipo de sentimento, pois não perduram. Eles duram um tempo determinado, que no soneto é representado pela estação da primavera, que é a estação do desabrochar das flores, que aqui pode remeter ao desabrochar do sentimento, do desejo:

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz foi pra cantar!

Reconhece-se, assim, a multiplicidade dos sentimentos que a obra de Florbela comporta. Partindo do desejo suscitado com o olhar, passamos pela vassalagem amorosa, chegando ao olhar negado, responsável pela dor e angústia do sujeito. A conseqüência da dor é o luto ou a fantasia de um amor. Completa-se o ciclo com a busca de um novo objeto de amor.

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Fonte:
Michelle Vasconcelos Oliveira do Nascimento
: “Trocando olhares: o desejo, o amor, a angústia e a dor na Poesia de Florbela Espanca”. (Dissertação apresentada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito de conclusão do Mestrado em Literatura Comparada, sob a orientação do Prof. Dr. Marcos Falchero Falleiros). Natal/RN, 2005.

Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível em: ftp.ufrn.br

08/06/2014

Livro de Sóror Saudade, de Florbela Espanca

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A presença de Florbela Espanca no Modernismo Português

Se o Modernismo representa um momento de ruptura, talvez tenha sido Florbela Espanca a escolhida para ter essa “alma nova” que as mulheres começavam a reivindicar. Florbela D’Alma da Conceição Espanca nasceu a 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa (Alentejo). Foi, portanto, contemporânea de Fernando Pessoa cujo centenário ocorreu em 1988. Seus primeiros versos datam dos anos em que fez o curso sencundário em Évora, e que somente viriam a ser reunidos em volume depois de sua morte, com o titulo de Juvenilia (!931). Malogrado seu casamento, vai para Lisboa, a fim de estudar Direito e nesse mesmo ano (1919) publica Livro de Mágoas, que passa despercebido. Igual destino teve a obra seguinte Livro de Sóror Saudade, publicado em 1923. Novamente infeliz no casamento, retira-se do convívio social, embora continue a escrever poesia e a publicá-la ao acaso. Recolhe-se a Matosinhos, já agora estimulada pelas renovadas esperanças de felicidade conjugal, mas seus nervos entram a dar sinal de exaustão. Morre, talvez de suicídio, em 1930.

A poetisa viveu em um tempo muito conturbado em que ocorre a Primeira Guerra Mundial (1914). Antes disso, em seu país, Florbela presenciou a Monarquia dar lugar à República (1910). Ademais, ela assistiu à implantação de uma ditadura fascista em Portugal, com o golpe militar de 28 de maio de 1926.

Politicamente, Florbela se mantinha conservadora. E não foi apenas em política. No momento em que surgia o Modernismo à procura de novos meios de expressão, novas perspectivas e diretrizes para a arte e a literatura, Florbela Espanca passava à margem de vanguardismos.

Para uma leitura em profundidade da obra de Florbela Espanca, devemos considerar que ela está em sintonia com o Romantismo e suas manifestações correlatas com as da dor, do amor, da morte, da melancolia, do gosto por cenários noturnos, do sonho, do pessimismo, da solidão, do saudosismo, do apego à natureza, de Deus.

É no lirismo finissecular que recaem as opções estéticas de Florbela. Há no percurso de sua evolução poética afinidades eletivas provindas dessa fonte.

Desse modo, Florbela faz, em seus poemas, referências expressas a Antônio Nobre, sintonizando-se com ele ao tratar da temática da mágoa, do neogarretismo que era típico dele, de um certo saudosismo que vigorava na época em Portugal, da coloquialidade freqüente nos sonetos, da solidariedade na dor.

Outra afinidade eletiva ocorre com Antero de Quental. Ela se identifica com o poeta na forma de vivenciar a dor existencial, no gosto pelas alegorias e, sobretudo, na escolha formal do soneto. Esta forma clássica provém também do lirismo camoniano. Um verso de Camões, “É um não querer mais que bem querer”, consta como tema de um ciclo de dez sonetos de Florbela.  

Ademais, a poetisa desenvolve os temas presentes no Simbolismo Português, como a busca amorosa, o sentimento de mágoa, o “carpe diem”, a fugacidade do tempo, revelando a influência de Camilo Pessanha.

Florbela usou em seus livros epígrafes de Eugênio de Castro, Paul Verlaine, Maeterlink, Rubén Dario, estabelecendo relações intertextuais com estes poetas.

