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03/10/2015

A imprensa e o dever da verdade (Discurso), de Rui Barbosa

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A questão da escravidão 

"A medida que a pressão externa e o descontentamento interno iam crescendo, tomava impulso o movimento abolicionista brasileiro, defendendo que o trabalho escravo precisava ser superado, porque se tornara demasiado custoso economicamente, somado a argumentos que brandiam pela liberdade total dos homens modernos. Nas primeiras fileiras da batalha travada contra a escravidão, esteve Rui Barbosa.11 Desde seus primeiros trabalhos como jornalista, opôs-se a escravidão por conta das conseqüências morais e sociais que, segundo ele, justificavam-se, em grande parte, pela presença do elemento servil na sociedade. A este respeito teceu considerações no texto Elogio de Castro Alves, publicado no ano de 1869 no Radical Paulistano.

Ora, o elemento servil e o cunho negro de toda a nossa historia, e a extinção do elemento servil será a fimbria luminosa de todo o nosso futuro. A ignomínia que barbariza e desumaniza o escravo, conspurca a família livre, escandaliza no lar domestico a pureza das virgens e a castidade das mães; perverte irreparavelmente a educação de nossos filhos; atrofia nossa riqueza; explica todos os defeitos do caráter nacional, toda a indolência do nosso progresso, todas as lepras da nossa política, todas as decepções das nossas reformas, todas as sombras do nosso horizonte. O abolicionismo e a expressão da mais inflexível das necessidades sociais (BARBOSA, 1956, p. 38).

E, em 1875, Rui Barbosa publicou, no Diário de Notícias as “Senhoras da Bahia”, o texto Pelos Escravos, no qual os comparou com as plantas, tendo o poder de fertilizar o globo quando banhado nas ondas luminosas da liberdade, ou encher de morte a atmosfera empobrecida quando reduzido na opressão. E ainda, com formosidade poética, ele comparou a situação do escravo na senzala a de um vegetal deixado na escuridão que, enfim, encontraria a claridade quando liberto.

Vereis o pobre vegetal supliciado, exausto e desbotado de saudades do sol, crescer no meio da sua tristeza, estender dia a dia o colo filiforme, despido e pálido; serpear; retrair-se diante dos obstáculos, e margina-los; sumir-se pelo chão, e ressurgir; dilatar-se persistente, incessante, infatigável; subir, estirando-se pela parede negra da galeria; apalpar-lhe as saliências; enfiar-se por algum interstício inexplorado, longo, tortuoso, estreito; atirar-se, onde ninguém pensara, por alguma fisga imperceptível do solo; evadiar-se, afinal, através do relvado, a prisão subterrânea; e, saudando, no seu verdor mal corado ainda, as florinhas do campo, receber avidamente o primeiro beijo dos esplendores do dia (BARBOSA, 1956, p. 13).

A escuridão da senzala em que viviam os escravos, para Rui Barbosa, expandia a escuridão da sociedade brasileira; nesse sentido, devolver a luz aos escravos significava libertar seus corpos da situação de exploração em que viviam, para que pudessem desenvolver cada um as suas capacidades e coloca-las a serviço da nação. No processo de modernização social, política e econômica, a abolição representaria a disseminação da luminosidade irradiada pelos princípios liberais burgueses, bem como um passo fundamental para a retirada do pais da penumbra subterrânea, conduzindo ao vislumbre do arrebol.

Apesar do combate em prol do abolicionismo e do reconhecimento das vantagens do trabalho livre, a produção com base no trabalho compulsório se reproduziu no pais, especialmente em setores econômicos como a cafeicultura, no qual, mesmo com a alta do preço dos escravos, a lucratividade da produção permitia a continuidade do processo, dado que a extração da mais valia era integral. Contudo, ja no ano de 1880, havia, no pais, novos indivíduos livres da escravidão, como exemplo, a “Lei do Ventre Livre” libertara os filhos das escravas nascidos pos 1871; e, ainda, destacou-se a atuação das sociedades abolicionistas que utilizavam de fundos para libertar os escravos, ou mesmo a liberdade fornecida pelos patrões individualmente. A presença destes novos libertos, em conjunto com outras alterações, passou a exigir da sociedade brasileira e da elite dirigente atitudes de enfrentamento ante a nova situação social. A reorganização do espaço social, em decorrência destas mudanças, exigia que se buscasse um ordenamento, ainda que confuso.”

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Fonte:
Sérgio Henrique Gerelus: “RUI BARBOSA E A EDUCAÇÃO DO CORPO NA REFORMA DO ENSINO PRIMÁRIO”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação, Área de Concentração: Fundamentos da Educação, da Universidade Estadual de Maringá, para a obtenção do título de Mestre em Educação. Orientadora: Profa. Dra.: Maria Cristina Gomes Machado). Maringá, 2007.

14/09/2015

Oração aos Moços, de Rui Barbosa


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Rui Barbosa e a Educação Brasileira

“Rui Barbosa foi um dos marcantes intelectuais da história da nação brasileira, lutou, entre muitas das questões que defendia, em prol da instrução popular. Ele sempre esteve presente nos mais diferentes “campos de luta” e, durante o Brasil Imperial até sua transição como República, não foram poucas as questões que Rui Barbosa defendeu, entre elas: a luta pela libertação dos escravos, a Reforma eleitoral, a Constituição Republicana, assim como a fervorosa defesa a favor da modernização do país. Porém é na faceta de Rui Barbosa como educador, ou melhor, é como defensor da instrução pública que objetiva-se o aprofundamento, averiguando suas propostas expressas em seus pareceres sobre o ensino secundário, superior e primário, analisando a situação do ensino no país e a participação dos agentes históricos na construção e entendimento da história educacional brasileira.

Rui Barbosa nasceu em Salvador, Bahia, em 5 de novembro de 1849, sua mãe era prima de seu pai, o pai dele tinha um forte apego pelo ideário liberal, legado da Revolução Francesa. Em 1866, foi para Recife estudar direito e depois transferiu-se para São Paulo, as faculdades em seu tempo serviam para criar uma elite administrativa capaz de organizar e governar o nascente Estado nacional.

A formação em Direito consistia de um treinamento para a ocupação de postos burocráticos importantes, sendo a homogeneidade de socialização, de visão de mundo e de valores que era um dos seus principais efeitos – o que um dia chegara a garantir a manutenção da frágil unidade política da ex-colônia (GONÇALVES, 2000, p. 20).

Em ambiente acadêmico, já se ouviam murmúrios de que Rui Barbosa fazia parte do clã que apoiava as reformas liberalizantes. As técnicas de oratória, os valores do liberalismo europeu e a política do partido liberal faziam parte de sua vida. Rui Barbosa defendeu com muito afinco, como já foi citado anteriormente, a questão da abolição da escravatura, inclusive propõe na Loja América, maçonaria a qual freqüentava, que os maçons libertassem o ventre das escravas. Isso lhe rendeu boas discussões, até com seu professor que acabou abandonando a maçonaria.

Ele acreditava que a tribuna e a política seriam mais poderosas se estivessem munidas das belas-letras, que significava a palavra bem trabalhada. Imbuído de audácia política e de liberdade, iniciou sua luta pela modernização política do país. Rui Barbosa possuía, contudo, uma doença desconhecida, que permitia concluir que seu futuro era incerto, levando-o, muitas vezes, a se ausentar para tratamento. Apesar disso, nunca deixou que suas crenças esmoressem, voltando cada vez mais determinado toda vez que restabelecia sua saúde (GONÇALVES, 2000).

Durante o término de sua faculdade, Rui Barbosa foi acometido por esta doença e, durante este período, ficou em tratamento durante algum tempo. Quando seu pai faleceu, voltou à casa dele e constatou que o mesmo estava passando por muitas dificuldades financeiras e não havia lhe deixado nenhuma fortuna. Rui Barbosa tomou para si as dívidas contraídas por seu progenitor, como sinal de decência e consideração. Assim, notamos que ele não herdou do pai fortunas, mas sim um importante capital social. O pai de Rui Barbosa era médico, mas sua grande paixão sempre fora a política, seu pai lhe deixara um legado importante de amigos ilustres, que muito lhe serviram nos momentos em que mais precisou, ajudando-o a ascender socialmente. Os amigos que seu pai fizera foram valiosíssimos, entre eles destaca-se Manuel de Souza Dantas, que foi um grande amigo e o influenciou e o ajudou em muitos momentos de sua vida, introduzindo-o no cenário da vida política.

Rui Barbosa começou atuando como advogado, em 1872, no escritório do padrinho Manuel de Sousa Dantas, que foi o responsável pelo seu encaminhamento como político em nível nacional. Colaborou também no jornal Diário da Bahia, que era de seu padrinho; atuando como advogado e jornalista. Tornou-se muito amigo de Rodolfo Dantas, importante político baiano, filho de Manuel Rodolfo Dantas, que proporcionou a Rui Barbosa uma viagem de quatro meses à Europa para tratar da saúde.

No jornal, Rui Barbosa deslanchou uma campanha em prol das eleições diretas, umas das maiores bandeiras do Partido Liberal. Deste modo, em cada época de sua vida, levantava uma bandeira e se dedicava totalmente, estudando com afinco a cada uma de suas causas, pelas quais se debruçava com ardor. Ele inspirava-se nos ideais ingleses e defendia arduamente a maneira como estes conduziam seu país.

Em 1876, apaixonou-se por Maria Augusta e foi para o Rio de Janeiro angariar fundos para seu casamento, tanto sua viagem como sua estadia foram patrocinadas por seus amigos. Na corte, trabalhava no jornal liberal “A Reforma” e atacava veemente os conservadores. Defendia a separação entre o Estado e a Igreja, fez a tradução de “O Papa e o Concílio”, a pedido de Saldanha Marinho, que garantiu a Rui Barbosa a compra de 1500 exemplares da obra pela maçonaria. Ao fazer a tradução, acrescentou uma introdução mais extensa que o livro, o que lhe rendeu inimigos para o resto de sua vida.

Ao retornar a Salvador, casou-se e sua lua-de-mel foi interrompida por contrair tifo. Ao se restabelecer, assumiu o Diário da Bahia devido ao afastamento de Rodolfo Dantas. Nesse momento, o partido liberal assumiu o poder com o Gabinete Sinimbu e Rui Barbosa tornou-se deputado provincial e depois geral. Novamente, contou com o apoio do padrinho, visto que não havia campanhas, somente arranjos internos.

