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22/12/2015

"Os Contos de Belazarte", de Mário de Andrade


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BELAZARTE: DO CONTO POPULAR AO CONTO MODERNO

Ao lermos Os Contos de Belazarte, nos deparamos com inúmeras marcas de oralidade no discurso narrativo. Não só aparece a personalidade de Belazarte, suas opiniões sobre o que narra, mas também os momentos em que não lembra bem o que quer contar ou quando percebe estar falando sobre a história de alguém que não importa, voltando à narrativa principal. Neste capítulo, partiremos desse ponto e mostraremos de quais formas se dá o descompasso entre narrador dos contos e matéria narrada. Para isso, trabalhamos com essas marcas de oralidade, com a origem do narrador (uma paródia de Pedro Malasartes) e com os problemas do conjunto. Nosso objetivo foi analisar os diversos traços de determinados contos que mostram a diferença entre posição do narrador e marcas textuais (como a s falas das personagens, por exemplo).

Iniciamos com uma das dissonâncias de Belazarte, que, a exemplo da epígrafe deste capítulo, mantém características de um narrador oral. No caso, a tentativa de lembrar o nome de família de Nízia gera a hesitação , o esforço de rememoração que é representado graficamente pelas reticências. Por outro lado, o individualismo do narrador romanesco está presente no Belazarte urbano, membro de uma São Paulo em crescimento e modernização. O narrador se mantém o mesmo do início ao fim da narrativa... em sua ambivalência constitutiva.

Luís da Câmara Cascudo, no livro Literatura Oral no Brasil, fala sobre a tradição de contar histórias e dessa tradição oral em oposição à literatura escrita e canônica. O autor fala sobre a literatura oral “sem nome em sua antiguidade, viva e sonora, alimentada pelas fontes perpétuas da imaginação, colaboradora da criação primitiva, com seus gêneros, espécies, finalidades, vibração e movimento, contínua, rumorosa e eterna, ignorada e teimosa” (CASCUDO, 2006, p.25) e das características dessa tradição ao atravessar o tempo e o espaço. De outro lado, está a “literatura que chamamos oficial, pela sua obediência aos ritos modernos ou antigos de escolas ou de predileções individuais” (Ibid., p.25) que “express a uma ação refletida e puramente intelectual” (Ibid., p.25).

A sua irmã mais velha, a outra, bem velha e popular , age falando, cantando, representando, dançando no meio do povo , nos terreiros das fazendas, nos pátios das igrejas nas noites de “novena”, nas festas tradicionais do ciclo do gado, no baile do fim das safras de açúcar, nas salinas, festa dos “padroeiros”, potirum, ajudas, bebidas nos barracões amazônicos, espera de “Missa do Galo”; ao ar livre, solta, álacre, sacudida, ao alcance de todas as críticas de uma assistência que entende, letra e música, todas as gradações e mudanças do folguedo . (Ibid., p.25-26, grifo nosso)

Além da separação entre a literatura oral e a “ofic ial”, outro ponto nos interessa particularmente. Câmara Cascudo disserta sobre as técnicas da narrativa popular: fórmulas, informações, recursos auxiliares de diferentes nacionalidades. O autor diz, por exemplo, que no início dos textos há, comumente, “fórmulas usuais” (Ibid., p.250), como o “Era uma vez...” ou o “Diz-se que era uma vez...”. Da mesma maneira, as fórmulas existem também para os fechamentos: “Para findar, as fórmulas são várias e raro será o narrador que as esqueça” (Ibid., p.251), como o “E viveram felizes para sempre”, ou como nos exemplos trazidos pelo autor: “Acabou... Viveram sempre muito felizes e acabou”, “Quem o disse está aqui. Quem o quiser saber vá lá... [...]” ou “Vitória! Vitória! Acabou-se a história” (Ibid., p. 252-253).

O mesmo acontece em Belazarte: há um repetido refrão no início: “Belazarte me contou:” e no final “fulana foi muito in/feliz”. Essa é uma espécie de “moldura” das histórias, pois dá abertura e fechamento para elas, funcionando como um artifício mnemônico do narrador para guardar e depois contar a história. Esses bordões também fazem parte do aspecto esquemático, do esqueleto da história, daquilo que sempre se repete de forma a manter um ritmo regular na narrativa. Em carta enviada a Carlos Drummond de Andrade, Mário mostra sua visão sobre os refrões do livro.

Quase todas as histórias acabam com o refrão Fulano foi muito infeliz. Fulano foi muito feliz vem em duas histórias só, são felizes uma bêbada esquecida do mundo Nízia Figueira e um moço bobo. [ ...] E veja, hoje, todos os gêneros se baralham, isso até Croce já decretou está certo. Romances que são estudos científicos, poemas que são apenas lirismo, contos que são poemas, histórias que são filosofias etc. etc. Não tem a mínima importância e vamos e vamos agora saber qual é o conceito exato de romance! Eu estou achando que o defeito de certas histórias de Belazarte é que estão um pouco pesadonas de tão compridas porém contra isso não posso nada. É estilo de Belazarte e não meu . (ANDRADE, 2008, p.15-16, grifo nosso).

O autor coloca a questão do refrão ao lado da hibridização dos gêneros. A percepção de Mário de que os contos estariam muito longos, de que os gêneros se embaralham, colabora para a discussão deste capítulo, pois da mesma forma que ele considera não haver linha divisória clara entre romances, poemas, contos, assim também se comportam os contos de Belazarte: entre a tradição oral popular e o conto moderno.

É imprescindível esclarecer que a posição assumida  neste trabalho é a de distinção entre autor e narrador, destacada pelo próprio Mário de Andrade no trecho acima. Em alguns textos lidos para esta dissertação, essa divisão autor/narrador não é clara.

Sobre essa tradição oral, Câmara Cascudo ainda mostra que há outras técnicas interessantes nessas narrativas. Uma delas se refere ao narrador dizer ter acontecido na realidade aquilo que ele narra “No tempo antigo era assim” (CASCUDO, 2006, p.260). Outra é a dos finais contemplarem sempre a felicidade das personagens: “Noventa e nove e quatro quintos dos contos populares terminam bem, casamento, castigo do vilão, felicidade perfeita, alegria, banquetes, danças” (I bid., p.261). Vale destacar aqui a inversão sistemática do final: nos três primeiros contos d’Os Contos de Belazarte, os finais são os já mostrados aqui: “Rosa/Carmela/Teresinha foi muito infeliz”, de forma a alterar a versão tradicional das histórias populares para a realidade da vida/do conto.

N’Os Contos de Belazarte, Mário propõe “bordões” a serem repetidos por seu narrador de modo similar aos da tradição. Não há mera repetição, mas reinvenção. E há diversas técnicas que “copiam” essa tradição oral transposta para o papel. O narrador usa frases típicas dos que contam histórias: “olhe o que aconteceu com Rosa...” (ANDRADE, 2008, p.27); “você se lembra do João?” (Ibid., p.39); “faz quanto tempo nem sei” (Ibid., p.27), “parece incrível, não?” (Ib id., p.27), “conto o resto do que sucedeu pro João um outro dia” (Ibid., p.37).