Embora contemporânea do Modernismo Português, Florbela não se identificou com as suas ousadas experimentações. Há que se considerar, no entanto, a aproximação de Florbela com Mário de Sá-Carneiro na forma e no estilo: ambos constroem uma poética de excessos, conjugam o jogo heteronímico da ocultação e mantêm as afinidades das pretensões de fundir realidade e sonho: “optam pela ênfase nos mesmos núcleos temáticos: amor e morte, loucura e lucidez, luxo e sombras, plenitude e incompletude”, conforme nos diz José Rodrigues de Paiva em “O tecer da poesia em Florbela Espanca”.

Nos traços alegóricos, a presença do ouro, tantas vezes indicada de modo disperso em Florbela, também corresponde às imagens do universo semântico de Sá-Carneiro. E é nas alegorias que o recurso sinestésico, tão recorrente em ambos, ocorre em exuberâncias: “profusão de roxos, rosas, lilases, brancos, azuis, amarelo e ouro, é comum à imagética dos dois poetas”.

No plano existencial, representado poeticamente, instalam-se rompantes de um temperamento extremado que oscilam da euforia à mais profunda prostração:

(...) encontra-se nos dois o que pode ser lido como crise do sujeito, questionamento da identidade, dicotomia sinceridade/fingimento (à Pessoa) e que se representa pelo recorrente jogo entre “eu/não-eu, eu/outro, eu/outros”.

A presença de um outro, como duplo da personalidade enunciadora, constitui um traço fundamental que identifica o poema florbeliano e o poema de Sá-Carneiro. Nos versos do soneto “Eu não sou de ninguém”, do livro Reliquae, temos:

Há de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento
Astro arrastando catadupas de astros!

E nos versos de “Eu”, soneto de Mário de Sá-Carneiro, temos:

Eu não sou eu nem sou o outro
Sou qualquer coisa de intermédio
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro

Como Mário de Sá-Carneiro, Florbela buscou a fusão entre a vida e a arte, o que, segundo José Rodrigues de Paiva, foi desastroso para ambos. Há neles a mesma ânsia de tocar as regiões limítrofes de suas identidades, um dos fatores que, segundo o mesmo teórico, podem conduzir à prática heteronímica, a mesma abordagem do tema da morte, o mesmo gosto pelos símbolos e cenários decadentistas.

Rodrigues Paiva conclui seu estudo acerca de Florbela, afirmando que a poetisa pertence a uma linhagem de poetas para os quais não se tem esteticamente uma classificação única e definitiva: “Aparentada a clássicos e românticos, saudosistas, simbolistas e modernistas, Florbela Espanca marca o seu lugar, naturalmente integrada à família do melhor lirismo português.  Desse modo, Florbela, no livro Charneca em Flor, retoma o verso camoniano “É um não querer mais que bem querer” como tema para um ciclo de dez sonteos de amor, aparentando-se aos clássicos.

Já no soneto “Sem remédio”, existe uma influência românctica, um estado de espírito baudelaireano que nos remete à dor:

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou. 

No poema “Languidez”, do Livro de Mágoas, temos a existência de um lusitanismo que aproxima a poetisa do saudosismo, assim:

Tardes da minha terra, doce encanto,
Tardes duma pureza de açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes de Anto.
  
No que diz respeito à proximidade de Florbela à poetica decadentista, temos o poema  “Outonal” (Charneca em flor, p133):?

Caem as folhas mortas sobre o lago!
Na penumbra outonal, não sei quem tece.
As rendas do silêncio... Olha, anoitece!
Brumas longinquas do País Vago...
  
Finalmente, existe em Florbela Espanca a influência de Sá-Carneiro e de Fernando Pessoa.

Desse modo, no poema florbeliano “Eu” (Charneca em flor, p120), temos o jogo de  alteridade Eu/ Outro (s), o que aproxima Florbela de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), sobretudo no poema “Eu”, já citado:

Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que me meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia. 

Ocorre tanto em Florbela Espanca quanto em Mário de Sá-Carneiro um sinal de transbordamento dos limites da identidade, que me Fernando Pessoa é uma das vias de interpretação da prática heteronímica.


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Fonte:
Silvia Helena Miguel Trevisan: “A metapoesia na obra de Florbela Espanca e Cecília Meireles”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação da área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa do curso de Letras – FFLCH – Universidade de São Paulo – USP, como exigência parcial para obtenção do título de Doutora, sob a orientação da Prof. Dra. Maria Aparecida de Campos Brando Santilli). São Paulo, 2007.


Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível em: 
www.teses.usp.br

Reliquiae, de Florbela Espanca

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Florbela e o feminismo
  
Em sua época, a poetisa Florbela Espanca era tratada com certo preconceito e hostilidade pela sociedade portuguesa. Com o passar do tempo e o gradual desenvolvimento dos movimentos feministas iniciados no século XIX, com um significativo avanço na segunda metade do século XX, a poetisa começa a ser redimida pela crítica portuguesa, que recupera sua biografia e sua obra.

A preocupação ou mesmo a consciência do papel que cabe à mulher e uma protoluta, se é que se pode chamar assim, pelos direitos da mulher, se delineavam em Florbela, embora ela não tivesse levantado bandeira feminista, e também não tivesse participado de movimentos feministas que protestavam contra a exclusão política da mulher. Segundo Rolando Galvão, a poetisa dedicava-se a uma vida pacata, sem envolvimento políticos ou sociais.

Os movimentos feministas não eram um fato novo na época em que Florbela vivia. No longínquo século XV podem ser encontrados textos dispersos, considerados fundadores do feminismo, escritos por mulheres, em cujos conteúdos se revelavam veementes protestos contra os preconceitos discriminatórios contra a mulher. Joan Scott aponta o início da luta das mulheres pelos seus direitos na Revolução Francesa, quando elas se sentiram excluídas pelas promessas de liberdade, igualdade universal e direitos políticos estendidos a todos. É nesse ambiente reivindicatório que o movimento feminista começa a ganhar forma. A exclusão feminina da política deu-se através de um discurso baseado na diferença sexual. Para Scott:

Quando se legitimava a exclusão com base na diferença biológica entre o homem e a mulher, estabelecia-se que a “diferença sexual” não apenas era um fato natural, mas também uma justificativa ontológica para um tratamento diferenciado no campo político e social.

Para Scott, o protesto feminista contra a exclusão política da mulher objetivava eliminar as diferenças sexuais na política, entretanto, ao defender as mulheres na tentativa de eliminar a “diferença sexual”, o feminismo, em nome dessas mulheres, alimentava ainda mais essa diferença. “Esse paradoxo – a necessidade de, a um só tempo, aceitar e recusar a ‘diferença sexual’ – permeou o feminismo como movimento político por toda sua longa história”.

A exclusão das mulheres da vida política, intelectual e cultural levou-as, gradativamente, a posicionar-se contra as práticas do poder masculino assumindo uma postura cada vez mais clara e responsável dentro da perspectiva da política feminista pela conquista dos direitos civis. Dentre esses direitos, pode-se destacar o direito à educação e à profissão. A postura reivindicatória assumida pelas mulheres representou um grande avanço na caminhada do feminismo, e pode ter tido um reflexo imediato na literatura escrita por mulheres. Zahidé Muzart afirma que a principal ligação do feminismo com a literatura aconteceu no século XIX, quando as mulheres resolveram sair do fechamento doméstico. Para Muzart, pode-se dizer que as mulheres escritoras, desejosas de viver da pena, e de serem escritoras profissionais, eram feministas, pois só o fato de saírem da esfera doméstica era um indício de possuírem uma cabeça pensante e um desejo de subversão. Na primeira metade do século XIX, as mulheres da classe média (especialmente na Inglaterra e na França) adentraram no universo da escrita sendo que as mulheres da aristocracia européia eram as únicas que, dados os seus privilégios de classe, podiam almejar ser escritoras, segundo Cláudia P. Alonso.

As feministas vão consolidando essa postura por meio de lutas, movimentos, numa longa caminhada de duras e pequenas conquistas políticas, intelectuais, sociais e culturais. Entretanto a mesma disposição das feministas não é percebida em Florbela, embora a insistência em fazer-se ouvir através de sua fala, de seus poemas, de seus escritos fizesse com que ela transgredisse regras, rompesse barreiras tanto na vida quanto na obra.

Agustina Bessa-Luís credita a forma de Florbela comportar-se e até mesmo a neurastenia que a acompanharia até o final de sua vida, à composição familiar a que foi submetida durante sua vida. Ao nascer foi colocada aos cuidados de sua madrinha e mulher legítima do pai, Mariana Toscano, que veio a falecer depois de ter se separado de João Maria Espanca. Após a morte da primeira madrasta, a poetisa teve um relacionamento amigável com a segunda madrasta. Apesar de ter recebido boa educação e nada lhe faltar, Florbela, desde muito cedo, conviveu com uma instabilidade familiar por conta dos amores que o pai colecionou vida afora e das mães com as quais teve que conviver. Esse modo de vida, a atitude, o comportamento de Florbela, de certa maneira, revolucionário, tanto na sua poesia quanto em sua vida, fez muitos críticos confundirem uma com a outra.