Com o passar do tempo, Rui Barbosa foi se destacando e, juntamente com ele a fama de tribuno eloquente, corajoso e devastador. Escreveu o projeto de reforma eleitoral, que estabelecia eleições legislativas diretas; o projeto foi aprovado em 1881. Como relator do projeto, acrescentou mais tópicos que os sugeridos por Saraiva, que foi quem o nomeou. O projeto ficou conhecido, após a aprovação, como Lei Saraiva ou Lei do Censo, a qual mantinha o voto censitário e vetava os analfabetos de votarem.

Ele entendia que o progresso não seria alcançado se não fossem mudadas as relações de trabalho e modernizada a sociedade civil. Nesse processo, envolveu-se com as questões mais polêmicas, como a separação entre a Igreja e o Estado, o casamento civil, a secularização dos cemitérios, a questão eleitoral, a abolição, a imigração e a importância de se incentivar a industrialização no país (MACHADO, 2002, p. 30).

Em 1882, começou seu segundo mandato parlamentar, com o gabinete liberal de Martinho Campos, e Rui Barbosa se lançou esperançoso num projeto que há muito desejava a reforma do ensino. Durante o período imperial (1822-1889), a instrução primária era privilégio usufruído somente para os mais favorecidos, ou seja, as famílias abastadas eram as únicas que podiam encaminhar seus filhos aos estudos, que, na maioria das vezes, ocorriam por meio de preceptores. Em relação ao ensino elementar, mantinha-se a Escola de Primeiras Letras, do Decreto de 1827, na capital do Império como nas províncias. Essa lei vigorou até o ano de 1834, e no Município da Corte até 1854, quando foi aprovada e colocada em execução a Reforma de Couto Ferraz, que estabelecia a obrigatoriedade do ensino elementar, vigorava o princípio da gratuidade que fora estabelecida pela constituição, impedia o acesso de escravos ao ensino público e previa a criação de classes específicas para adultos que não sabiam ler nem escrever.

Este decreto tem como objetivo criar as condições para o estabelecimento da liberdade de ensino, em vários níveis de abrangência. Membro do Partido Liberal, que assume o poder em 1878, Leôncio de Carvalho, Ministro dos Negócios do Império, assume a tarefa de encaminhar uma solução à questão educacional cuja precariedade e insuficiência vem se avolumando a concretizar as diretrizes de seu Partido, que defende a necessidade de instrução para todos os brasileiros (VALDEMARIN, 2000, p. 23).

Em seguida, Rui Barbosa redigiu seus pareceres. Esses pareceres originaram-se da análise do Decreto nº 7.247, de 19 de abril de 1879, que reformava o ensino primário e secundário no município da Corte e o ensino superior em todo o Império.

No Brasil, a preocupação em torno da difusão da educação do povo e da organização de um sistema nacional de ensino, considerados como fundamentais para criar a unidade da nação, orientava os discursos da imprensa, dos educadores, publicistas e, sobretudo, dos parlamentares da época. Aos olhos desses homens, a educação poderia encaminhar a solução para os problemas que advinham da precária unidade nacional, através de uma formação comum, mobilizando nacionais e imigrantes em torno de uma idéia-força, de uma alma nacional, considerada como fundamental para conduzir o País ao desenvolvimento e à modernização (SCHELBAUER, 1998, p. 64).

O Decreto foi apresentado pelo ministro Carlos Leôncio de Carvalho, membro do gabinete liberal, presidido por Cansassão de Sinimbu, num momento em que crescia o interesse pela instrução pública.

A pressa de Leôncio de Carvalho na execução dessa reforma pode ser explicada pelo fato de ser o ano de 1879 decisivo para os filhos de escravas, nascidas em 1871 após a Lei do Ventre Livre, quando estariam em idade escolar. Contudo Leôncio de Carvalho não refere essa criança em nenhuma passagem do relatório Brasil, 1878 ou do Decreto, bem como não proibia o escravo de freqüentar a escola, como estava posto no regulamento de Couto Ferraz, de fevereiro de 1854, que vetava a frequência de escravos nas escolas, juntamente com os doentes e não vacinados [...] (MACHADO, 2005, p. 94).

Esse Decreto foi submetido à apreciação da Comissão de Instrução Pública, composta por Rui Barbosa, relator, Thomaz do Bonfim Spinola e Ulisses Viana. Dessa forma, Rui Barbosa teve a oportunidade de escrever os pareceres sobre a “Reforma do Ensino Primário, Secundário e Superior”. No Decreto de Leôncio de Carvalho, ficou explícita a prioridade da iniciativa particular, devendo o Estado basear sua ação na retirada de empecilhos que pudessem atravancar essa proposta. Leôncio de Carvalho defendia que a sociedade se auto-ajustaria pelas próprias condições do capitalismo.

Motivado pelos modelos estrangeiros, Leôncio de Carvalho deu direito a indivíduos da sociedade que por ora não existiam. Não podiam existir indivíduos ou instituições particulares que fossem impedidos de abrir escolas, que pudessem dar vida e realidade à sociedade que se regularia pela livre competição que se pensava criar. Não existindo demanda real para a abertura de estabelecimentos particulares, o Decreto expressava a intenção de seus autores de restringirem a ação governamental na educação e delegarem aos particulares esta competência. Mas, ao fazer isso, tornava-se contraditório com seus próprios termos, isto é, usava da lei, por definição, um mecanismo de coerção para implantar a liberdade.

Em 1858, Quintino Bocaiúva, em seus artigos que escrevia para o jornal “O Paraíba”, comentava sobre a situação da instrução pública em nosso país, relatando a precariedade, na qual se encontrava e, ainda, salientava a importância da educação para garantir a ordem, o progresso e a civilização da nação brasileira. Liberato Barroso (2005), também em 1865, em relatório apresentado sobre a instrução pública, apontava para a falta de uniformidade do ensino e a precária difusão da instrução pelo Estado.

É importante salientar que, entre os anos de 1868 a 1879, outros projetos de reforma da instrução pública foram elaborados e apresentados à Assembléia Geral Legislativa. Em 6 de agosto de 1870, o ministro do Império Paulino José Soares de Souza entregou ao Parlamento o Projeto de Reforma nº. 18, já o deputado Antonio Candido da Cunha Leitão elaborou dois projetos, um no mês de março e outro em julho de 1873.

Em 16 de junho de 1873, o deputado Antônio Cândido da Cunha Leitão apresentou projeto tornando o ensino particular de instrução primária, secundária, especial e superior, completamente livre em todo o Império. Os professores ou professoras particulares de instrução primária ou secundária que abrissem aula pública deveriam ficar sujeitos às obrigações seguintes: comunicação dentro de dois meses, à autoridade encarregada de inspecionar o ensino público em a respectiva localidade, e por intermédio dela ao presidente da Câmara Municipal, a abertura do estabelecimento, devendo designar o local da escola ou colégio e dar-lhes indicação documentada dos lugares em que tem residido, e das profissões que tem exercido durante os últimos dez anos; mandar o mapa da matrícula ou frequência dos seus alunos, sob a pena de multa de 50$000, imposta pela Câmara Municipal, depois de avisado o interessado pelo presidente da Câmara (BRASIL, 1942, p. 328-334).

O ministro João Alfredo Correa de Oliveira protocolou o seu projeto em 23 de julho de 187434. Esses projetos arrolaram durante um momento de muitos acontecimentos econômicos, políticos e sociais. Eles tentavam deliberar sobre a situação da instrução pública primária e secundária no Município da Corte e a superior em todo o Império. Consideravam a instrução primária um componente importante para a moralização e progresso para a nação brasileira.

Torna-se necessário comentar que tanto Paulino de Souza quanto João Alfredo inspiravam-se nas nações européias, assim como nos Estados Unidos, que, para ambos, eram modelos a serem seguidos pelo país, para alcançar o mesmo desenvolvimento daqueles países. No Brasil, eles ambicionavam a superação das contradições existentes e, para tal realização, tornava-se necessário que o Estado interferisse nos rumos da educação.

Além disso, quando Rui Barbosa elaborou seus pareceres, tinha conhecimento dos projetos anteriores e citou os de Paulino de Souza, Cunha Leitão e João Alfredo em seus escritos sobre educação. Portanto, somente de posse das informações da real situação do ensino no país, poderia, então, concretizar seu documento."

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Fonte:

NAJLA MEHANNA MORMUL: “O ENSINO DE GEOGRAFIA NO PROJETO EDUCACIONAL DE RUI BARBOSA”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação, Linha de Pesquisa: História e Historiografia da Educação, da Universidade Estadual de Maringá, como um dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Educação. Orientadora: Profª. Drª: Maria Cristina Gomes Machado). Maringá, 2009.

18/05/2014

O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco

 O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco
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A mocidade heróica de Joaquim Nabuco
(Conferência realizada em 22 de Abril de 1915)

Por: Graça Aranha

No espelho da minha Saudade se refletem de Joaquim Nabuco três imagens: a imagem da beleza, a da inteligência e a da Bondade. A fusão misteriosa dessas três representações distintas em uma só e irredutível imagem faz de Nabuco a mais feliz expressão da nossa raça. E essa beleza é a da nossa maravilhosa terra exuberante, e nesse pensamento e nessa alma sentimos a essência da nossa sensibilidade. Por mais que o seu espírito recebesse e reproduzisse a influencia européia, ele não é um acidente em nossa vida; pelo seu brilho e magia ele é nosso, sai do nosso chãos, como a flor de toda a nossa floresta sentimental.

A IMAGEM DA BELEZA
A flor humana é o supremo resultado do esforço da raça e da civilização. Essa flor será o gênio ou a beleza e um povo se deve orgulhar tanto do seu maior poeta, dos seus santos, como da mais perfeita forma humana. O milagre grego não foi mais sublime se revelando no gênio de Platão do que na beleza de Frinéia. Há no inconsciente das espécies uma inexorável vontade, que vem vindo imperiosamente na urdidura secreta da forma, corrigindo, vencendo cada imperfeição, desenvolvendo cada feliz indicação, adelgaçando, esbatendo, dando sombra e luz para chegar afinal á triunfante harmonia das linhas e ao divino esplendor da expressão. Assim a criação da beleza traduz o labor incessante da cultura na matéria universal e o grande artista é o Tempo, subtil e infatigável. A beleza em Joaquim Nabuco exprime o entusiasmo dessa vitória. No primeiro instante ele tem da nossa vegetação e do nosso sol a força e a radiação, formando-se assim a unidade integral com a natureza de que foi uma admirável manifestação. Mais tarde ele atingirá aquela serenidade que é na grande e avassaladora desordem tropical o indiferente e longínquo ideal a que aspiramos.