O mesmo narrador faz julgamentos e reflexões sobre a vida: “coitado!” (Ibid., p.32); “o pobre” (Ibid., p.32) “é pena... tradição que já vai se perdendo...” (Ibid., p.43); “ah, meu caro, tempo corre!...” (Ibid., p.46); “essas coisas de gente meia pobre são tão baixas” (Ibid., p.47). E tenta localizar suas histórias no espaço: “talvez andasse pelas fazendas... Sei que fora visto uma vez em Botucatu” (Ibid., p.40).

Além desses índices de oralidade, há um esforço de aproximação do contador, Belazarte, com o leitor/ouvinte da história: “[ele] não sabia o que estava esperando. Nós é que sabemos, não?” (Ibid., p.35); “Você já sabe que sou cristão...” (Ibid., p.115).

Observamos que o narrador tenta construir uma relação íntima com seu interlocutor. Esse movimento coloca o leitor do livro de contos em solidariedade com esse narrador que busca cumplicidade.

Conforme dissemos no início do capítulo, em determinados momentos o narrador embarca por veredas de outras histórias, tece comentários digressivos que não têm relação com a história principal:

[quando está descrevendo quem foi ao circo] “Vieramos irmãos Garcias, de casaca, e o Dr. Cerquinho tão conhecido, médico bom do bairro. – Olha o doutor Cerquinho! – O doutor Cerquinho!... Homem tã o bom, consultas a três milréis... Quando não podia pagar, não fazia mal, ficava pra outra vez.” (Ibid., p.43-44)

Esse trecho sobre o Dr. Cerquinho não é retomado em nenhum outro momento relevante nos contos, não há nenhuma relação dele com as personagens do conto “Jaburu Malandro”, onde ele está localizado. Em outro conto, o próprio narrador parece dar-se conta dessas veredas por onde se encaminha o seu “contar”. Quando entra na história de “Piá não sofre? Sofre.”, o narrador inicia descrevendo Alfredo na penitenciária. Como isso não colaboraria para a história principal, sentencia: “Estou perdendo tempo com ele” (Ibid., p.99) e passa a falar de Teresinha e de Paulino. Ao que tudo indica, esse movimento de se afastar da narrativa principal traduz o gesto dispersivo e despreocupado do narrador oral, que se deixa levar pela associação de ideias, abre uma nova vereda, se dá conta de que está se perdendo... e volta ao fio da meada. É o ritmo da conversa levada à escrita.

E qual a origem da oralidade de Belazarte? Ela tem início nas “Crônicas de Malazarte”, publicadas na revista América Brasileira entre 1923 e 1924. A pesquisadora Ivone Rabello explica que, nessas crônicas, Mário, amante das polêmicas, criou dois personagens. De um lado estava Malazarte, que “caricaturizava a consciência eufórica, tendente à alegria permanente que vê na ‘aldeia a grande cidade industrial’.” (RABELLO, 1999, p.27). De outro, Belazarte, com uma “rabugice tristonha de quem ‘na casa tijolada da aldeia vê taperas’.” (Ibid., p.27). Para a autora, esses dois personagens aparecem nas crônicas através de “posiç ões tipificadas”, entrando o próprio Mário no debate imaginário, “no papel de cronista-pedagogo” (Ibid., p.27). No título desse conjunto de dez crônicas também está a referência ao narrador Pedro Malasarte das histórias populares. Ele é um malandro à moda antiga, uma espécie de justiceiro dos pobres, que ajuda aqueles que precisam de proteção, normalmente contra os patrões, os mais ricos etc.

Câmara Cascudo fala sobre essa personagem tão tradicional, trazida pelos portugueses que emigravam “com o seu mundo na memória” (CASCUDO, 2006, p.182). Segundo ele, outras personagens muito conhecidas têm a mesma origem lusa, como, por exemplo, o lobisomem, as bruxas, as fadas, os gigantes, os príncipes e personagens como Maria Sabida e como Pedro Malasarte. Além disso, o pesquisador explica que a história de Malasarte “é um centro de interesse reunindo estórias de muitas origens, castelhanas, francesas, italianas” (Ibid., p.186). Ou seja, dentro das histórias de Malasarte há inúmeras outras histórias sendo contadas, histórias que foram misturadas a elementos locais e a características dos nativos.

Talvez a história mais famosa dessa personagem popular seja a da sopa de pedra. Vamos retomá-la brevemente. Um dia, andarilhando na estrada e cheio de fome, Pedro Malasarte se depara com um sítio grande, com muitos animais, frutas e verduras. Ele pede ajuda, implorando por comida. A velha dona do sítio diz que não pode ajudar, que não pode dar nada para ele saciar a fome. Percebendo que a mulher era uma avarenta, Pedro resolve usar toda a sua esperteza. Pede que ela lhe empreste apenas uma panela, água e pedras, que ele resolveria o resto, fazendo sua famosa sopa de pedras. Intrigada com a possibilidade de fazer uma sopa com pedras, a velha traz o material. Logo, Pedro pede também um pouco de sal, para que a sopa fique mais gostosa. A velha traz. Ele pede também um pouco de cenoura e batata. A velha vai trazendo as verduras interessada na mágica sopa. Por último, o malandro pede um pedaço de carne, para que a sopa fique perfeita. Ao terminar, Pedro toma a sopa, restando apenas a pedra no fundo. Questionado se não a comeria, ele responde que ela vai servir pra enganar outra pessoa no futuro.

O contraste entre Pedro Malasarte e as personagens d’Os contos de Belazarte é notável: impossível que elas vençam a condição de p obres, muito por causa de sua ingenuidade, o que, conforme nos diz a pesquisadora Irenísia Oliveira, “seria uma virada na moral das apreciadas histórias de Pedro Malasartes, mostrando agora que os resultados não comprovam a vitória da esperteza do fraco” (OLIVEIRA, 2008, p.6).

Ou seja, de forma contrária à tradição oral, os pobres e desvalidos encontram a derrota em Belazarte. E essa característica da tradição oral aparece na teoria de Benjamin, quando o crítico explica o lugar dos contos de fadas como conselheiros da humanidade. Primeiro, o autor mostra os diversos tipos de personagens que foram usados na oralidade para libertar o homem do mito. Segundo ele, esses contos de fadas, onde estariam os primeiros narradores verdadeiros, eram o lugar de procura das pessoas por conselhos, quando estes ainda tinham força. O “ tolo”, o “rapaz que saiu de casa”, o “inteligente” são exemplares de como se pode vencer , de como o homem pode sair vitorioso quando se depara com situações modelo: “o conto de fadas ensinou há muitos séculos à humanidade, e continua ensinando hoje às crianças, que o mais aconselhável é enfrentar as forças do mundo mítico com astúcia e arrogância.” (BENJAMIN, 1995, p.215). Benjamin não fala em vitória pela força, ma s, na tradição oral, em uma espécie de vitória alcançada através da vivência e do ouviras histórias dos outros – mais velhos, mais vividos, mais viajados. Assim como nas histórias de Pedro Malasarte, o pobre pode sim sagrar-se vencedor nas dificuldades da vida, desde que imbuído de coragem, astúcia e arrogância – o que os afasta d’ Os Contos de Belazarte.