A associação que parece existir entre vida e obra de Florbela, talvez tenha feito com que os críticos encontrassem dificuldade em distinguir o que era da vida e o que era da obra da poetisa. Lúcia Castello Branco diz que poucos são os críticos que conseguiram distinguir os domínios da arte dos domínios da vida na produção poética das mulheres escritoras em geral. Para Haquira Osakabe, o fato de a poetisa ter se constituído mais como mito do que como escritora reconhecida pelos seus dotes literários foi, por vezes, favorável e em outras vezes se voltou contra ela. O autor alega que dificilmente se distinguirá com nitidez o que é da vida e o que é da obra em Florbela Espanca, pois ambas se atrelam e se subordinam à solidez do mito que por vias misteriosas se construiu. Nesse aspecto, a poetisa é aparentada de Mariana Alcoforado, embora haja uma diferença radical e escandalosa: enquanto as figuras femininas, incluindo Heloísa, foram possivelmente inventadas por mãos masculinas, Florbela foi inventada por si mesma.

As lutas feministas reivindicavam direitos políticos concernentes à individualidade e à cidadania; Florbela, por sua vez, reivindicava o direito ao prazer, à sensualidade em seus versos, sem se preocupar com a sua reputação. Com esta preocupavam-se os críticos que queriam salvar sua poesia, considerada, por eles, de inegável valor. Nessa tarefa, transformavam-se em defensores da moral das senhoras poetisas que tinham a coragem de declarar-se capazes de sentir prazer. Para Lúcia Castello Branco, a vida e a obra de Florbela foi inquieta e paradoxal. Ao mesmo tempo transitava entre a ousadia e o recato, entre a sensualidade insaciável e a santidade fanática, entre a paixão desenfreada e o amor fraterno-cristão. O fato de ser ao mesmo tempo desbocada e pudica, sensual e etérea rendeu-lhe uma intensa hostilidade pelos “decorosos senhores da literatura”. E é no auge de sua ousadia que o erotismo explode na sua poesia, sem medo de transgredir, sem culpa de ter transgredido. Em Florbela, o direito de conclamar o erotismo mais próximo da transgressão do que do sagrado, no livro Charneca em Flor, de alguma maneira se efetiva. Portanto, a interdição encontra uma certa libertação na sua poesia.

O fato de o tema da paixão, do erotismo aparecer com uma certa regularidade na poesia de Florbela, justifica os vários estudos que se encontram publicados a respeito dessa temática. Desde seus primeiros poemas publicados no livro Trocando Olhares delineiam-se as matrizes da paixão, do amor, da sensualidade filiadas ao erotismo. A cada livro essa tendência se consolidaria e ganharia espaço, configurando o seu texto poético como discurso feminino do erotismo, e que Rolando Galvão chama de “a intensidade de um transcendido erotismo feminino”.

Para Castello Branco, o erotismo é uma das questões mais delicadas e movediças quando se trata da escritura feminina. A autora assinala que o erotismo difuso ou canalizado para um objeto de prazer é tema recorrente na literatura feminina, e, determinante na obra de Florbela. E por ser tão visível e palpitante na sua obra é que os críticos, mesmo aqueles que se manifestaram na década de 20, se reportam ao tema do erotismo.

Para as mulheres de hoje, falar sobre e fazer sexo deixou de ser tabu.

Não havendo mais interdição, conseqüentemente não há mais transgressão. Nos dias de hoje não é mais tabu falar sobre sexo no discurso literário feminino ou fora dele, na década de 20, a mulher que ousasse abordar o erotismo no seu discurso seria considerada imoral, “porque as mulheres não deviam falar nesse tom”.

Florbela ousou erotizar seu discurso literário, por isso não é de se estranhar as críticas que recebeu e a crucificação a que foi submetida em sua época. Hoje, não são raros os críticos que a consideram uma heroína, uma precursora, um mito, a mesma Florbela considerada por seus contemporâneos como devassa, e todos os termos pejorativos e degradantes possíveis e imagináveis de uma sociedade que se considerava paladina da moral.


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Fonte:
Marly Catarina Soares: “O místico e o erótico na poesia de Florbela Espanca”. (Tese   apresentada             como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor no Curso de Pós-Graduação em Literatura,      Doutorado     em      Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC – sob a 
orientação da Profª Drª Simone Pereira Schmidt). Florianópolis, 2008.

Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível em: repositorio.ufsc.br