Da própria violência da nossa natureza, da sua alucinadora ascensão, nasce o misterioso desejo da liberdade do nosso espírito e essa anciã por uma sossegada contemplação estética, porque persiste em nós uma alma antiga que se perde nas forças deste mundo, que lhe será eternamente estranho. E nesta deliciosa angustia está talvez o encanto brasileiro, esse encanto que deu á beleza de Nabuco a doçura na exuberância, a meiga fascinação no ardor, e que nos leva a sonhar com a outra remota raiz da sua beleza, essa de helênica progênie e que se transfigurou na fusão com as raças extasiadas das outras margens do Mediterrâneo sagrado. E nesse encontro da raça antiga e da natureza tropical está o segredo da beleza brasileira que vindo do passado aqui recebe a onda de luz, que lhe dá a irradiação e a magia. Joaquim Nabuco teve na sua beleza uma suprema iniciação para a vitória. É possível que numa clara fonte das águas cristalinas onde nasceram os alegres córregos de Massangana, o engenho de Pernambuco, paraíso da sua primeira existência, ele mirasse a sua divina imagem de adolescente. Foi a revelação. Mas seguramente o grande infortúnio da solidão estética não o acabrunhou, e nem a perdida admiração que não encontra mais consolo em outra forma rara o tornou desgraçado... Nabuco se vendo belo e perfeito adquiriu essa força indispensável ao triunfo, a segurança em si mesmo e assim a beleza lhe deu a encantada chave para a dominação e a supremacia. Na mocidade essa beleza se tornou soberana e uma admiração universal a prestigiou no enlevo votado a uma gloria nacional.

A IMAGEM DA BONDADE
Essa suprema alegria da beleza dá desde logo a Nabuco todo o heroísmo tropical em que o espírito e o coração cheios de seiva e aspirando ao infinito não tardam a atingir a altitude luminosa e serena da abnegação. No principio a conquista do mundo o atrai, e ele exerce a sua magnífica atividade no conhecimento. A vida se lhe oferece na sua maravilha estética. Nabuco teve o deslumbramento do universo e a sua alma se eleva na admiração. Foi o traço inicial da grandeza espiritual que jamais foi diminuído pelo cepticismo. Na fé está a fonte sublime da bondade de Nabuco. Se o subtil veneno da duvida o tivesse tocado, ele não teria tido a abnegação que foi como o esplendor do seu caráter. Esse absoluto desinteresse ele o praticou quando fez o ato da grande renuncia para se votar ao serviço da libertação dos escravos. ele venceu-se a si mesmo para realizar a vitória sobre os outros.

E toda a sua vida se passa nesta disciplina que o leva da dedicação á causa publica ao ascetismo intelectual e á santidade dos últimos anos. Ao chegar neste passo definitivo da existência ele não busca mais a expansão externa, ele almeja a perfeição interior. A finalidade religiosa de Nabuco dimana da inspiração secreta da sua alma. Ele é um místico, mesmo na política, pois não é outra a expressão do seu idealismo, a ilusão das entidades, toda a sua arquitetura do edifício social e a do próprio universo, e por isso a sua religião não é política e nem exclusivamente dogmática, antes é uma doce conversação com Deus em cuja misericordiosa confiança ele repousa. Para Nabuco o “mistério” foi sempre uma grande atração. Ele esteve diante dos enigmas da vida na postura da indagação, pronto a receber a luz da revelação como esta lhe chegasse. Ele deixou por longo tempo que as forças inconscientes do espírito procedessem livremente, ora o levando muito longe no vôo da arte mística até esse maravilhoso instante em que o ideal se mistura e se confunde á realidade, em que as criações da imaginação são tão vivas, tão intensas na luz rara e diáfana do sonho que parecem a imagem, a essência da realidade, e em que as formas reais se esvaem e se extinguem em sonhos... Ora afastando da inteligência tudo que lhe vinha como inspiração estranha, como disciplina de outros pensamentos para permanecer no estado de simplicidade, em que a fé prepara a explicação definitiva do mistério que nos guia nos caminhos da vida. Tudo é uma grande abdicação no poder de Deus e o mundo é o reflexo da vontade divina e a nossa existência uma descuidada viagem sob a luz das estreitas, uma peregrinação na terra com a volta ao céu... É a existência profunda com a esperança no futuro. O mundo é a alma! e essa alma é o sopro divino na matéria contingente e que tornará a Deus sem se recordar do duro cativeiro, em que padeceu as saudades da Essência de onde emanou. Tal foi a alma religiosa de Nabuco e delia nos ficou para sempre como reflexo sublime a imagem da bondade.

A IMAGEM DA INTELIGÊNCIA
A outra imagem é a da inteligência. E se nesta há um traço predominante é o da imaginação, que em Joaquim Nabuco ainda é uma expressão da sensibilidade, pois, se ele foi um dos que mais teve a faculdade de idealizar, as suas idéias não foram puras abstrações. Eram a veste vaporosa de sentimentos. Desde a mocidade o que absorve a atenção de Joaquim Nabuco é o Estado, a construção social, e ele permanecerá até o fim como um grande pensador político. E ninguém pensou com maior desassombro, e se manifestou com mais profundo desinteresse correndo todos os riscos físicos por uma aventura intelectual. Mas nesta mesma audácia ele tinha o respeito. O seu temperamento não se alimentava do absoluto, e não se satisfazia na irremediável destruição. Joaquim Nabuco compreendeu a sociedade como uma organização hierárquica, e mesmo quando foi representante de um sentimento revolucionário, como o da abolição, invoca para completar a eliminação da instituição condenada o concurso das forças supremas da Sociedade — do Monarca e do Papa. É a relatividade do político que pratica a ação limitada pela ordem e pelo respeito. A limitação é uma forma de disciplina e a disciplina na nossa raça é um sinal de heroísmo.

A formação intelectual de Joaquim Nabuco foi anterior ao predomínio das ciências naturais na cultura, e assim ele será, apesar da profunda intuição que teve das leis da natureza, um espírito criado ao influxo do humanismo e a sua sensibilidade é a do Romantismo no instante em que este apenas se desprende do classicismo, no principio do século dezenove. Mas nesta sensibilidade ele trouxe para o Brasil o gosto europeu, a alta distinção intelectual, e uma expressão nova que nos liberta do velho estilo lusitano agora incapaz de reproduzir todas as cores do arco-íris da nossa poesia. Que importa que ele não possuísse essa intimidade com a língua portuguesa como ele mesmo reconhece numa dessas admiráveis confissões de relatividade que o engrandecem? No Brasil a perfeição clássica portuguesa não se pôde mais atingir. Quem escreve na língua de Camões e de Vieira ou mesmo na de Herculano e Camilo, escreve uma língua afetada e postiça. A língua exprime aqui a grande desordem tropical. É um tumultuoso rio em que varias correntes se despejam e as águas são turvas, porém, violentas e bravias, e ás vezes de uma livre e grandiosa beleza. A vida se desenvolve expansivamente na natureza como nos espíritos. Cada instante é uma nova afirmação do gênio humano sobre a infinita matéria e as relações entre estas forças se manifestam na fantasia das expressões felizes, novas, alegres de nascer.

De toda a parte chegam numerosas palavras que se impõem pela violência ou se afeiçoam jeitosas ás forças da atmosfera. Tudo é uma grande aluvião. A terra é movediça e o espírito sopra livre e fecundo... Há uma liberdade suprema para o gênio criador se revelar. É o delicioso momento de uma literatura, o maravilhoso instante da criação, em que se luta em fabricar de tanta matéria bela e informe a obra prima... Joaquim Nabuco nos dando o encanto novo do seu estilo foi um maravilhoso escritor da nossa moderna sensibilidade... Nesse pensador político há um magnífico artista porque se sente que as artes plásticas, e principalmente a escultura, dão fôrma ao seu pensamento e a musica o ritmo á sua frase. Se na beleza física de Joaquim Nabuco há o misterioso encanto da transplantação da raça européia á natureza tropical, a sua sensibilidade intelectual, ao contrario, é que transmitirá a essência da alma brasileira á cultura européia de que ele se embebeu... Por isso ele será sempre um grande imaginativo, um homem de fé e de entusiasmo, e a sua fidelidade á civilização latina ainda é um testemunho da sua imortal alma brasileira. A mais decisiva afinidade do seu espírito é com a França. Delia nos trouxe o gosto e o estilo e a paixão das idéias gerais. A Inglaterra o deslumbrou na mocidade, mas o que o impressiona na civilização inglesa não é a essência do gênio saxônio que se exprime no individualismo político, no protestantismo religioso, e no vago estético. O que o fascina é o imperialismo latino, a grandeza humana da Inglaterra, é o Estado, a Construção política, que é o sinal da latinidade na civilização inglesa. O que ainda o encanta é o estilo cicerônico dos escritores, o humanismo inglês que faz da Inglaterra a outra face da imagem de Roma.

Da alma brasileira ele terá sempre a força entusiástica, o dinamismo que exalta a vida universal, e do qual não lhe apartou a fascinação que lhe causou o maravilhoso espírito hesitante de Renan. A influencia de Renan sobre Nabuco foi apenas externa, a da tentadora graça literária e a da aristocracia espiritual. E se recebeu de Renan essa suave influencia, ele ficará estranho ao renanismo. Como acontece muitas vezes, os grandes criadores de sistemas não são os verdadeiros e mais legítimos representantes das escolas ou das simples atmosferas sentimentais que inspiraram e a que deram o seu nome. O renanismo não tem talvez em Renan a sua mais genuína expressão. O que constitui a essência do renanismo é a duvida, a não afirmação, e essa extrema indulgência vinda da compreensão absoluta e ilimitada do universo e de toda a vida fenomenal. No entanto Renan acreditava na ciência e algumas vezes foi afirmativo e implacável na sua negação de todo o misticismo. Sob este aspecto Renan não foi renanista, como Nabuco, que da escola só teve a elegância do diletantismo intelectual, mas ficando sempre homem de fé e de afirmação. Ele afirmou o direito absoluto da liberdade, afirmou o destino político do Brasil na coexistência internacional e a sua ação intelectual teve o heroísmo que faltou a Renan, enleado no perpetuo compromisso da ironia. Esse espírito vacilante não o teve Nabuco, e nunca a duvida foi um pretexto para se libertar do esforço da atividade. Não seria ele que, diante da trágica transformação ou da irremediável dissolução do nosso país, diria desdenhosamente: "O Brasil morre; não perturbemos a sua agonia"...