Há ainda outras grandes diferenças entre o narrador estudado neste trabalho, calcado na oralidade, e a teoria de Câmara Cascudo. O estudioso fala que “A técnica da exposição é simples, nua e perfeita de sequência lógica. Não há pormenor dispensável nem a paisagem demora a narrativa” (CASCUDO, 2006, p.262). Para ele, os narradores tradicionais orais usam poucas frases, fazem raros comentários que fogem da ação principal.

No discorrer do enredo, raramente se abandona o principal pelo acessório embora de inapreciável efeito temático. Segue a estória em linha reta, ação por ação, uma verdadeira gesta. Só se volta para acompanhar outro fio da narrativa quando o essencial-característico pode esperar, imóvel, que os outros personagens entrem em cena na hora exata da “deixa”. (Ibid., p.262)

Esse comportamento linear e desprovido de “floreios ” seria impossível para o narrador vaidoso que estamos discutindo. Belazarte coloca-se em primeiro plano, lugar diferente das pessoas que narra, como veremos adiante, e não poderia deixar-se apagar em vista da “gente meia pobre” (ANDRADE, 2008, p.47 ), da “gente do povo” (Ibid., p.55), dos “desinfelizes” (Ibid., p.92). Nesse sentido, esse narrador estaria mais perto do que nos diz Benjamin. Para ele, a narrativa não se ria “pura em si”, como a informação ou um relatório. Carregada de elementos de seus narradores, “ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Asim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso ” (BENJAMIN, 1995, p.205). Os narradores estariam “presentes de muitas maneiras n as coisas narradas, seja na qualidade de quem as viveu, seja na qualidade de quem as relata” (Ibid., p.205).

Cabe aqui um parênteses. A preferência pelas marcas do narrador em detrimento da narrativa “pura em si” acontece de forma semelhante em Simões Lopes Neto. Nos Contos Gauchescos, o autor parte de um enredo simples: da tradição oral, enraizada na cultura popular, (ou seja, dos narradores anônimos, iguais em todas as histórias) para a narração única, peculiar, de um autor (vale ressaltar a importância do gesto de narração: colocar Blau Nunes para narrar as histórias, introduzir esse narrador no início dos contos e tomar a palavra. Esse é um dos maiores valores dos contos). Silvio Romero (1897), em seu livro Contos Populares do Brasil, traz a escrita do conto popular “Melancia e coco mole”, de onde Simões possivelmente retirou a matéria básica do conto “Melancia – Coco Verde”. No primeiro, um conto popular, segundo Silvio Romero, trazido do Recife, há economia de personagens – que não têm nomes (“um homem”, “a moça”, “o rapaz”) – e uma história simplificada e rápida, que carece de verossimilhança (no final da história, no dia da festa do casamento da moça com o marido que o pai dela escolheu, ela consegue, através da astúcia do pajem do homem por quem é apaixonada, se livrar da obrigação do casamento arranjado e se casar no mesmo dia com o homem que amava) e onde o único dado comportamental é um “ele estava triste”.

Nada facilita mais a memorização das narrativas que aquela sóbria concisão que as salva da análise psicológica. Quanto maior a naturalidade com que o narrador renuncia às sutilezas psicológicas, mais facilmente a história se gravará na memória do ouvinte, mais completamente ela se assimilará à sua própria experiência e mais irresistivelmente ele cederá à inclinação de recontá-la um dia. (Ibid., p.204)

Benjamin nos mostra, no trecho acima, que para a longa permanência da narrativa, é necessário valer-se de meios que facilitem a memorização da história – que precisa ser concisa e natural. O que vemos na transformação desse conto popular para a obra criada por Simões é a personalidade do narrador, o adensamento psicológico das personagens, a escolha por determinados trechos e exclusão de outros episódios. Ou seja, o trabalho detalhado e único, em oposição ao coletivo e generalizador da tradição popular.

Fechado o parênteses, voltamos à Câmara Cascudo, que descreve também o posicionamento corporal do contador através dos movimentos expressivos e as modulações da voz. O pesquisador explica que as histórias tradicionais contadas usavam gestos e entonações para caracterizar tanto uma personagem a partir de suas falas – a voz diferente da bruxa, a rouquidão do ancião, a delicadeza da criança – como indicar lugares no corpo de quem conta a história, de forma a fazê-la mais real e impactante:

Os pronomes demonstrativos e possessivos não satisfazem plenamente a necessidade da expressão pictórica. Creem ser uma ideia pálida dizer que o golpe de espada, a chifrada do touro ou a caída da árvore alcançou o herói na sua perna ou nessa perna, direita ou esquerda. Acompanham sempre de uma indicação mais precisa, localizando a ferida ou o golpe no “aqui na perna lá dele”, como se diz nas províncias do norte português, “cortou a orelha dele, bem rente...”. Ocorre o poder evocador e mágico do nome, atraindo para o ponto indicado a ferida citada. (CASCUDO, 2006, p.256).

Ele mostra, com razão, que o conto popular é uma mistura da voz com o gesto do narrador em interação com seus ouvintes. Não consegue, todavia, mostrar isso na reprodução, feita ao longo do livro Literatura Oral no Brasil, dos contos populares que resgatou. Neles, o autor usou a linguagem convencional, a linguagem culta.

No mesmo sentido, Paul Zumthor (2007) explica a ideia de performance como um conceito antropológico, um momento privilegiado da recepção, “em que um enunciado é realmente recebido.” (ZUMTHOR, 2007, p.50). Esta colocação explica-se através dos vários momentos de um texto poético, formação, transmissão, recepção, conservação e reiteração. Numa situação de oralidade pura:

a “formação” se opera pela voz, que carrega a palavra; a primeira “transmissão” é obra de um personagem utilizando em palavra sua voz viva, que é, necessariamente, ligada a um gesto. A ‘recepção’ vai se fazer pela audição acompanhada da vista, uma e outra tendo por objeto o discurso performatizado: é, com efeito, próprio da situação oral, que transmissão e recepção aí constituam um ato único de participação, co-presença, esta gerando o prazer. (Ibid., p.65, grifo nosso)

É este ato único, em que se encontram transmissão e recepção, que Zumthor diz ser a performance. Envolvendo, assim, todo o contexto do discurso: tempo, lugar, ação do locutor e resposta do público. Cabe mais uma vez lembrar Walter Benjamin, quando o crítico alemão relaciona narração à prática surgida da interação entre alma, olho e mão. Ele explica que a interação entre as três partes define uma prática que nos deixou de ser familiar. À mão pertencia um trabalho que hoje é mais modesto e o espaço ocupado por ela na narração é atualmente um espaço vazio, “pois a narração, em seu aspecto sensível, não é de modo algum o produto exclusivo da voz. Na verdadeira narração, a mão intervém decisivamente, com seus gestos, aprendidos na experiência do trabalho, que sustentam de cem maneiras o fluxo do que é dito” (BENJAMIN, 1995, p.220-221).

Segundo Zumthor, por seu caráter heterogêneo, seria impossível definir performance de forma simplificada. Mas em qualquer que seja a definição, sempre encontraremos um elemento irredutível: “a ideia da presença de um corpo” (Ibid., p.38). Isto por causa da percepção sensorial do ouvinte. Por isso, num discurso oral se faz importante notar os conceitos de voz e de teatralidade. O autor considera a voz “não somente nela mesma, mas (ainda mais) em sua qualidade de emanação do corpo e que, sonoramente, o representa de forma plena.” (Ibid., p.27). E a teatralidade refere-se ao reconhecimento de um espaço de ficção.