Ele guardaria em sua alma a grande dor e tentaria o supremo esforço da nossa salvação. Ah! se ele existisse nesta hora terrível! A sua fé faria um grande milagre, porque só a confiança em nosso destino imortal e a dedicação suprema de toda a nossa vida a esse destino nos darão a redenção. Para nos salvar o seu coração e o seu gênio nos indicariam a sublime ação do amor a este país a que pertencemos pelo sangue, pela carne e pelo pensamento.

Não é somente a guerra que estremecendo as nações faz surgir a maravilha da união e a ressurreição do ideal! Outras misérias podem fazer igual prodígio, e assim diante da Pátria combalida já é tempo de entrarmos numa grande reconciliação nacional, como a base da nossa renovação. Seria o milagre do Amor e da Fé, que Renan não compreendeu em França mas que a fatalidade veio cumprir...

A AÇÃO
A atração que a Europa podia ter exercido sobre Joaquim Nabuco não foi tão preponderante que o Brasil não viesse afinal se apoderar do seu espírito e do seu destino, e foi aqui que ele exerceu a sua gloriosa ação política e literária.

Neste país em que a natureza é uma prodigiosa magia que entretém nas almas um perpetuo estado de deslumbramento, e em que o espírito do homem se exalta e a imaginação enche de fantasmas, de lendas, de mitos o espaço da separação entre eles e o universo, é singular que a literatura não seja o espelho dessa imaginação alucinada e que ela se apresente em geral modelada na fôrma clássica da cultura européia. Será para iludir aquele terror inicial que é a origem e o criador da nossa metafísica ? Será uma reminiscência imperiosa da nossa formação lusitana?

O fato é que a nossa expressão literária é singularmente clássica, e que ela procura dominar, contrariar aquela fascinação da miragem, que algumas vezes se manifesta em nossos escritores e lhes dá a triste expressão de desvairados. Seguramente a essa influencia clássica se pôde atribuir também a grande lentidão do movimento literário brasileiro. Durante o século dezenove ficamos á margem das correntes que moveram a literatura européia, nesse período de grandes revoluções espirituais. O mesmo fenômeno de retraimento se deu em Portugal que permaneceu fiel á disciplina latina. O romantismo só veio a se produzir ali e no Brasil quando em França ele definhava e começava a ser substituído pelo realismo. Somente em 1856 Chateaubriand inspira os nossos grandes escritores nacionais. E a poesia romântica em Gonçalves Dias e Magalhães é paralela á poesia clássica, onde se compraz tradicionalmente a inspiração desses poetas. O realismo aparece entre nós com a mesma distancia de tempo.

Esse vagar só se pôde explicar pela muralha do classicismo que manteve o espírito estranho ás agitações, ás angustias em busca de novas expressões para essa terrível anciã de infinito que é toda a essência da arte, até que elas subam tanto e tanto que, como o mar impetuoso do sentimento e do desejo insofrido, se avolumem e desmoronem a muralha.

Como a literatura, assim foi a oratória. Oriunda dos seminários, dos colégios de padres, dos liceus, ela ostenta o molde em que se formou, e esse molde foi o da retórica latina. E em uma eloquência brilhante, clássica e formal de oradores humanistas, padres e parlamentares, seguimos o velho ritmo dos grandes modelos da antiguidade romana. O parlamento se tornou uma escola de oradores inspirados no mesmo espírito e seguindo o mesmo processo de que alguns se tornaram mestres e foram modelares. Os discursos elegantes, de fino e apurado dizer, eram compostos como exercícios de escola, e se distinguiram pelo lavor da retórica, pelos exórdios, pelas perorações, e muitos, como nas arcádias, eram celebrados por um arranjo escolástico, ou por uma frase como o do “sorites”, o da “ponte de ouro”, o da “pirataria em torno do berço”. Era um encanto! O parlamento, e sobretudo o velho Senado, pela eloquência desses mestres da palavra, pela medida, pelo esmero do gosto, pela moderação do espírito, pela elegância da expressão, era com mais propriedade aquilo que ainda não foi a Academia.

Nabuco aí entra quando começava a decadência do gênero. A grande era havia passado. Apenas restavam em muito poucos as exterioridades da forma acadêmica sem a magnitude do espírito criador. E se por acaso alguns anos antes, um tribuno se apresentara na Câmara trazendo o ímpeto, o movimento, a grande voz do povo, era como um bárbaro naquela assembléia de clássicos, a agitava, a adormentava, mas não a seduzia, nem a vencia... Nabuco trouxe para triunfar dos velhos moldes e renovar a eloquência que definhava o encanto supremo da sensibilidade do seu tempo e uma qualidade nova no Parlamento, a graça 1 De todas as formas da sedução ele possuía a mais rara, a sedução angélica! Uma pureza imaculada de espírito o isolava, o engrandecia e o envolvia em eterna luz diáfana. E dentro dessa luz ele caminhou do berço ao túmulo para remontar depois da morte ás origens estéreas da sua natureza. E nessa peregrinação na terra ninguém cumpriu um mais belo e claro destino, ninguém como ele, sendo o anunciador da liberdade, o demolidor de instituições, o redentor de outros homens, na sanha da peleja, pensou e proferiu mais doces palavras repassadas de resignação, de tolerância e de beleza, ninguém, como ele, viveu tanto da idéia pura, da sensibilidade estética e da emoção religiosa.

Ora, quando Nabuco entrou no Parlamento, os seus primeiros gestos foram de combater, e ele pode tudo ousar no seu apostolado, proclamar o direito absoluto de que era o paladino diante de uma assembléia atônita, expressão de uma sociedade firmada na mesma instituição que ele atacava. Ela lhe perdoou a temeridade desses arremessos feitos na sedução da graça intelectual e viu no sorriso que iluminava o semblante do orador transparecer o fogo de uma paixão imortal. Essa paixão era a da liberdade! A sua eloquência foi a dessa paixão. Pela primeira vez se ouviu no Parlamento um orador cuja sensibilidade tanto comovesse. Alguns podiam ter inflamado o auditório, lhe arrancado a fácil admiração pelo brilho da imagem, outros foram frios, clássicos. Nabuco foi o orador de um sentimento, nascido de uma idéia absoluta e que se veio enraizar no coração e na piedade de todo um povo, transformação maravilhosa para que ele concorreu com a emoção da sua eloquência.

Esse sentimento da abolição dos escravos se infiltrou no espírito de Joaquim Nabuco no instante do inconsciente infantil e levou longos anos até á sua magnífica revelação. Há nesse prodigioso acontecimento todo o verdadeiro mistério da vocação.

Imaginai Joaquim Nabuco na sua adolescência, aspirando o conhecimento do mundo, recebendo todas as impressões da beleza do universo, vivendo livre como uma força da natureza, imaginai- o na mocidade, submetendo ao seu espírito todas as expressões da existência, mas afastado de tudo que não fosse prazer intelectual ou sensação estética, imaginai essa gloria da flor humana, suntuária e distante, num indiferente jardim de delicias... e a um sinal do destino ei-lo de volta do paraíso do esquecimento e entrando no inferno da escravidão, sofrendo no seu coração transfigurado as dores de uma raça oprimida, Cavaleiro de peregrina forma, descendo á terra para combater por um ideal remoto, multiplicando-se numa atividade milagrosa, amando e fazendo amar pela paixão da sua alma os miseráveis de que é o redentor! Oh! magia posta no berço da criança pela resignação e doçura dos escravos ! O menino de Massangana, amamentado pelo leite da escravidão, adorado como um pequeno deus pelos negros da fazenda, surgia como o libertador do cativeiro, em cuja atmosfera se prepara a sensibilidade que o faria imortal. Foi o mais belo milagre da escravidão, o de haver formado o herói da sua própria redenção. E no espírito infantil a hora da iniciação do sentimento foi marcada por uma dessas impressões que ficam nas placas secretas da memória, esperando a revelação que o destino dará um dia... Assim foi que a sensação ainda vaga do grande infortúnio da escravidão se insinuou no espírito de Joaquim Nabuco num quadro inesquecível da sua infância. “Eu estava uma tarde sentado no patamar externo da casa, diz ele, quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito anos, o qual se abraça aos meus pés suplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madrinha para me servir. Ele vinha da vizinhança, procurando mudar de senhor, porque o dele o castigava e ele tinha fugido com o risco da vida... Foi este o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava...”.

Depois dessa imperecível impressão vieram os difíceis anos de aprendizagem, os maravilhosos anos de viagem, mas se numa estância ou noutra da sua existência, Nabuco torna a essa fazenda de Massangana ele terá de haurir de novo, como num santuário da sua própria alma secreta, a força misteriosa do seu destino. Agora, na mocidade, já não são vivos os humildes formadores da sua infância, aqueles que lhe alimentaram a fantasia e a imaginação, e lhe contaram ingênuas e peregrinas historias... Tudo é morto em torno... É a infinita melancolia da desolação da tapera... E se Nabuco aí penetra, apenas dos velhos canaviais, soltos aos ventos, um murmúrio lhe chega como se fossem as lamentações dos escravos que gemeram no cativeiro e saúdam naquelas vozes longínquas e estranhas a predestinação do libertador... O solo sagrado da morte, o futuro herói calca-o aos pés... Ele caminha sobre as covas dos escravos e os vai chamando pelos seus nomes num carinho de outras eras...

Ninguém responde... Tudo é silencio debaixo da terra... Mas a resignação daquela mísera raça, a sua imolação ao nosso bem coletivo, o seu inaudito sacrifício se ostentam na sua força sublime a Nabuco, que no fulgor dos vinte anos ali mesmo sobre o túmulo dos desgraçados jurou votar a sua vida ao serviço da raça generosa "que por sua doçura no sofrimento emprestara até mesmo á opressão de que era vítima um reflexo de bondade!"