A condição necessária à emergência de uma teatralidade performancial é a identificação, pelo espectador-ouvinte, de um outro espaço; a percepção de uma alteridade espacial marcando o texto. Isso implica alguma ruptura com o ‘real’ ambiente, uma fissura pela qual, justamente, se introduz essa alteridade. (Ibid., p.41).

Segundo ele, a performance não é apenas um meio de comunicação – ela afeta o texto poético: “A performance e o conhecimento daquilo que se transmite estão ligados naquilo que a natureza da performance afeta o que é conhecido. A performance, de qualquer jeito, modifica o conhecimento.” (Ibid., p.32, grifo nosso). Portanto, fica clara a importância da performance, principalmente quando o autor, ao falar sobre suas pesquisas de campo em busca da “oralidade” da voz poética, constata que “a performance é o único modo vivo de comunicação poética.” (Ibid., p.34).

A partir disso, queremos mostrar que a tradição oral se confronta com a escrita, obviamente necessária para o gênero conto moderno. A preferência do escritor por colocar elementos da fala no texto escrito não representa de fato a oralidade. Vale atentar para algumas escolhas discursivas:

“João percebe que si beber outra vez, se prejudicará demais” (ANDRADE, 2008, p.37, grifo nosso);
“João sentiu-se mais feliz que o rei Dom Carlos. Safado rei dão Carlos...” (Ibid., p.46, grifo nosso).

Evidencia-se aí a preocupação de representar na escrita o gesto oral. Mas, se acreditarmos realmente na oralidade de Belazarte, como explicar o uso de um “si”, um “sinão”, um “quasi”, um “xicra” ao lado de um “buscá-los” ou um “besouro” (e não “bizoro”)? Essa tensão entre oralidade e escrita na superfície do discurso traduz um dilema mais profundo. A performance altera a própria natureza da fala do narrador em co-presença com seu ouvinte. Então, como traduzir o conto popular para a escrita de um conto moderno?

Além desse ponto, há uma tensão entre: 1º - o interlocutor de Belazarte, que se coloca como ouvinte. Atentemos para as marcas de Belazarte fazendo referência a esse interlocutor: “Não brinque com essa história de sempre isolar sem pre que falo em mãe, o caso é triste” (Ibid., p.64), “Você é músico, e do conservatório grande lá da avenida São João, por isso há-de se divertir com o caso...” (Ibid., p.65), “Mesmo no Brás tinha um moço muito bonzinho, coitado! que estudava violi no com o professor Bastiani, colega de você.” (Ibid., p.65). E 2º - o interlocutor do conto de Mário de Andrade, o leitor do livro. Essas duas instâncias traduzem duas formas de composição que se colocam em conflito dentro da composição do conto. Como incorporar a fala do outro (sem diminuí-la, sem deformá-la)? Como traduzir na escrita a língua, o contar tão performático da tradição popular?

Para Zumthor, as duas situações (de oralidade VS. de escrita) se opõem “como um conjunto de processos naturais a uma série de procedimentos artificiais” (ZUMTHOR, 2007, p.66). O autor diz que a leitura, por não envolver todos os elementos da percepção utilizados na oralidade, estaria sendo cada vez mais rejeitada por jovens. E que, além disso, muitos leitores de poesia articulam, interiormente pelo menos, os sons. “A leitura literária não cessa de trapacear a leitura. Ao ato de ler integra-se um desejo de restabelecer a unidade da performance, essa unidade perdida para nós, de restituir a plenitude – por um exercício pessoal, a postura, o ritmo respiratório, pela imaginação.” (Ibid., p.67).

A tentativa de transpor o conto popular – tale – para o conto moderno – short story – sempre será uma utopia, um plano irrealizável pelo simples fato de eles não pertencerem ao mesmo gênero. Benjamin reflete sobre isso quando explica que a falta de tempo do cotidiano está intimamente ligada ao surgimento do conto moderno, que nasce da tradição oral, mas não permite a “superposição de camadas finas e translúcidas” (BENJAMIN, 1995, p.206). Não há superposição de histórias sendo recontadas. Essa seria a grande diferença entre o conto popular e o conto moderno: o conto moderno não permite a alteração do próximo contador, é esteticamente único, tem cuidado formal.

já passou o tempo em que o tempo não contava. O homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado. Com efeito, o homem conseguiu abreviar até a narrativa. Assistimos em nossos dias ao nascimento da short story, que se emancipou da tradição oral e não mais permite essa lenta superposição de camadas finas e translúcidas, que representa a melhor imagem do processo pelo qual a narrativa perfeita vem à luz do dia, como coroamento das várias camadas constituídas pelas narrações sucessivas. (Ibid., p.206)

Além disso, é comum que o narrador oral fale de experiências próprias, para que os conselhos e as reflexões tenham mais verdade e autenticidade. Em oposição a isso, o narrador estudado escolhe como matéria prima de sua histórias a periferia italiana de São Paulo, da qual ele está socialmente distante. Conforme nos diz Benjamin, “o grande narrador tem sempre suas raízes no povo” (Ibid., p. 214), o que contrasta com a posição de Belazarte. Sua falta de estabilidade gera um problema estrutural, de um narrador que ora elogia o popular, as pequenas sutilezas e belezas do pobre, ora trata seus amores ou as mulheres como aberrações. Isso nos aproxima do que diz Theodor Adorno: o narrador não é objetivo porque já parte da subjetividade de impor a ilusão de sua história e da linguagem escolhida para a representação: “A nova reflexão é uma tomada de partido contra a mentira da representação, e na verdade contra o próprio narrador, que busca, como um atento comentador dos acontecimentos, corrigir sua inevitável perspectiva” (ADORNO, 2003, p.60).


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Fonte:
Gabriela Mattos Cardoso: “Os contos de Belazarte: um narrador e um projeto estético”. (Dissertação de Mestrado em Literatura Brasileira, apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Orientador: Prof. Dr. Antônio Marcos Vieira Sanseve rino). Porto Alegre, 2013.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

03/10/2015

O Sonhador (Contos), de Salomão Rovedo


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ÍNDICE

MORTOS NÃO DEIXAM GORJETA
A RESPEITO DE LIZA
O ENTERRO DE ELIAS
SEM ESTER
O MUNDO É PEQUENO
O REI CAPTURADO
O SONHADOR
QUEM PODE SABER?
CARLO PORTINHO, CANTOR

27/09/2015

Histórias de Futebol, de Salomão Rovedo

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Introito

O momento é do esporte e o esporte mais popular do país é o futebol. Desde os campos nos lugares mais remotos, nas aldeias indígenas, nos bairros e favelas miseráveis, nas praias, nas várzeas, com chuva ou sol – lá está o ‘campinho’, lá está a turma preparada para dividir dois times, botar a bola no meio de campo e dar o pontapé inicial. Daí pra frente tudo é emoção, alegria, raiva, suor, elementos que se misturam e provocam as mais diversas reações que, infelizmente, muitas vezes se transformam em violência. Mas isso é conta menor, o que mais se vê é a confraternização, o comentário, a arbitragem honesta mesmo sem juiz – na maior parte a pelada, o futebol, tudo leva à harmonia.

Não acredito que tenha tido em minha vida mais alegrias das que tive jogando ou assistindo partidas de futebol. Desde esse ‘estádio do Covão’, até o futebol nas areias das praias do Olho D’Água, depois Copacabana, os jogos nos campos oficiais do Aterro do Flamengo (Parque Eduardo Gomes), onde os campos de futebol predominam, a alegria do futebol é a mesma, traduzindo amizade e confraternização. Um bom churrasco, cerveja gelada, um pagode para encerrar a partida, trazem o ambiente de novo à paz e paz e à alegria.

A ideia de criar um grande parque na área do aterro foi da paisagista Carlota de Macedo Soares, com projeto paisagístico de Burle Marx. O parque foi destinado a atividades esportivas, tendo quadras de futebol, tênis, vôlei, basquete, pistas de skate, de aeromodelismo e modelismo naval. Os campos de futebol no trecho inicial da Praia do Flamengo foram criados por iniciativa de Rafael de Almeida Magalhães, outro apaixonado pelo futebol.

Por isso resolvi agrupar estas histórias de futebol. Que elas despertem em cada um também a vontade de contar as aventuras nos campos, de capim, gramados ou de terra, campos em que o limite é o mar, desde as areias fofas de Copacabana às areias duras da praia do Olho D’Água. As boladas e faltas que levaram, nos gols espetaculares, as bolas perdidas, as divididas cujas dores deixam calombos nas pernas, dedos doloridos e estufados, o abraço caloroso das comemorações. Ainda de sobra muitos podem contar também as aventuras amorosas e paixões desencadeadas, cuja trajetória começou nos campos de futebol, se transformando em namoro, culminando em festa, em família, com as bênçãos do padre e dos amigos.

Rio de Janeiro, Cachambi, julho de 2014.

12/09/2015

Três Contos de Camilo Castelo Branco

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Dinheiro! Dinheiro! (Conto), de Camilo Castelo Branco

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Breves notas biográficas Camilo

Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa, na Rua da Rosa, a 16 de Março de 1825, apesar de sempre ter afirmado haver nascido apenas em 182628 . Foi baptizado na Igreja dos Mártires a 14 de Abril de 1825, vindo a ser perfilhado pelo pai aos quatro anos e falecendo em São Miguel de Ceide às cinco horas do dia 1 de Junho de 1890, vítima de um tiro que desferira na têmpora direita num momento de desespero. Era filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, solteiro, e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira, que viviam em mancebia e já tinham uma filha mais velha, Carolina. Pouco se sabe acerca da mãe de Camilo e também se desconhece a razão que levou Manuel Joaquim Botelho a certificar as crianças como filhas de mãe incógnita, suspeitando-se que tal se deveu ao facto de ela ser uma mulher humilde, provavelmente criada de Manuel Joaquim Botelho.

 Camilo ficou órfão de mãe com cerca de dois anos e de pai quando contava dez, carregando a sua orfandade pela vida fora. Muitos foram os desgostos que sofreu e que aos poucos lhe retiraram a vontade de viver. Para além do sofrimento que a perda prematura dos pais lhe provocara, Camilo também padeceu muito com o facto de ser filho de mãe incógnita, com a ganância dos familiares, os parcos recursos económicos , a não-aceitação por parte da sociedade de então e as vidas frustradas dos filhos. Toda a sua instabilidade afectiva, nascida da ausência do amor e carinho dos pais, assim como do facto de não ter uma casa a que pudesse chamar lar, se veio a revelar no seu carácter melancólico e no modo depressivo de encarar a vida. Assim, quando a cegueira ameaçava afastá-lo do mundo das letras, o génio escolheu retirar-se do palco da vida.

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Fonte:
Daniela Maria Vaz Daniel: "Leituras e leitores de Camilo Castelo Branco, em particular, Agustina Bessa-Luís". (Dissertação de Mestrado Orientador: Professor Doutor António dos Santos Pereira - Universidade da Beira Interior -  Faculdade de Artes e Letras Departamento de Letras). Covilhã, 2010.

A caveira (Conto), de Camilo Castelo Branco

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O universo ficcional de Camilo Castelo Branco: análise de alguns expedientes literários.
  
Esta sociedade, que vos manda sentar no seu baquete, retira-vos o talher no dia em que disserdes que vos deram gato por lebre. Comei o gato em público; e se o estômago o não digere, lançai-o bem a ocultas, de modo que vos não ouçam o soluço nauseado do vômito.

GATO POR LEBRE, meus amigos folhetinistas encarregados de provar que não há gato, seja aquele o vosso mote, o timbre do vosso jornal, se a sorte mofina vos fadar para este fadário em que me vejo.

Camilo Castelo Branco
Um Homem de Brios

A fim de mostrar que a ficção camiliana não pode se r tida como sinônimo de meras “história[s] de amor” (REIS, 1990, p. 81), estereótipo que em pouco ou nada contribui para uma concepção mais aprofundada do legado camiliano, a primeira formulação elaborada pela crítica de viés “biografista-passional” (LOPES, 2007, p. 90) que devemos deixar de lado é a divisão da obra de Camilo Castelo Branco em duas tendências opositivas, de um lado a passional e de outro a satírica. Isto porque, sustentar tal categorização, assim como notou Franchetti (cf. 2003), seria perpetuar a simplificação do cânone do escritor de São Miguel de Seide, uma vez que essa polarização mais encobre do que traz à luz elementos textuais característicos à tessitura de seus romances, elementos estes que, muito provavelmente, ainda hoje são os responsáveis pelo interesse de leitura e análise da  obra de Camilo, volumes que nunca deixaram de ser reeditados, lidos e comentados.

Sob este prisma, neste estudo, procuraremos vislumbrar aquilo que está para além dos enredos tão valorizados pela crítica, partindo da observação das especificidades de cada romance que aqui analisaremos,

Onde está a Felicidade?e Um Homem de Brios, retirando à “ênfase [d]os aspectos narrativos” (FRANCHETTI, 2003, p. XVII), as tradicionais sínteses diegéticas, e privilegiando os “aspectos ligados à enunciação” (FRANCHETTI, 2003, p. XVII), aqueles que tornam a ficção camiliana matéria perenemente viva.

Entretanto, para chegarmos à análise destes expedie ntes, uma reflexão acerca da condição de escritor profissional de Camilo se faz imprescindível, um estatuto que não diminui nem o valor nem a importância de sua obra, mas sim a particulariza. Primeiramente, façamos um breve preâmbulo acerca do ambiente literário oitocentista no qual Camilo se insere.

Como sabemos, o século XIX é um período de profundas transformações sócio-culturais no âmbito europeu, e m decorrência, fundamentalmente, das Revoluções Industrial e Francesa, em Inglaterra e França, respectivamente. Isto porque estas revoluções, ambas ocorridas em meados do século XVIII, deflagram a decadência do mundo antigo, com seus valores aristocráticos e sua arte cortesã, e determinam, em definitivo, o surgimento do mundo moderno, capitalista e burguês. Com efeito, a dupla revolução, com a conseqüente ascensão da burguesia, modifica de tal forma a estrutura medieval até então em vários sentidos vigente, que finda por dar início ao longo século XIX europeu (cf. HOBSBAWN, 2006), somente encerrado com a primeira grande guerra mundial.