Dez anos se passam, são dez anos em que Nabuco faz a descoberta do mundo, é o ciclo das viagens em que ele se impregna das sensações da cultura e se deslumbra nas miragens da civilização. É a Europa e a América do Norte. São dez anos da sua formação estética em que ele reduz o universo a um maravilhoso espetáculo e tudo, homens e coisas, sociedade e terras são o alimento da sua curiosidade artística. É Londres com a sua impressão babilônica que o atrai e subjuga, é Paris na sua doce graça que o seduz, é Fontainebleau dando a imagem da ordem, da harmonia e da perfeição na natureza, e lhe corrige no espírito a notação violenta da paisagem tropical, é Ouchi com o seu lago que é uma encantada madrepérola, onde a miragem tudo transforma e onde parece ser a misteriosa morada da saudade e onde por horas mortas adejam as sombras dos ascendentes do seu gênio, as sombras de Rousseau, Chateaubriand, Benjamim Constant, Byron ! É depois a América do Norte que o arranca do êxtases estético e lhe mostra a sociedade em movimento... São os grandes espíritos que lhe explicam o mistério, os Renan, Thiers, George Sand, Scherer, e tudo é um delicioso olvido do seu próprio ser consumido na combustão do desejo de absorver as sensações supremas do mundo, que se refletem na luz, na fôrma, na cor, em que se fragmenta o universo, e nos espíritos que exprimem essa ilusão universal... Nestes dez anos Nabuco fez a volta das coisas e tornou ao ponto inicial da sua viagem sentimental, aquele sentimento profundo e dominante que a piedade pela desgraça dos escravos lhe havia inspirado na infância e na adolescência. São dez anos depois da sua visita aos mortos de Massangana. Nabuco entra na Câmara em 1879 e dá-se o pronunciamento abolicionista... É chegada a hora da revelação.

A ABOLIÇÃO E NABUCO
A Abolição foi uma idéia política que se fez todo o sentimento violento de um povo. Apoderando- se da emoção do país se tornou invencível, e na celeridade do seu movimento ela tudo arrebatou, tudo desmoronou e exigiu a contribuição de todos para o seu triunfo. O que fizeram a monarquia e os estadistas não foi mais do que satisfazer, como pacificadores, as imperiosas exigências da sensibilidade popular. E neste sentido a abolição foi um ato revolucionário, e ao mesmo tempo esse delírio de abnegação coletiva marcou na vida brasileira o mais belo instante da nossa emoção nacional. Cada um procurou exceder-se a si próprio e aos outros no desinteresse pela causa da redenção.

A principio a idéia apontou ao longe no espírito de alguns inspiradores. Pouco a pouco foi ganhando outras almas e mais tarde numa grande preamar se espraia pelo país inteiro. Há um repentino fervor de piedade, e que se deve chamai — a loucura da abolição! E são povoações que eliminam do seu recinto a escravidão, são províncias que se redimem, são senhores que se empobrecem alforriando massas de trabalhadores, são fazendas que numa vertigem de abnegação se imolam e se tornam em taperas desertas e livres, é o próprio trono imperial que, no esplendor da exaltação coletiva, se sacrificai... Nabuco foi um dos criadores desse imenso movimento de piedade em que também se expressou a instintiva previdência de um povo. E sob certos aspectos foi o seu maior herói. A Abolição, como se verificou, no seu curso irresistível, foi principalmente a manifestação da sensibilidade da raça negra, ou daqueles que provinham do sangue dessa raça, que deu na resignada tristeza da escravidão a energia para vencer a natureza hostil e infinita. Durante séculos nós fomos uma nação de senhores e de escravos. Joaquim Nabuco era a mais feliz e admirável expressão da aristocracia do Brasil, o seu interesse, a formação do espírito e mesmo as suas prisões ao preconceito da nobreza e da educação, tudo o levaria a desejar a perpetuidade da organização social da qual ele seria a flor e em que ele dominaria como representante da casta dos senhores. Mas tal foi a predestinação que a fatalidade sublime lhe reservara, talvez desde aquela divina iniciação da infância entre os escravos, e tal o secreto poder do pranto dos oprimidos em sua alma, que ele a tudo renuncia, ao domínio, á posição, ao repouso, e, indiferente á sua própria classe, se fez o apóstolo da liberdade, desceu á fonte das lagrimas, bebeu-lhes o amargor, sofreu sem uma queixa, sempre ardente, dando todo o seu ser, num magnífico dom de amor!

É a mais bela historia da mocidade no Brasil, essa em que tudo, sonho, aspiração, poesia, desejo da adolescência se transfiguram na aspiração suprema do sacrifício, na implacável e augusta chama da abnegação. É na alma a cristalização do ideal! E assim foi a divina ascensão desse espírito que renuncia ao que é vão e ocioso e no ascetismo, que é o sinal de uma paixão exclusiva e imortal, retempera as forças com que combaterá toda a sua vida. A sensibilidade de Nabuco se torna a sensibilidade de um povo de que foi o inspirador e o maravilhoso interprete, e a sua maior gloria será a de ter sido o orador da Abolição. É a imagem lendária que permanecerá em nossa lembrança e que se transmitirá para diante, e que será a da glória da eloquência brasileira.

Quando Joaquim Nabuco aparecia na tribuna era como um Cruzado, revestido da refulgente armadura da eloquência, a sua clara, alta e vibrante voz, soando como um clarim, tinha-se a impressão física de se verem os muros da escravidão se irem derrocando... No meio da peleja ele era o paladino que se procurava derribar. Então o assaltavam, o visavam pessoalmente, e não havia doestos, calúnias, arma pérfida ou daninha, com que os ânimos irados não o agredissem. Apenas um golpe o tocava ele, ardego, impetuoso, se arremessava sobre os adversários. Não era o salto da onça, que é tanto da gente das nossas selvas, pois nada havia de felino em sua natureza angélica, era antes o ata que do cavaleiro, a resposta da espada certeira e vingadora, o invencível gládio forjado no aço imortal da justiça e ele, combatendo, sorria e logo desprezando os ataques se voltava para aquele incessante coro das súplicas dos escravos e recolhia as queixas e amarguras do cativeiro, cantadas na soturna melopéia do inferno. Então a sua eloqüência derramava as torrentes de simpatia e compaixão que nos alimentava a piedade, e ele remontava ao céu da poesia, subindo (subindo numa ascensão de Arcanjo, num vôo de ave, como a cotovia que "quanto mais sobe mais canta e quanto mais canta mais alto sobe!..."

Ah ! quem o viu então! Alto, esbelto e gracioso, dominante a opulenta cabeça, nos rasgados e sombrios olhos o fogo das pupilas, gestos da elevação elegante das grandes aves, a audácia na inteligência e na voz musical um perpetuo hino, nos lábios misturando ao sorriso da vitória a onda da eloquência vibrando no ar e indo espraiar-se largamente num infinito de imagens...

Dir-se-ia a nossa grandeza tropical em toda a sua pujança, em todo o esplendor, se corporificando na natureza humana, se fazendo eloquência! Ah! quem o viu assim e indo da Câmara para a tribuna popular, fascinando as multidões, arrastando- as no seu entusiasmo e espalhando a centelha da redenção que lastrando pelo país inteiro se fez o raio que decepou a velha arvore da escravidão... Ah! quem o viu assim, que saudades !... E tal é a força do sentimento de que Nabuco foi o orador, que por ela um puro intelectual magnetiza e domina as multidões grosseiras. Por quê? Onde o segredo que tornou o movimento abolicionista tão impetuoso e triunfante? No sentimento da liberdade que é uma alavanca social invencível na piedade pelo escravo que é a expansão da nossa ternura, no orgulho patriótico a que repugnava a mancha negra, a mancha nacional.

E o heroísmo supremo de Nabuco está em ter sido a magnífica voz desse sentimento de liberdade, o poeta dessa compaixão, o vingador dessa vergonha coletiva. E para a sua missão nesta terra tudo deixou e a própria emoção estética que seria a preferida do seu espírito em outros instantes. Homem de coração e de inteligência aguda, nesse combate de todos os momentos, Nabuco não conheceu a medida do sacrifício na sua abnegação suprema, nem deixou de lado um instrumento que pudesse demolir a escravidão. Ele foi a atividade na sua gloriosa significação. Também para ele no principio è a ação. Exerceu-a no Parlamento, na praça publica, nos comícios, nos conselhos, na imprensa, nos congressos europeus, junto de um papa e por toda a parte, de onde pudesse partir um átomo da energia que viesse em nossa terra libertar escravos... Neste esforço sobre-humano, completado em plena força jovem, Nabuco transmite a tudo o fluido da perpetua renovação da vida que é o sinal da eternidade e em nossa memória, em nossa evocação, ele viverá como o símbolo da mocidade heróica em nossa raça.

O NACIONALISMO DE NABUCO
Nesse episódio da Abolição tudo é expressivamente brasileiro. Não só a maravilhosa ilusão exaltada e absoluta da piedade, tão nossa, come também o instinto político que o moveu no sei profundo e imperioso inconsciente, e se cumpriu eliminando a escravidão como um ato de finalidade nacional.

A escravidão tinha de ser suprimida, quando não fosse pela alavanca do sentimento, seria pele interesse político que obedecia a uma fatalidade histórica. No fim do século dezenove tal instituição era o impedimento ao surto de uma nação americana. Nesse século o fenômeno social mais expressivo foi a imigração dos povos. E a América foi o esplendido resultado desse fato novo. A imigração, por sua expansão, reclama novas terras, onde ela se alargue. Ela não poderia coexistir com a escravidão que seria o oposto da sua liberdade de movimento e da sua expansão. Os homens que, á margem da corrente sentimental, resolveram livremente sacrificar a escravidão à imigração dos brancos, prepararam a profunda transformação social do país. E assim Joaquim Nabuco também foi um iluminado político quando, um dos primeiros, combate a escravidão para servir ao supremo destino do Brasil. Desde então a fidelidade nacional do seu espírito é singularmente bela e toda a sua ação política é nacionalista.

Toda essa gloriosa formação do seu espírito na subtil atmosfera européia, as aquisições que ele fez do imortal patrimônio da civilização, tudo que o separava e o elevava, ele veio consumir magnificamente neste ardente anseio do seu país por uma maior grandeza moral entre os outros povos.