No que concerne às mudanças na forma de concepção da arte literária deste período, tema que aqui nos interessa focar, segundo Arnold Hauser, em sua História Social da Literatura e da Arte , a classe média alcança o poder econômico, social e político na Europa e faz com que “a arte cerimonial das cortes” (1973, p. 646) perca muito de seu prestígio e ceda o poder artístico ao gosto desta classe, de modo que, já no final do século XVIII e início do século XIX, “a única arte digna de consideração na Europa [...] é a burguesa”
(1973, p. 646).

Nesse sentido, a arte cortesã, marcadamente decorativa, cerimonial  e ostentativa, deixa de ser tão bem quista face ao advento da arte de gosto burguês, focada no indivíduo e em suas experiências  cotidianas vividas em um mundo no qual os valores tradicionais, como a imobilidade social, a honra e a família, perdem muito de sua importância e o dinheiro se torna o elemento sine qua non para a vida em sociedade – trata-se de um ambiente pautado pelo capitalismo, não o podemos esquecer. Entretanto, vale notar que, para além da alteração na mundividência literária do período, a transformação do concerto social oitocentista acarretou uma outra e fundamental mudança no que tange àquele que antecede a obra literária, o escritor.

Se no mundo tradicional o mecenato era o responsáve l pela sobrevivência e prestígio do escritor, no mundo cap italista o autor se depara com a inaudita empreitada de comercializar suas obras, que se tornam bem de consumo, mercadoria da qual passa a advir o sustento dos homens de letras.

Sob este prisma, como decorrência incontornável des ta nova ordem mundial, os escritores oitocentistas encontram-se, inexoravelmente, atrelados às regras do mercado editorial e às expectativas de leitura do público oitocentista que surgem com a ascensão da burguesia. Acerca do apare cimento deste conjunto de leitores e de suas características, observa Hauser:

Na segunda metade do século [XVIII, na Inglaterra], a proteção dos escritores pelos particulares desaparece definitivamente, e por volta de 1780 nenhum escritor está à mercê ou depende do patrocínio privado. O número de poetas e homens de letras que vivem das suas obras de arte aumenta de dia para dia, exatamente como sucede com o número de pessoas que lêem e compram livros [...].” (1973, p. 699). “[...] um novo público com hábitos de leitura regular, isto é, um círculo relativamente largo que lê e compra livros com regularidade, assegurando assim a numerosos escritores um modo de vida livre de obrigações pessoais. A existência deste público deve-se, em primeiro lugar, à proeminência cada vez maior da cl asse média abastada, que rompe as prerrogativas culturais da aristocracia e manifesta um interesse vívido e cada vez maior pela literatura. Os novos detentores da cultura não pode m produzir indivíduos com personalidade, ambiciosos e suficientemente ricos que bastem para desempenhar o papel de grandes patronos, mas são suficientemente numerosos para garantir um mercado de livros que assegura a manutenção aos escritores. (1973, p. 689-690).
  
No que diz respeito às expectativas de leitura deste novo público, de acordo com a crítica Sandra Vasconcelos, estudiosa que segue o pensamento de Ian Watt, os leitores buscavam em obras literárias “um meio expressivo mais simples, direto e, portanto, mais próximo da linguagem cotidiana do homem comum” (2002, p. 15). E o gênero literário qu e surge de modo a atender estes anseios é o romance, forma que intenciona, constantemente, ser um “relato autêntico das experiências reais dos indivíduos” (2002, p. 14) e que “levanta de forma aguda o problema da correspondência entre a obra literária e a realidade que ela imita.” (2002, p. 13). Uma peculiaridade também muito enfatizada por pesquisadores é a acentuada presença da mulher, “leitora” burguesa com anseios literários muito particulares: preencher o vasto tempo ocioso com uma literatura que se aproxime de sua realidade.

Consoante Vasconcelos, a ascensão do romance possui justamente esta “base sociológica” (2002, p. 20) marcada pelo domínio sócio-cultural da burguesia de então. Em outros termos, o romance surge e se consolida – em contraposição ao que tínhamos anteriormente com as estórias romanescas “tediosamente long[a]s e artificiais” (VASCONCELOS, 2002, p. 15) ao gosto cortesão – devido a sua proximidade com o real e o compromisso com a verossimilhança interna à obra de arte (cf. VASCONCELOS, 2002, p. 28), elementos estes que correspondem àquilo que, segundo a autora, queria ser lido pelo público burguês.

Como particularidade relevante deste novo gênero, v ale notar, como não poderia deixar de ser, sua relação de dependência junto ao mercado editorial oitocentista. Visando lucros imediatos, muitas vezes, alguns romances somente conseguiam ser editados em volume depois de serem publicados em forma de folhetim em periódicos e aprovados pelo público: “Dentre os meios de expressão cultural de que o novo público se alimenta, os periódicos – a grande novidade da época – [...] são os mais importantes. É deles que a classe média recebe sua cultura literária e social [...]”. (HAUS ER, 1973, p. 693). Dessa forma, encontramos na Europa do século XIX, um público leitor ávido por romances e folhetins e um mercado editorial sedento por autores que os escrevessem de forma a agradar e suprir essa demanda gerando proveitos financeiros: um movimento capitalista muito próprio do mundo moderno no qual a literatura passa a ser bem agregado de valor comercial.

Passando especificamente ao espaço português, nele encontramos o mesmo processo de mercantilização do meio artístico, porém, com alguns anos de defasagem – em Portugal, o século XIX somente tem seu início em aproximadamente 1820, com o advento da Revolução Liberal. Uma diferença temporal que influencia diretamente na produção literária comercial no país, pois, enquanto na França, por exemplo, autores profissionais como Honoré de Balzac, o primeiro escritor francês a viver somente de sua escritura, já estavam praticamente encerrando sua carreira – Balzac morre em 1850 –, em Portugal este ofício está em vias de se iniciar. Camilo Castelo Branco, equivalente português de Balzac por ser, como já mencionamos, o primeiro em seu país a estrear a profissão das letras, publica seu primeiro romance de atualidade em 1854, o volume A filha do acerdiago.

Contudo, como já dito, ainda que possamos identificar um distanciamento temporal entre a nação portuguesa e o restante da Europa mais imediatamente atingido pelos efeitos da dupla revolução, encontramos no século XIX um Portugal dominado pelas relações capitalistas e pela classe média burguesa, que passam a reger, de forma análoga ao restante da Europa, o gosto literário, o mercado editorial e a pena dos literatos da época. Posto desse modo, pode restar a impressão de que os escritores oitocentistas fossem meros autores de obras feitas tão somente para aprazer o público leitor. No entanto, não é esta posição passiva que encontramos , ao menos, nos escritos de Camilo Castelo Branco, um dos que mais viveram essa realidade mercadológica inerente ao século XIX, mas que nem por isso se submeteu, sem maiores questionamentos, a ela. Vejamos, então, como Camilo lida com este contexto literário oitocentista.