O sentimento nacional foi o pêndulo da existência de Joaquim Nabuco. Ele marcou no quadrante da sua vida política o mesmo e perpetuo ritmo: na mocidade Nabuco renuncia a todas as seduções do “lazzaronismo” intelectual, desprende-se do encanto mágico, que o retém longos tempos nessa floresta adormecida da arte, e vem se misturar ás dores e angustias da sua terra, e faz resolutamente o seu dever completo...

Na madureza ele mudou de campo de combate A principio lutou dentro da sociedade política foi parte principal do drama da formação nacional do novo Brasil, depois se retirou da ação meditando sobre os nossos destinos escreveu elaboração histórica deles e nos explicou a finalidade brasileira e a consciência nacional. Nesse momento augusto da meditação ele aumentou: sensibilidade das cordas do nosso poder de expressão literária e nos deu outras e mais raras vozes... Mais tarde, Joaquim Nabuco pela sua ação diplomática, concorre poderosamente para integração do Brasil na política do continente Ainda nesse ponto o seu sentimento nacional guiou e lhe deu esse maravilhoso instinto politico que jamais o abandonou.

A grandeza internacional do Brasil será tanto maior quanto mais preponderante for a sua posição na política americana.

Diante da Europa se firmará fatalmente a unidade política da América determinada pele finalismo continental e por ela nós participaremos dessa «elite» política que exprimirá os profundos desígnios da civilização. Foi o ultimo traço de gênio de Joaquim Nabuco e do seu nacionalismo E ainda nesse derradeiro instante ele medita sobre o mesmo tema do inicio da sua existência espiritual. É Camões que o inspira de novo e assim se fecha, com a perpetua e simples volta ao ponto de inicio, o ciclo da sua vida sentimental.

INVOCAÇÃO A NABUCO
Na angustia em que nós hoje interrogamos o destino é para o seu espírito que nos voltamos... Que ação seria a sua se ele tivesse a renovação do prodígio da mocidade e tivesse mais uma vez de nos dar o seu heroísmo? que combates combateria ? que novas esferas ele sonharia e para que alto firmamento ideal ele nos arrebataria na sua eloquência?...

Mestre! mestre ! Para onde vamos ? aonde esta frágil barca que se decompõe no temporal vai ser arremessada? onde o seu naufrágio ou a sua salvação ? quem responderá ?...

Tudo é um grande e infinito tumulto na antiga terra brasileira. Aquele doce remanso da velha sociedade em que se harmonizaram a vontade e a supremacia de uns e a obediência e humildade de outros, teve de findar. Uma imensa confusão fervilha; da terra surgem cobiçosos sonhos de gozo e volúpia expressos nos ardores de uma língua bárbara e no sangue de uma raça formada na fornalha dos desejos e revoltas.

Nesta confusão a consciência nacional se esvai; nós não seremos mais os mesmos no futuro, tudo o que vem do passado se desmorona e sem as correntes da tradição nós flutuamos ao capricho do destino nebuloso e incerto.

Onde a força que nos organize de novo e aos embates funestos do cosmopolitismo ofereça a formidável armadura nacional? quando se formará a "elite" social que seja a expressão da nossa consciência coletiva e nos conduza e nos mantenha firmes e grandes?

Por mais que a filosofia tudo considere, homens e povos, apenas como um acidente na grande inconsciência das forças universais, no terrível silencio do infinito, não podemos nos imaginar fora da sociedade que é a categoria da vida humana, como o espaço é a categoria dos corpos. É uma fatalidade a que o nosso profundo realismo impõe resignação. Cada um de nós é necessariamente o homem de uma raça, de uma nação. Não há liberdade tão poderosa que nos emancipe desse circulo fatal, e se o espírito pela força da abstração despedaçar todas as restrições acidentais, as secretas correntes da nossa personalidade nos prendem aquele mágico inferno que é a associação já longínqua, já inalterável, onipotente e misteriosa, dos outros homens dos mesmos desejos e que formam na fuga do tempo a singular afinidade do inconsciente de tantas gentes. É nessas categorias sociais que se produz a maravilhosa atividade humana. Ora desses círculos que são o quadro e o campo da ação do espírito nós subimos desde os mais restritos e limitados até ás nações e aí exatamente é que se produz em toda a sua extensão o fenômeno da civilização. O alvo dessa cultura individual e coletiva, a sua razão de ser é a criação de individualidades superiores que assegurem a mais profunda harmonia á coexistência social e faça criar a maior soma possível de ideal que se exprimirá na filosofia e na arte.

Para essa aristocracia espiritual, a vida seria a epopéia da aspiração. Eu penso em Dante, em Santa Tereza; em Pascal, em Spinoza, em Goethe, e eu imagino o vôo soberbo de tais espíritos e os espaços sem horizontes que descortinaram. Oh! abismos insondáveis! Oh ! magnífica vertigem! E eu sinto que eles são os redentores, os libertadores de toda a servidão imemorial de tantas inumeráveis almas humildes que também aspiram... É a divina tentação do infinito!... A cultura se caracteriza nessa atração sublime. Em cada povo ela deve criar um pensamento nacional, uma consciência nacional, isto é, uma civilização nacional. E tudo o que se trama nas lutas econômicas, todo o triunfo sobre a natureza, o ganho, a fortuna, a expansão vivaz, tudo isto é o caminho do inconsciente da conectividade para chegar ao máximo da sua expressão moral. Muitas vezes não se chega até lá e se desaparece numa volta da historia, não se deixando um traço, um sulco no grande espaço em vão percorrido...

Para nos salvarmos desse irremediável desastre e escaparmos do triste silencio em que nos extinguiremos, precisamos executar dentro de nós mesmos uma série de esforçados trabalhos para chegarmos a uma vitória completa e sermos uma força dentre as forças espirituais da terra... Seria a apuração da nossa alma. Seria a redenção nacional de que uma vez o heroísmo de Joaquim Nabuco nos deu a maravilhosa aurora... Mas, sem tardar, as sombras desceram... E nesta longa noite em que entramos, que astro nascido no céu da nossa espiritualidade, que astro, mesmo de luz baça e tremula, nos guiará ?


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Fonte:
Conferencias: 1914-1915. Sociedade de Cultura Artística, disponível digitalmente no site da biblioteca: Brasiliana - USP

17/05/2014

Obras Seletas (Volume II), de Rui Barbosa

 Obras Seletas  (Volume II), de  Rui Barbosa
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Uma breve síntese biográfica

"Rui foi a expressão nítida do discurso de modernização política. Nossa premissa, assim como na visão de uma parcela de historiadores, é que toda a sua modernidade também foi levada pelo apego às tradições. Nasceu em Salvador, em 1849, filho de João José Barbosa e Maria Adélia Barbosa de Almeida. Para entendermos um pouco mais a vida de nossa personagem principal, vamos procurar conhecer a importância de seu pai, célebre por ter tido uma grande barganha nos relacionamentos políticos.

João José Barbosa tinha a formação em Medicina, mas sua paixão era a política. Era um liberal, formado na tradição inglesa, mas também nos princípios do Contrato Social de Rousseau e nos Direitos do Homem e do Cidadão, uma das representações mais significativas da Revolução Francesa. Tais influências acabaram por despertar sua participação na revolta regencial conhecida como Sabinada. Foi um homem voltado sempre para os problemas da educação e da cultura e, por esse motivo, dirigiu a “Instrução Pública” de sua província, publicando importantes relatórios e sustentando polêmicas a respeito de sua atividade. Foi dele a principal influência sobre o filho, benéfica em pelo menos dois sentidos: no amor à leitura dos clássicos e no respeito à documentação em suas pesquisas.

No contexto em que João José Barbosa era Diretor de Instrução Pública, Rui foi estudar no Ginásio Baiano, que funcionava na antiga mansão do Marquês de Barbacena. Seu Diretor era Dr. Abílio Borges, homem culto e liberal. Na memória da cidade era um homem ligado à moderna educação. Foi ele quem aboliu a palmatória para os alunos que eram designados pejorativamente de preguiçosos. Em 1865, Rui terminara o curso ginasial e ficaria pronto para cursar a velha Faculdade de Direito de Recife, lugar onde os grandes debates acadêmicos aconteciam no país. João Barbosa veio do Rio de Janeiro assistir à formatura no curso ginasial e se espantou com o discurso proferido pelo filho. Na ocasião, Rui lançara as bases de seu liberalismo ao defender a unidade nacional e ao proclamar grande parte dos anseios da juventude de sua época, calcados no modernismo liberal.

Sem dúvida, como dissemos, um passo importante de Rui foi o seu ingresso na Faculdade de Direito de Recife. Outra Faculdade, que mais tarde se tornaria um forte campo de debates, foi a Faculdade de Direito de São Paulo. No contexto, a cultura jurídica era uma forma de ascensão política. Gilberto Freyre, em sua obra “Sobrados e Mocambos”, afirma que os bacharéis de São Paulo trouxeram uma determinada perspectiva de renovação das elites, simbolizada na proposta de substituição de um patriarcado rural tradicional por um urbano fortemente europeizado.

Sabemos que o foco de Rui foi voltado para os direitos civis e políticos, não tendo a mesma preocupação com os direitos sociais, nosso lugar de discussão a partir daqui. Entendemos que o cunho liberal de Rui não abarcou uma ampla cidadania social, em quase toda a sua carreira política. A relação entre o seu discurso e a questão da cidadania devem, portanto, serem esclarecidas, uma vez que o ideário liberal-democrático enfatizou seus horizontes na lógica do debate sobre a cidadania, entendida esta no âmbito jurídico-político, nada além disso.

Um dos retratos mais marcantes de Rui foi a possibilidade de ele expressar a coexistência de práticas políticas oligárquicas com os princípios norteadores do Constitucionalismo Liberal, tendo como eixo os discursos favoráveis às demandas do liberalismo individual. Essa lógica também foi uma das fortes motivações de seu pai, que se fundamentava no modelo político anglo-saxão. Rui teve uma vida mergulhada nesses grandes anseios.Como desdobramento de sua formação todas as leituras e influências de seu pai acabaram por levá-lo a ser conhecido como um “homem das letras”. Sua vocação era estar inclinado ao aperfeiçoamento da linguagem, a fim de torná-la cada vez mais um instrumento de combate. Essa tarefa era de permanente investigação, parte de um universo de perpétua pesquisa sistemática. Os livros eram amados por ele. Para termos uma ideia de sua motivação pela cultura, basta observarmos o tratamento que ele dava à própria organização de suas fontes de pesquisa, revelando o apreço que tinha por elas.

As obras eram cuidadosamente citadas com indicações de edição, local, data, página e, às vezes, até de linhas. As mais antigas edições eram de Castilho Antônio, Camões, Shakespeare, Lincoln, Herculano, Frei Luís de Souza, Frei Heitor Pinto, Dr. Antônio Vieira e, mais que todos, Pe. Antônio Vieira. As publicações do pai apresentam a mesma preocupação fundamental. As notas citadas por Rui são tomadas caprichosamente, de acordo com a preocupação de indicar as fontes. Os originais são sempre limpos, caligráficos, frequentemente com tinta de duas cores para destaque dos trechos principais. De acordo com nossa pesquisa, os cadernos mais recentes datam dos últimos anos de sua vida, depois da polêmica sobre o Código Civil (1902), assunto que aprofundaremos no capítulo 2. São centenas de fichas, que representam a negação do improviso e a inspiração momentânea.

Seus horizontes políticos foram consolidados numa série de eventos. Destacou-se como autor de projetos de reforma eleitoral e de emancipação dos sexagenários, o que expressa sua ligação com o contexto do abolicionismo. Foi autor dos pareceres sobre a reforma de ensino, entendendo que uma sociedade deveria ser organizada a partir de uma comunidade letrada. Notamos que isso era tão significativo, pois defendia a tese de que os analfabetos não deveriam exercer o direito de voto. Somente a partir da alfabetização o status de cidadão poderia ser preenchido no sentido de exercer o discernimento e lutar pelos direitos constitucionais, como fica claro no seguinte documento: “[...] a instrução do povo, ao mesmo tempo, que o civiliza e o melhora, tem especialmente em mira a habilitá-lo a se governar a si mesmo, nomeando periodicamente, no município, no Estado, na União, o chefe do Poder Executivo e a legislatura”.

Entre suas lutas mais proeminentes citamos o fato de ele ser um grande líder do Federalismo. Ideário político totalmente influenciado pelo modelo norte-americano, em especial, aquele defendido por Lincoln na época da Guerra de Secessão. Tal federalismo estadunidense era tão expressivo, que o próprio Lincoln colocava a possibilidade de abolir a escravatura para atingir os seus objetivos de Federação.

No ano de 1868, Rui aos 19 anos, fez um discurso saudando o deputado José Bonifácio, sobrinho e neto do velho fundador do Império brasileiro, um de seus professores em São Paulo. No ano em questão, o Imperador D. Pedro II, contrariando o princípio moderador da Coroa, destituiu o Gabinete Zacarias, recém-convertido ao Liberalismo, pondo em seu lugar Itaboraí. Rui protestou a atitude do Imperador no jornal chamado “Clube da Reforma”, porém depois foi levado a reconhecer o exagero de suas críticas tendo a postura de dizer que o importante era a reforma do Estado, desde que se preservasse a liberdade. Foi logo depois disso que ele proferiu seu discurso em homenagem a José Bonifácio, pois este também era contra a arbitrariedade do Imperador.

Após esse discurso, Rui viria a fundo na sua carreira jornalística no “Radical Paulistano”, miniatura do “Clube da Reforma”, sendo parceiro de Luís Gama, Américo de Campos e Bernardino Pamplona. Foi nesse jornal que Rui passou a canalizar suas ideias sobre ensino livre, abolição da escravatura e eleições diretas. No sentido geral, esses jornais surgiram a partir de algumas discussões travadas por determinados grupos intelectuais, defensores dos valores liberais-democráticos.

Outro aspecto de notoriedade da carreira de Rui Barbosa foi, no ano de 1869, quando teve uma atuação pública bastante significativa, por meio da saudação proferida às tropas que voltavam da Guerra do Paraguai. Durante três noites fez discursos aos soldados defendendo as bandeiras da liberdade e do civilismo. Esse episódio aprofundou a mística de Rui em torno de sua imagem pública.

Em 1875, Rui protestou contra o serviço militar obrigatório decretado pelo Império. Sua perspectiva era no sentido de defender a liberdade contra o militarismo excessivo. Utilizando--se das premissas filosóficas de John Locke, fez um discurso calcado nos pilares das liberdades individuais, trilhando o seu caminho em direção à identidade de sua eloquência.

Estabelecendo um pequeno paralelo entre sua vida política e pessoal, no contexto de 1876, Rui conheceu sua paixão, Maria Augusta Viana Bandeira. Moça pobre, filha de funcionário público, mas vinda de uma ilustre família tradicional aristocrata baiana. A história nos conta que ele tinha que adquirir determinados capitais para os fundos da realização de seu amor e por isso foi para o Rio de Janeiro. Na Corte, logo se empregou em um escritório de advocacia, por recomendação do conhecido político Manuel Dantas e passou a escrever no jornal “A Reforma”, cujo eixo temático principal era a crítica direta ao Partido Conservador, então no governo. Como orador discursou ao embaixador do Chile e proferiu discursos realizados numa Loja Maçônica, o que legitimou seu nome na cidade. O primeiro discurso foi uma defesa da liberdade individual e o segundo, a favor da separação entre a Igreja e o Estado.

No contexto da chamada “Questão religiosa” o anticlericalismo de Rui ganhou espaço proeminente. A gênese dessa questão se encontra na prisão dos bispos do Pará e de Olinda, no ano de 1873, acusados de hostilidades contra os maçons. A ação dos bispos decorrera da obediência, a uma Bula Papal que o imperador não ratificara, sendo assim considerada um desrespeito aos poderes do imperador sobre o clero. No “Diário da Bahia”, Rui se posicionou favoravelmente aos dois bispos, mas quando eles foram anistiados em 1875, Rui protestou o fato nas páginas do jornal. Nesse passo se desenvolvia o processo de sua posição a favor da liberdade religiosa e da separação entre a Igreja e o Estado. Esta postura de Rui se deve ao fato de ele defender um Estado laico e o contexto de transição da Monarquia à República favorecer plenamente sua postura política nesse sentido.

Ainda se tratando da “Questão Religiosa”, Rui se envolveu em outras histórias. Um livro francês contra o dogma da Imaculada Conceição, traduzido e prefaciado por João José Barbosa, fora publicado logo após sua morte. Atacado por defensores das posições papais, Rui Barbosa saiu em defesa do trabalho do pai com uma crítica virulenta das prerrogativas temporais do papa, da intolerância religiosa, dos dogmas da infalibilidade papal e da Imaculada Conceição. Em 1875, logo depois da anistia aos bispos, Rui mais uma vez suscitou a revolta do clero contra si, ao defender publicamente a apresentação, na Bahia, da peça “Os Lazaristas”, considerada anticlerical por discutir os dogmas recentes da Igreja e a atuação temporal do papa.

Quando Rui chegou ao Rio, novamente o “capital social” herdado de seu pai funcionou a seu favor. Vinculou-se à Saldanha Marinho, que ampliava o anticlericalismo estabelecendo uma parceria com Rui ao convidá-lo para traduzir a obra antipapista, do alemão Johann Dollinger. Rui aceitou, pois estava com dificuldades econômicas e precisava obter renda para cumprir os seus principais compromissos. Saldanha garantiu a Rui que a maçonaria compraria 1.500 exemplares do livro, o que seria um grande elemento para se livrar das dívidas herdadas do pai.

Em fins de 1876, Rui retornaria à Serra Fluminense, mas ficaria doente de tifo, chegando a passar por risco de vida. Em seguida retornou a Salvador em meados de 1877, quando assumiu a direção do “Diário da Bahia”, devido à ausência de Rodolfo Dantas, passagem de sua vida que comprova mais uma vez os benefícios das relações pessoais e políticas de seu pai.

Em artigo publicado no jornal “Diário da Bahia”, Rui expressava seus anseios em relação ao povo brasileiro destacando o fato de os homens serem donos de sua própria história. A modernização política de Rui também era celebrada por sua ampla visão acerca da liberdade individual dos homens, como nos mostra o seguinte trecho: “[...] um povo digno de dominar os seus destinos, de ser indisputadamente senhor de si mesmo, não delira, não se atordoa, não fecha os olhos à realidade severa da sua posição. Nas horas mais freqüentes do regozijo, quanto a imaginação e o entusiasmo dourarem das suas irradiações os feitos de nossos pais, ouçamos, cada um no seio de sua alma”.

Outro marco importante de sua vida também ocorreu em 1877, quando ocorreu a homenagem ao General Osório, equivalente liberal ao Duque de Caxias para o Partido Conservador. Rui foi escolhido como orador para saudá-lo em nome da Comissão Central do Partido Liberal, em janeiro de 1878, com o Gabinete de Cansansão de Sinimbu.
É notória a importância da ascensão de Sinimbu. As eleições parlamentares imperiais eram feitas para referendar o Gabinete que assumia, e, portanto os liberais tinham sido a minoria parlamentar nos últimos 10 anos de governo conservador. A partir desse momento, com a ascensão dos liberais ao poder, jovens políticos, como Rui Barbosa, saíam do ostracismo.

Fica evidente que para a eleição de Rui, para ambas as câmaras, provincial e geral, foi decisiva a influência de Manuel Dantas. Este garantiu as eleições, como de costume na época, sem campanha, utilizando-se de arranjos internos da elite conforme as questões complexas de articulações políticas que envolviam as elites no final do século XIX e início do século XX.

No comentário de João Felipe Gonçalves a expressão política de Rui, corroborada por Dantas, pode ser sintetizada nas suas origens da seguinte forma: como deputado provincial a atuação de Rui não teve muitos incidentes dignos de nota (devido a sua curta duração). O maior embate em que se envolveu foi acerca de uma crise no abastecimento de farinha na cidade de Salvador. Rui defendeu um projeto que proibia temporariamente a exportação de farinha como forma de resolver a crise.

Sobre essa polêmica, dois aspectos são de destacar. Primeiro, a defesa de Rui Barbosa foi inteiramente calcada em exemplos similares da história parlamentar inglesa, mostrando a validade da suspensão do livre câmbio em certos casos. Segundo, o fato teve grande repercussão porque o grande opositor do projeto era Luís Antônio Barbosa, tio de Rui, com quem este rompera relações desde que ele rompera com Dantas e João José Barbosa. Tio e sobrinho passaram ao ataque mútuo e constante nos jornais soteropolitanos, trocando agressões abertas. Em mais um duelo verbal se envolvia o jovem Rui, e ia crescendo sua fama de orador e escritor capaz de destruir o argumento alheio. Desse duelo familiar Rui saiu em dezembro de 1878 para ocupar a cadeira na Assembléia Geral, na corte. Mas logo teria também ali chances de se sobressair através de polêmica igualmente ferozes.