Para que livros sejam vendidos, é necessário que ha ja um público leitor diretamente interessado na matéria que os compõem. Nesse sentido, seguindo esta premissa incontornável, Camilo, escritor profissional, encontrava-se perante a tarefa de agradar o público de sua época, ou seja, tinha que escrever aquilo que queria ser lido, até mesmo porque era isto que garantia sua subsistência: “só pode escrever para a posteridade quem tem seguro o que comer.” (FRANCHETTI, 2003, p. XXIV). Todavia, um problema fulcral se punha diante da pena de Camilo: sua intenção de crítica à sociedade de seu tempo não podia escapar da economia de suas obras:

O problema consistia, essencialmente, em conciliar o gosto ‘poético’ dos leitores, sempre interessados numa ficção que lhes proporcionasse uma visão da vida mais atraente do que a própria vida, capaz de lhes criar uma evasão fácil em mundos ideais, com a preocupação, tão característica do ro mance de atualidade, segundo o modelo da Comédie Humaine de Balzac, isto é, pintar os costumes de uma sociedade que, no plano do real, se movia por forças que eram a negação daqueles ideais que os leitores procuravam imaginativamente no mundo da ficção. (CASTRO, 1991, p. 53, grifo do autor)

Em outros termos, Camilo encontrava-se ante a difícil empreitada de satisfazer o público leitor e o mercado editorial d e sua época, que buscavam em uma obra a idealidade de um romance de temática amorosa, ao mesmo tempo em que se dedicava à análise de sua contemporaneidade: a argentária sociedade portuguesa oitocentista, o ambiente literário de sua época etc. Como conseqüência imediata desta composição entre ‘ideal e ‘real’, da qual o autor não abriu mão, Camilo compôs os almejados enredos passionais, porém enquadrados e indissociáveis do contexto social e literário que o circundava.

Nesse sentido, como implicação direta à realização textual, podemos tomar a narrativa camiliana como uma estrutura composta por dois planos, um que compete à superficialidade dos ansiados entrechos romanescos passionais – o nível da narrativa ou do enunciado –, já muito  abordados pela crítica “biografista-passional” (LOPES, 2007, p. 90), e outro mais profundo e complexo – o plano da narração ou da enunciação –, que a todo o momento irrompe à superfície do texto e a ela se mescla, propondo releituras, o plano camiliano de cariz reflexivo e analítico até hoje pouco estudado.

Em poucas palavras, o primeiro plano concerne ao nível da narrativa, fabulações feitas ao gosto do público e do mercado editorial, e o segundo plano se refere ao nível da narração, onde são aplicados recursos de modo a rever o que foi veiculado nos episódios da narrativa, sendo a voz do narrador camiliano a grande responsável por esta aplicação.

Dessa maneira, cabe-nos aqui, primeiramente, revelar o que constitui este nível mais profundo da ficção camiliana, promovendo a análise de alguns elementos que o compõe, para que, a partir d esta verificação, possamos vislumbrar quais são as implicações de seu s empregos para a economia do texto camiliano, principalmente, no que tange às temáticas centrais de cada obra. Alguns destes expedientes, sobre os quais nos deteremos neste estudo, já foram elencados pelo estudioso contemporâneo Paulo  Franchetti  (2003),  recursos  relativos  aos  “aspectos  da  enunciação” (2003, p. XVII), tais como a ironia e o constante jogo com as expectativas de leitura.

Vale ressaltar que o primeiro deles, a ironia, será analisado no romance Onde está a Felicidade?, visto que, como veremos, ele nos conduz a uma interpretação mais aprofundada acerca da temática fulcral que figura neste volume, a crítica à argentária sociedade portuguesa oitocentista; e o segundo, o jogo com as expectativas de leitura, será abordado por meio da apreciação da obra Um Homem de Brios, uma vez que, como se dará a conhecer, este exemplar constitui, como um todo, um grande jogo com anseios literários do público leitor e do mercado editorial de sua época, a partir do mote fundamental deste romance, a relatividade do sentimento humano. Passemos, então, à análise destes recursos.


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Fonte:
Ana Luísa Patrício Campos de Oliveira: "A ficção camiliana para além de histórias de amor". (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernando da Motta de Oliveira). São Paulo, 2008.

Uma praga rogada nas escadas da forca, de Camilo Castelo Branco (Conto)

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A equação vida-obra

Camilo Castelo Branco, como o primeiro escritor português profissional que foi, produziu muito e sempre teve, em vida, um público cativo e bastante variado. Com a necessidade de atender às demandas de um mercado editorial exigente e em ascensão, Camilo utilizou todos os recursos de que dispunha para agradar seus leitores e assim garantir o seu sustento. Não é à toa, portanto, que o escritor abusará na construção de um narrador que, no mais das vezes, confunde-se com o próprio autor e utilizará sem restrições o eterno discurso da veracidade de suas histórias.

Concomitante a essa preocupação em vender seus romances, vive também o indivíduo Camilo que, incontestavelmente, possui uma biografia romanesca, repleta de temas que, de fato, o escritor parece recuperar em sua escrita: a orfandade, o rapto e fuga com Patrícia Emília, o caso de amor adúltero com Ana Plácido, o cárcere, a loucura do filho Jorge, a doença.

Não me interessa aqui discutir o porquê da recorrência destes temas na ficção camiliana. Seja porque Camilo produzia baseando-se em sua vida, seja porque via nisso uma espécie de manobra comercial, o escritor aproximou de tal forma sua obra de sua vida que, mesmo depois de sua morte, a discussão acerca da relação entre ambas continuou ganhando força.

Tamanha foi a importância dispensada a esta relação que, um ano após a morte de Camilo (1º de junho de 1890), Alberto Pimentel publica um livro intitulado O romance do Romancista: vida de Camilo Castelo Branco, com a proposta de, como já sugere o título, transformar a vida do romancista Camilo em um romance, articulando passagens biográficas e trechos ficcionais encontrados na produção do escritor. Ainda seguindo esta mesma linha de atuação, algumas décadas mais tarde, já em 1942, Teixeira de Pascoaes publica o que chamou de “biografia romanceada” de Camilo Castelo Branco, intitulada O Penitente.

O fato é que este interesse incessante pela vida arrebatadora de Camilo ganha força através de tais publicações biográficas e passa a integrar também os estudos críticos sobre a sua vasta obra. Estes estudos que até então procuravam através da obra compreender a vida, parecem agora seguir o caminho inverso, buscando na vida a compreensão da obra.

Já no estudo As modernas idéias na Literatura Portuguesa, de Teófilo Braga, crítico contemporâneo a Camilo, é possível notar a recorrência de análises biográficas. Para justificar a variedade de posturas adotadas por Camilo em suas diversas produções, Braga aponta para dois elementos biográficos que, mais tarde, como veremos, estarão no cerne do que virá a ser a tradição crítica camiliana. Em primeiro lugar, o estudioso destaca a condição comercial do escritor que “obedeceu às necessidades materiais de cada dia pondo-se à mercê das exigências dos livreiros” (1892, p.241).

Assim sendo, segundo Braga, pelo fato de depender financeiramente da venda de seus livros, Camilo não poderia aderir completamente a um ou outro discurso, desenvolvendo, portanto, uma atividade que “não o deixava seguir um plano de vida, nem prosseguir uma idéia fundamental” (1892, p.242). Paralelamente a essa condição comercial que, segundo Carlos Reis traz “repercussões negativas” (1990, p.75) à obra do escritor, há ainda segundo Braga um fator preponderante no indivíduo Camilo: o temperamento instável, resultado de “uma vida tempestuosa, começada por uma infância aos baldões, por uma adolescência irresponsável, sem disciplina, ao acaso dos recursos econômicos, e à aventura dos afetos [...]” (1892, p. 241).