Por último, abordamos os primeiros discursos de Rui na qualidade de Deputado Geral. O primeiro discurso foi contra o seu correligionário do Partido Liberal, Gavião Peixoto. Na ocasião, Rui argumentou que o candidato conservador João Mendes apresentava legitimidade para preencher a vaga na Assembléia, uma vez que defendia a tese de que Gavião Bueno tinha sua elegibilidade invalidada por ser concessionário de serviços públicos. Seu argumento não convenceu a Câmara Liberal, que acabou favorecendo a Gavião Peixoto, porém Rui aumentou com tal estréia sua tradição de tribuno eloqüente e perspicaz.

O segundo discurso significativo de Rui foi em defesa de uma atitude do governo imperial: ter dado o poder a um Gabinete Liberal e convocado novas eleições. Rui proferiu um discurso de aproximadamente quatro horas legitimando uma de suas marcas políticas. Mas o seu maior triunfo foi o duelo de eloqüência com Gaspar Silveira Martins, que tinha sido ministro da Fazenda do Gabinete Sinimbu, então no poder, o qual criticava. Martins discordava da reforma eleitoral proposta por Sinimbu, que não dava direitos políticos aos não-católicos, ponto defendido pelo grupo democrata de que era líder. Rui foi encarregado de defender o Gabinete Sinimbu na Assembléia.

No dia 16 de abril de 1879, o dissidente liberal atacaria o governo e Rui revidaria saindo vitorioso. Porém o ponto mais irônico da questão é que no ano seguinte Rui sugeriu um projeto de reforma eleitoral que determinava a concessão aos não-católicos dos direitos políticos de voto e elegibilidade, ponto que ocasionara a dissidência de Martins em relação ao Gabinete Sinimbu. Isso demonstra que não existia uma homogeneidade no discurso de Rui e ele agiria na arena política de acordo com seus interesses conjunturais em busca de atingir os seus principais objetivos.

Devemos nos lembrar que Rui se encaixava num contexto político que se fundamentou na razão clientelista. Na época, fim do Império início da República, a distribuição de favores governamentais tinha o nome de “patronato e filhotismo”. O meio pelo qual se exercia o patronato era o empenho, ou seja, o pistolão, o pedido, a recomendação, a intermediação, a proteção, o apadrinhamento e a apresentação. Rui viveu nesse período e utilizava a retórica liberal dispondo das benesses das políticas de troca de favores. Foi nesse turbilhão que Rui se fez.

Na história de sua formação, a própria carreira política do pai de Rui foi facilitada pelo apoio de um parente, Luís Antônio Barbosa de Almeida, e de um político conhecido como Manuel de Souza Dantas. A elite política controlava as promoções de cargos através do clientelismo e exercia dessa forma suas práticas de dominação.

Como visto, a formação intelectual de Rui foi espelhada em clássicos da Modernidade como Shakeaspeare, Vitor Hugo, Camões, John Locke, Tocqueville, Montesquieu, Adam Smith, Rousseau, Cavour, Darwin, Lincoln e outros. Já aos 10 anos recitava poemas de Camões e tinha grande familiaridade, conforme dito anteriormente, com os sermões do Pe. Antônio Vieira, base de sustentação de seu cristianismo liberal, que mais tarde se inclinaria ao que poderíamos denominar como “valor do salvador”.

No âmbito de sua carreira política, em 1884 deixou o parlamento, recandidatou-se por duas vezes consecutivas ao cargo, em 1885 e 1886, mas não conseguiu se reeleger. Fora da Câmara dedicou-se à advocacia, à imprensa e publicou a tradução de “Lições de Coisas”, do educador americano Norman Calkins, em 1896.

Na Imprensa, Rui Barbosa continuou a luta pela abolição, interrompendo-a em 1887, quando ficou doente. Em 1888, foi decretada a abolição da escravatura, o que encerrou a questão para o autor. No ano seguinte, ele envolveu-se em incidentes entre o governo e o exército e com a questão da federação.

No jornal “Diário de Notícias”, iniciou forte campanha para que o modelo monárquico fosse substituído pelo regime federativo, a exemplo dos Estados Unidos. Foi convidado pelo Visconde de Ouro Preto para ser ministro, mas Rui Barbosa, devido às suas ideias sobre federação no país, não aceitou, desvencilhando-se do Partido Liberal e da Monarquia.

Proclamada a República pela tropa comandada pelo general Deodoro da Fonseca, foi convidado para ocupar a pasta de finanças. Como ministro, foi bastante ousado: abandonou o lastro-ouro, ampliou as emissões de papel moeda e alterou o regime das sociedades anônimas, provocando uma reviravolta completa na vida econômica do Brasil. Alastrou-se, porém, pelo país o delírio da especulação, culminando com o encilhamento. Rui Barbosa foi criticado com violência.

No início da República, o ministro dedicou-se também à questão do saneamento urbano e à redação da nova Constituição. Foi nomeado vice-presidente da república, no período de 31 de dezembro de 1889 a agosto de 1890. Assim, como ministro da Fazenda e vice-presidente, trabalhou por quinze meses para o governo republicano – de novembro de 1889 a janeiro de 1891.

Logo depois sua demissão, o presidente da república teve muitos atritos com o parlamento e acabou pondo fim à Câmara. Em 23 de novembro de 1891, Floriano Peixoto liderou uma revolução restabelecendo o Congresso, o que levou a renúncia de Deodoro da Fonseca. Peixoto, como vice-presidente, assumiu o governo. Este não aceitou convocar nova eleição para presidente, decretando, em seguida, estado de sítio, levando muitos opositores ao cárcere. Encerrado o estado de sítio, Rui Barbosa, como advogado, pediu o hábeas-corpus em favor dos desterrados.

Pela imprensa, divulgou os trabalhos norte-americanos e a sua influência na Constituição. Em 1892, reelegeu-se senador pela Bahia e assumiu a direção do Jornal do Brasil, onde pedia eleição para presidente. O país agitava-se: em seis de setembro de 1893 ocorreu a revolta da Marinha contra o governo Floriano Peixoto. Embora Rui Barbosa não estivesse envolvido com os revoltosos, sob ameaça do estado de sítio, foi obrigado a procurar abrigo na legação do Chile. Em seguida, saiu do país com destino à Argentina. Tentou retornar ao Brasil, mas não obteve sucesso. Assim, fixou-se na Argentina, com a família, permanecendo neste país seis meses. Em seguida, mudou-se para Portugal, posteriormente se transferindo para a Inglaterra, e lá se estabeleceu em Londres, onde colaborou com o Jornal do Comércio. Com a reunião dos artigos publicados neste jornal escreveu “Cartas da Inglaterra”.

Pela imprensa, divulgou os trabalhos norte-americanos e a sua influência na Constituição. Em 1892, reelegeu-se senador pela Bahia e assumiu a direção do Jornal do Brasil, onde pedia eleição para presidente. O país agitava-se: em seis de setembro de 1893 ocorreu a revolta da Marinha contra o governo Floriano Peixoto. Embora Rui Barbosa não estivesse envolvido com os revoltosos, sob ameaça do estado de sítio, foi obrigado a procurar abrigo na legação do Chile. Em seguida, saiu do país com destino à Argentina. Tentou retornar ao Brasil, mas não obteve sucesso. Assim, fixou-se na Argentina, com a família, permanecendo neste país seis meses. Em seguida, mudou-se para Portugal, posteriormente se transferindo para a Inglaterra, e lá se estabeleceu em Londres, onde colaborou com o Jornal do Comércio. Com a reunião dos artigos publicados neste jornal escreveu “Cartas da Inglaterra”.

Em 1895 retornou ao Brasil e no ano seguinte se reelegeu senador pelo seu estado natal. Rui Barbosa voltou-se para o jornalismo e publicou artigos no jornal “A Imprensa”. Em 1902 trabalhou na comissão incumbida de estudar o projeto do Código Civil. Em 1905 participou das discussões sobre os limites entre Brasil e a Bolívia, que disputavam o território do Acre. Rui Barbosa saiu desta negociação por discordar do encaminhamento dado por Rio Branco, ministro das Relações Exteriores. Após a resolução desta questão, assumiu, como advogado, a causa movida pelo estado do Amazonas contra o Brasil, pelo qual requisitava o território do Acre.

Em 1907 foi convidado para ser representante brasileiro na Segunda Conferência da Paz, que seria realizada em Haia. Sua participação nesta conferência é descrita, pelos biógrafos e comentaristas, com muitos louvores. No ano de 1909 candidatou-se para presidente da República, disputando o pleito com Hermes da Fonseca. Esta disputa ficou conhecida como campanha civilista. Ele obteve a maioria de votos das grandes cidades, porém perdeu no interior do país.

Em 1916 ele foi convidado por Wenceslau Braz para representar o país na Argentina, na qualidade de embaixador, durante as comemorações da independência daquele país. As nações reunidas na Faculdade de Buenos Aires decidiram que não ficariam neutras diante da Primeira Guerra.

O ano de 1918 foi especial, pois ocorreu a comemoração do Jubileu Cívico de Rui Barbosa, sendo que, logo depois, inaugurou-se o seu busto na Biblioteca Nacional. No ano seguinte, concorreu para a presidência do país, disputando a eleição contra Epitácio Pessoa, que acabou saindo vitorioso. Com o fim dessa eleição, foi para a Bahia apoiar um candidato de oposição. Em 1921 renunciou à cadeira de senador, porém seu mandato foi renovado. No ano de 1922, em que Artur Bernardes passou a comandar a presidência da república. Rui Barbosa não acompanhou esse governo, pois ficou doente e se retirou para Petrópolis. O diagnóstico do médico apontava para uma “paralisia bulbar”. Na tarde de março de 1923, Rui faleceu".


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Fonte:
Leandro de Almeida Silva: “O Discurso Modernizador de Rui Barbosa -1879-1923”. (Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Orientadora: Prof. Drª Cláudia Maria Ribeiro Viscardi). Juiz de Fora, 2009.

Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível digitalmente em: www.dominiopublico.gov.br