Estas duas características do escritor de Amor de Perdição – a condição comercial e a instabilidade emocional – justificariam a existência em Camilo de “dois escritores, que se destacam claramente em sua obra: o idealizador sentimental, religioso, afetivo, e o caricaturista cheio de ironias, comprazendo-se em representar as aberrações risíveis da natureza humana” (1892, p.240).

Parece ser, em certa medida, a partir das análises de Teófilo Braga que grande parte dos estudos críticos passaram a adotar essa visão dualista do legado camiliano e as justificativas para esta dualidade continuam tendo sua origem na biografia do autor.


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Fonte:
Juliana Yokoo Garcia: "Amores contrariados, puros e abnegados?" (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Professor Doutor Paulo Fernando da Motta de Oliveira). São Paulo, 2008.

Cousas que só eu sei (Conto), de Camilo Castelo Branco

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O brasileiro na obra de Camilo Castelo Branco

A época da Independência constituiu-se, portanto, como um primeiro período privilegiado para se apreender as imagens e representações, próprias a cada uma das respectivas elites políticas e intelectuais, indicando os valores distintos que uma cultura política comum tinha a capacidade de assimilar. Objetivos e anseios distintos levaram à elaboração de imagens entre colônia e metrópole, que perduraram ao longo do século XIX e que podem ser encontradas, inicialmente, na polêmica estabelecida entre os principais jornais e folhetos da época, tanto aqueles publicados no Brasil, quanto em Portugal. Do lado de cá, os brasileiros viam nos escritos impressos em Lisboa um meio para "inflamar os espíritos e promover a desunião do Brasil", devido aos insultos que traziam. Do lado de lá, os portugueses procuravam ressaltar a ingratidão do Brasil em relação à Pátria-Mãe, que lhe concedera tantos benefícios sob a forma do constitucionalismo, ao buscar nesse momento quebrar a integridade do império através de sua separação. (Lúcia Maria Bastos Pereira Neves, Brasil e Portugal: imagens e percepções distintas entre povos irmãos ao longo da primeira metade do oitocentos, 2005).

A figura do brasileiro na literatura portuguesa só aparece com destaque a partir das novelas camilianas. Até então, havia apenas o interesse pelo comércio e pela emigração nessa relação luso-brasileira. Alexandre Herculano escreveu Futuro Literário de Portugal e do Brasil, na Revista Universal Lisbonense, de 1847, e comentou a respeito do avanço do progresso literário no Brasil e sobre o acontecimento da literatura portuguesa em terras brasileiras. A ótica de Alexandre Herculano sobre o Brasil é outra, diferente da de Garrett. Para Herculano, o Brasil representava um grande mercado de obras literárias portuguesas, uma visão até certo ponto mercantilista, enquanto para Garrett o cenário brasileiro apresenta-se de forma valorosa, substancial, quanto à questão especificamente literária.

Camilo Castelo Branco apresenta uma obra volumosa e repleta de aspectos culturais atinentes ao Portugal do século XIX. Apresenta diversas facetas da sociedade e persiste na utilização dos morgadios e de velhos preconceitos, apontando assim para os aspectos arcaicos, em relação às literaturas inglesas e francesas, de sua obra. Um inconformismo marca a biografia de Camilo, e a sua literatura será espelho desse 34 sentimento: antipatia pelo espírito burguês, à caça ao lucro e ao dote, e críticas severas ao brasileiro. É através da expressão caricatural, sobretudo, que o autor expressa suas críticas, utilizando-se, ao mesmo tempo, de uma linguagem sarcástica e cheia de densidade, objetividade e de persuasão. Camilo retrata com fidelidade as figuras nortenhas de seu tempo, alcançando a análise que talvez nenhum outro ficcionista tenha conseguido realizar.

A relação luso-brasileira de Camilo inicia-se quando, após uma desilusão amorosa, em 1855, o escritor decide ir para o Brasil e esquecer o passado angustiante. Tal decisão deu-lhe o adido honorário na delegacia portuguesa do Rio. Mas Camilo não consegue vir para o Brasil concluir seus planos e decide então ir para o norte de Portugal, onde encontra um intenso movimento emigratório para o Brasil.

No ano seguinte, em 1856, escreve A Neta do Arcediago, uma primeira história denunciadora do olhar crítico e preconceituoso do autor em relação à imagem do brasileiro. Uma sensual mulata brasileira dá a luz a um filho de um nobre português. O escritor transmite a esse filho um caráter tortuoso, cheio de comportamentos indignos perante a sociedade. Representa-se aqui a importância dessa obra camiliana por dois motivos: uma das primeiras presenças da mulher brasileira em sua obra e a transferência de toda a tragédia do romance ao filho da mulata, o brasileiro. Vale ressaltar que o jovem brasileiro por diversas vezes é tratado como o "filho da mulata". O retrato do brasileiro é notadamente marcado por Vieira:

Nas primeiras melodramáticas e românticas novelas de Camilo, essas figuras impulsionam a acção e são mostradas como exemplo das riquezas ganhas do Brasil. Os portugueses brasileiros são descritos como truões materialistas, gordos e burgueses, em evidente contraste com os jovens idealistas portugueses, desafiando tudo e todas para o campo amoroso. Os brasileiros são desdenhados e ridicularizados pelo ultra-romântico, antiburguês e satírico Camilo, por serem contrários ao ideal romântico. Eis porque eles, seu mundo e contactos com o Brasil são descritos pejorativamente. Através de tais personagens, o Brasil entra indirectamente nas primeiras novelas românticas de Camilo. (VIEIRA, 1991:86)

Nessa passagem, Vieira oferece um possível entendimento de toda a caricaturização feita por Camilo dos portugueses brasileiros, quando aponta o nãocumprimento do ideal romântico por parte destes. Decorre então toda a descrição torta e defeituosa do tipo aqui analisado. São os ideais românticos portugueses não sendo seguidos, nem respeitados pelos brasileiros.

Um outro acontecimento, a visita do Imperador do Brasil a Portugal em 1871, aproxima o brasileirismo à obra de Camilo Castelo Branco. Tal visita de D. Pedro não é bem recebida por parte dos jovens portugueses. Camilo, mesmo tendo em sua mente já alguma visão sobre a brasilidade, recebe em sua casa o Imperador e se vê, em alguns momentos, tendo que agir em defesa de D. Pedro. É justamente neste período que surgem incisivamente os pseudobrasileiros e os verdadeiros brasileiros nos romances camilianos. Na verdade, poucos são os brasileiros nativos, fazendo valer significativamente no roteiro bibliográfico do escritor a presença dos retornados, dos portugueses brasileiros, sendo sempre vistos de forma depreciativa pelas outras personagens dos romances.

[...]


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Fonte:
Fábio André Cardoso Coelho: "Personagens brasileiras no romance português do século XIX". (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras – área de concentração em Literatura Portuguesa, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, como requisito parcial à obtenção do título de mestre. Linha de Pesquisa: Literatura Portuguesa e outros campos do saber Orientador: Prof. Dr. Sérgio Nazar David). Rio de Janeiro, 2005.